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Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikovO milionário norte-americano Mr. West (Porfiri Podobed) viaja até à União Soviética e, para o proteger, leva o guarda-costas Jeddie (Boris Barnet), um voluntarioso cowboy, pois a imagem que ele tem dos bolcheviques é a de bárbaros selvagens, sujos e feios, mostrada pelas revistas americanas. Na Rússia, a impulsividade Jeddie leva-o perder-se do patrão, acabando mesmo temporariamente preso. Enquanto isso Mr. West é vítima de trapaceiros contra-revolucionários, como o antigo nobre Shban, (Vsevolod Pudovkin) a ex-condessa (Aleksandra Khokhlova) e o seu dandy (Leonid Obolensky) e um zarolho (Sergey Komarov). Estes servem-se do medo de Mr. West para simular um rapto por bolcheviques como os das revistas, para depois o salvarem e lhe extorquirem dinheiro. Mas a polícia chega, salva Mr. West e leva-o a ver os verdadeiros bolcheviques.

Análise:

Lev Kuleshov foi um actor, cineasta e teórico do cinema nos primeiros anos após a revolução russa de 1917, quando o poder soviético definia novas regras, vendo na sétima arte uma arma a ser usada em defesa dos seus valores. Tendo começado como actor nas produções de Aleksandr Khanzhonkov, Kuleshov foi director da VGIK (Escola Estatal de Cinema Soviético), onde começou a definir aquilo que se chamaria a teoria de montagem, e mais concretamente o chamado «efeito Kuleshov». Nele, Kuleshov mostrava que, justapondo imagens descorrelacionadas, o cérebro humano vai sempre procurar correlação e inferir emoções dessas sucessões de imagens, o que pode ser usado em benefício da história a contar e daquilo que se quer fazer o espectador sentir.

Embora mais famoso hoje como teórico, que pelos filmes que nos deixou, Lev Kuleshov foi figura importante no cinema experimental russo, com documentários e obras de ficção. Entre estas últimas, o seu primeiro grande destaque foi o filme “As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques”, um filme ainda longe do formalismo estético que se seguiria nas obras dos seus contemporâneos, mas já procurando introduzir a montagem como elemento importante na construção da narrativa visual, com mudanças rápidas de planos que duravam, geralmente, pouco mais de um ou dois segundos.

Lev Kuleshov faz isto através de um filme, no mínimo caricatural, que tem uma premissa tão simples quanto ingénua. Esta é a visita de um milionário cidadão norte-americano à Rússia, apropriadamente chamado Mr. West (Porfiri Podobed). Mr. West chega temeroso, acreditando (através das revistas americanas) que os russos, que é como quem diz, os bolcheviques, como são aqui genericamente chamados, são bárbaros selvagens, sujos, feios, brutos e maus. Para se defender, Mr. West leva o seu guarda-costas Jeddie (Boris Barnet), um intrépido cowboy (e ele sim um bruto), cuja demasiada iniciativa o vai tornar inútil ao patrão. Mas nem tudo corre bem, e Mr. West acaba por ser vítima de um esquema de um grupo de ladrões, liderados por um mestre trapaceiro (Vsevolod Pudovkin) e onde se inclui uma ex-condessa (Aleksandra Khokhlova). Estes, exemplos de contra-revolucionários czaristas, vão usar o medo que Mr. West tem dos bolcheviques selvagens, para se vestirem como tal, e assim tentarem extorquir-lhe dinheiro. No final tudo se resolve, Mr. West é salvo, e as autoridades soviéticas levam-no a conhecer o verdadeiro homem bolchevique. Obviamente, após o que vê (desde a Universidade ao Bolshoi e a uma parada no Kremlin), Mr. West está rendido, e escreve para casa a mandar destruir todas as revistas mentirosas, e a pedir um retrato de Lenine na parede do seu escritório.

O filme de Kuleshov, em tom de comédia, e nalgumas vezes derivativo do burlesco de Hollywood, era, claramente, um simples acto de propaganda que pretendia mostrar como no Ocidente se tinha uma ideia errada da União Soviética, e que uma vez desmistificada essa ideia, o mais certo era o homem ocidental querer ser também bolchevique.

Este hino à superioridade ideológica mostra como, afinal, o mais bruto dos homens em cena é o cowboy, e como a ideia dos bolcheviques como seres abjectos e selvagens é explorada por aqueles que mais mal querem ao regime, os párias contra-revolucionários. Tal ideia seria bem vista no seu país, pese o modo caricatural com que é contada, com um Porfiri Podobed de expressão sempre excitada e permanentemente boquiaberta, de óculos redondos enormes a lembrar-nos Harold Lloyd, por entre um conjunto de actores cuja interpretação roça sempre os lugares-comuns do burlesco, de esgares sinistros, gargalhadas convulsivas, e comportamentos exageradamente dramáticos.

Com uma história simples, e um objectivo bem concreto (ridicularizar aquilo que no estrangeiro se conta sobre o homem soviético), Lev Kuleshov constrói um filme divertido, ainda que quase tão ingénuo como o seu protagonista, com uma história que se perde um pouco com o intrincado golpe dos ladrões, e acaba por ficar vítima do seu único propósito, a propaganda. Ainda longe da estética soviética que se seguiria, “As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques” é também uma sombra do superior filme que Kuleshov realizaria dois anos depois, “By the Law” (Po Zakonu, 1926), um drama criminal de implicações morais, mais afastado da lógica propagandística.

Note-se, finalmente, como em dois dos papéis principais estão dois dos alunos de Kuleshov na VGIK, Boris Barnet e Vsevolod Pudovkin, dois realizadores que rapidamente se destacariam muito mais que o seu mestre.

Porfiri Podobed em "As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques" (Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov, 1924) de Lev Kuleshov

Produção:

Título original: Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov / Необычайные приключения мистера Веста в стране большевиков [Título inglês: The Extraordinary Adventures of Mr. West in the Land of the Bolsheviks]; Produção: Goskino; País: URSS; Ano: 1924; Duração: 73 minutos; Estreia: 27 de Abril de 1924 (URSS).

Equipa técnica:

Realização: Lev Kuleshov; Argumento: Nikolai Aseyev, Vsevolod Pudovkin; Fotografia: Aleksandr Levitsky [preto e branco]; Montagem: Aleksandr Levitsky; Direcção Artística: Vsevolod Pudovkin.

Elenco:

Porfiri Podobed (Mr. John S. West), Boris Barnet (Jeddy, O Cowboy), Aleksandra Khokhlova (Condessa von Saks), Vsevolod Pudovkin (Shban), Sergey Komarov (O Zarolho), Leonid Obolensky (O Dandy), Vera Lopatina (Ellie, Rapariga Americana), G. Kharlampiev (Senka Svishch), Pyotr Galadzhev (Bandido), S. Sletov (Bandido), Viktor Latyshevskiy (Bandido), Andrei Gorchilin (Polícia), Vladimir Fogel.

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