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Hei yan quanEm Kuala Lampur, na Malásia, Hsiao-kang (Lee Kang-sheng), um imigrante chinês, é espancado por um grupo de arruaceiros, sendo recolhido por alguns trabalhadores do Bangladesh que carregam um colchão, e tratado por um deles, Rawang (Norman Bin Atun), que no decorrer do tratamento ganha um interesse erótico pelo seu paciente. Este, quando começa a ganhar autonomia, conhece a empregada Chyi (Chen Siang-chyi), que vive com a patroa (Pearlly Chua), e trata do filho desta, um homem paralisado (também Lee Kang-sheng). Entretanto, um intenso fumo começa a descer sobre a cidade colocando todos em perigo.

Análise:

Comissionado pela Peter Sellars’ New Crowned Hope Festival em Vienna em 2006, como parte do 250º aniversário do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart, “Não Quero Dormir Sozinho” é a nona longa-metragem de Tsai Ming-liang, desta vez com acção a decorrer na sua nativa Malásia, numa produção internacional, envolvendo Taiwan, China e França. Neste contexto multicultural, Tsai Ming-liang traz-nos um caleidoscópio de nacionalidades que se movem e interagem na cidade de Kuala Lampur, e onde interpretam os temas e obsessões recorrentes do realizador.

No centro, o seu actor habitual, Lee Kang-sheng, representa dois papéis. Por um lado temos Hsiao-kang, um humilde trabalhador chinês, arrastado pelo mundo nocturno, onde convive com marginais que acabam por o espancar e deixar muito maltratado. Do outro, um paciente paralisado em coma, tratado por Chyi (Chen Siang-chyi), uma empregada da sua mãe (Pearlly Chua), que toma conta do seu corpo. Hsiao-kang é encontrado por um grupo de homens do Bangladesh, que o recolhem num colchão, e um deles, Rawang (Norman Bin Atun), acaba por cuidar dele com um cuidado extremo, desenvolvendo uma afeição sensual por ele. Quando Hsiao-kang se começa a mover, vai explorando os arredores, conhecendo empregada Chyi. Sucedem-se as relações eróticas entre o trio, enquanto um intenso fumo começa a descer sobre a cidade, proveniente das florestas da Sumatra, na vizinha Indonésia, e as autoridades aconselham a saída da cidade pelo perigo que os colocan todos em perigo.

Em mais um conto surreal, Tsai Ming-liang, partindo do título, põe de imediato a ênfase no tema da solidão, com a busca de laços afectivos como motor da história. A par dele, temos a habitual alienação geral, com o episódio do fumo que isola a cidade como metáfora de doença social, já usada em “The Hole” (Dong, 1998), e a obsessão com o corpo humano, aqui na forma dos tratamentos aos pacientes.

Nesse sentido, “Não Quero Dormir Sozinho” é essencialmente uma peça de poesia visual centrada no corpo humano, e na subtil e lenta forma de o ver como objecto de sensualidade e desejo. Desde as relações sexuais (onde fazer amor de máscaras é mais um contraste entre intimidade e alienação), aos cuidados médicos (o gentil lavar do corpo com um pano húmido), dos leves toques ao pairar de uma borboleta nas costas do protagonista, tudo no filme (com os habituais longos planos fixos, e uma acção quase sem diálogo, mas com ruídos intensos que provêm dos gestos mais simples, ou de transmissões de rádio, numa incrível plétora de sonora) aponta no sentido dessa elegia poética sobre o toque, e a sensualidade que, mais que puramente sexual, se centra no simples contacto e na presença de um corpo que retire um pouco da solidão que o mundo parece impor, e onde a partilha de um velho colchão se torna metáfora de mundo confortável e de partilha íntima.

Num minimalismo de gestos e palavras, é impressionante a expressividade serena dos protagonistas, que transformam cada momento de pequenos nadas em intensos episódios. A isto, Tsai Ming-liang junta uma fotografia exemplar, onde os espaços (nas suas diversas nuances de escuridão e desconforto dos vários pisos de um prédio em construção), constantemente húmidos e molhados, são um prolongamento do movimento dos corpos e da sua busca por um conforto ulterior. Destaque ainda para a música, também ela multicultural, e intrusiva, num contraste que nos lembra do choque entre o mundo interior dos personagens e a sociedade em que se movem.

Mais vez, Tsai Ming-liang contrói uma história estranha, de contornos surreais, onde solidão e busca silenciosa resultam em momentos de poesia visual, e numa ternura tão cândida como provocadora.

Lee Kang-sheng em "Não Quero Dormir Sozinho" (Hei yan quan/I Don't Want to Sleep Alone, 2006) de Tsai Ming-liang

Produção:

Título original: Hei yan quan [Título inglês: I Don’t Want to Sleep Alone]; Produção: New Crowned Hope Vienna 2006 / Homegreen Films / Soudaine Compagnie / Centre National de la Cinématographie (CNC) / Government Information Office of the Republic of China; Produtores Executivos: Wouter Barendrecht, Simon Field, Keith Griffiths, Michael J. Werner; País: Malásia / China / Taiwan / França / Áustria; Ano: 2006; Duração: 114 minutos; Distribuição: Axiom Films (Reino Unido), Fortissimo Films; Estreia: 4 de Setembro de 2006 (Festival de Veneza, Itália), 23 de Março de 2007 (Taiwan).

Equipa técnica:

Realização: Tsai Ming-liang; Produção: Bruno Pésery, Vincent Wang; Argumento: Tsai Ming-liang; Fotografia: Tsai Ming-liang, Liao Pen-jung; Montagem: Chen Sheng-chang; Design de Produção: Gan Siong-king, Lee Tien-chueh; Figurinos: Sun Hui-mei; Direcção de Produção: Yen San Michelle Lo.

Elenco:

Lee Kang-sheng (Hsiao-Kang), Chen Shiang-chyi (Empregada do Café), Norman Atun (Rawang), Pearly Chua (Dono do Café), Liew Lee-Lin (Empregada do Café), Leonard Tee (Vendedor de Isqueiros), Toh Su-Yee (Segunda Filha do Dono do Café), Kok-Fai Chiew (Neto do Dono do Café), Rong-Sin Chan (Agente Imobiliário), Kok-Choy Loh (Financiador), Shiva (Trabalhador Indiano), Mohammad Rani Bin Baker (Ilusionista), Rusli Bin Abdul Rahim (Hooligan), Azman Hassan (Hooligan), Hariry Jalil (Hooligan).

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