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Bu San (Goodbye, Dragon Inn)É a última noite de funcionamento do cinema Fu-Ho Theatre, em Taipé, que passa o clássico de kung-fu, “Dragon Inn”. No cinema reúnem-se algumas pessoas errantes e solitárias, um velho actor do filme original, agora perdido em nostalgia, um velho que leva o neto a ver o filme, um turista japonês (Kiyonobu Mitamura) que procura um encontro homossexual, e mais um ou dois espectadores pouco atentos. Isto, enquanto a rapariga da bilheteira (Chen Shiang-chyi) tenta encontrar, nos corredores, o projeccionista (Lee Kang-sheng), que a vai evitando.

Análise:

Estreado em Veneza, “Adeus, Dragon Inn”, a segunda longa-metragem de Tsai Ming-liang no século XXI, passou na maioria dos mais importantes festivais mundiais, atestando a crescente popularidade do realizador sino-malaio junto dos críticos.

No seu jeito minimalista, quase sem diálogos (o primeiro diálogo acontece só com mais de 40 minutos de filme, e os seguintes só quase no final), Tsai Ming-liang mostra-nos um cinema em Taipé, o Fu-Ho Theatre, que faz a sua última exibição, à qual assistem apenas quatro ou cinco pessoas. Estas são uma espécie de marginais da sociedade, desde idosos saudosistas, a voyeurs, e um turista japonês (Kiyonobu Mitamura), de nítido interesse homossexual, que vai passando por todos os outros com uma curiosidade quase perturbadora. A eles juntam-se os fantasmas que o local reputadamente tem e, claro, o casal que toma conta do cinema (os habituais Lee Kang-sheng e Chen Shiang-chyi).

Enquanto lá fora chove copiosamente (uma imagem de marca de Tsai Ming-liang), o cinema passa um clássico de artes marciais, “Dragon Inn” (Long men kezhan, 1967) de King Hu, e os vários personagens, ora assistem ao filme como zombies, ora deambulam como fantasmas pelos corredores, bastidores, casas de banho e armazéns do cinema. Como habitual no autor, todos os comportamentos são desligados, alienados, e mesmo absurdos, numa total incapacidade de comunicação (se exceptuarmos as palavras finais entre dois idosos).

Numa história minimalista, o olhar prende-se nos planos fixos sobre os espectadores na sala escura, onde, embora poucos, parecem estar sempre no caminho uns dos outros, enquanto todos os ruídos parecem exagerados e perturbantes (como a rapariga que come amendoins). Tudo no filme sugere impavidez, desconforto e incómodo, desde uma cena infindável no urinol, às deambulações em corredores estreitos onde não cabem duas pessoas, passando pelos constantes vai-e-vens da rapariga da bilheteira, cujo defeito numa perna torna todas as suas caminhadas penosas, enquanto ela procura chamar a atenção do projeccionista, que nunca repara nela.

Mais atentos à projecção, os dois idosos, revelam-se como as estrelas do filme que passa na tela, a reviver os seus dias de glória, comovidos e tristes por já ninguém se lembrar deles. São de certo modo fantasmas, tal como o são os outros espectadores, e funcionários, que não se conseguem tocar uns aos outros.

Tudo nos comportamentos levar a crer numa busca de contacto (o homossexual sendo o mais sugerido), que parece sempre ausente e impossível, na habitual metáfora de tons surreais de Tsai Ming-liang, que desta vez se vale ainda do aspecto labiríntico dos bastidores do cinema, procurando planos e ângulos que sugerem uma distorção de perspectivas.

Na sua forma de mostrar essa falta de comunicação, levando tão longe quanto possível os pequenos nadas que constituem cada plano, há como que um humor negro de Tsai Ming-liang que, pegando em nostalgia (o filme de artes marciais) e numa tragédia anunciada (o fecho de mais um cinema), as mistura com os comportamentos alienados que tantas vezes aponta como ninguém.

Como curiosidade acrescente-se que o cinema de Taipé que serviu de cenário de filmagens acabaria por fechar pouco depois, mesmo antes de “Adeus, Dragon Inn” ter estreado.

Kiyonobu Mitamura em "Adeus, Dragon Inn" (Bu San / Goodbye, Dragon Inn, 2001) de Tsai Ming-liang

Produção:

Título original: Bu san [Título inglês: Goodbye, Dragon Inn]; Produção: Homegreen Films; País: Taiwan; Ano: 2003; Duração: 82 minutos; Distribuição: Homegreen Films, Diaphana Films (França), Wellspring Media (EUA); Estreia: 29 de Agosto de 2003 (Festival Internacional de Veneza, Itália), 12 de Dezembro de 2003 (Taiwan), 10 de Março de 2005 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Tsai Ming-Liang; Produção: Liang Hung-Chih, Vincent Wang; Produtor Associado: Chu Ai-Lun; Argumento: Sung Hsi; Música: Hattori Ryoichi; Letras: Chen Dei Yi; Fotografia: Liao Pen-Jung; Montagem: Chen Sheng-Chang; Direcção Artística: Lu Li-Chin; Cenários: Chang Sheng-Nan; Direcção de Produção: Chiu Yi-Chieh.

Elenco:

Lee Kang-sheng (O Projeccionista), Chen Shiang-chyi (Mulher da Bilheteira), Kiyonobu Mitamura (Turista Japonês), Miao Tien (O Próprio), Shih Chun (O Próprio), Yang Kuei-Mei (Mulher Comendo Amendoins), Chen Chao-jung (O Próprio).

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