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RitenNum país não nomeado, um juiz investigador (Erik Hell) interroga três actores, quer em conjunto, quer separadamente, acerca da controvérsia em torno da sua peça, de caracter obsceno. Eles são Thea Winkelmann (Ingrid Thulin), o marido Hans Winkelmann (Gunnar Björnstrand) e Sebastian Fisher (Anders Ek). A investigação mostra-nos que se vive entre os actores um triângulo amoroso, com Hans a pensar deixar a mulher, a qual se finge gaga para fugir às perguntas, e está apaixonada por Sebastian que se revela psicopático. Todo o processo acaba por afectar a sanidade do próprio juiz.

Análise:

Nova co-produção entre a Svensk Filmindustri (SF) e as empresas que Bergman dirigia, Personafilm e Cinematograph AB, “Ritual” foi um filme feito para televisão, e por isso um dos menos conhecidos do realizador. O filme teve, no entanto, exibição no circuito de cinemas fora da Suécia.

“Ritual” mostra-nos um Bergman amargo para com os seus pares e as autoridades, num momento em que a sua direcção do Kungliga Dramatiska Teatern (Teatro Dramático Real de Estocolmo) era posta em causa. Tal como antes, Bergman satirizava um Estado opressor e inquisitivo, que colocava a burocracia acima da liberdade artística, e tentava uma normalização de ideias e costumes, típica do período Social-Democrata da Suécia os anos 60 e 70, guiada por Olof Palme.

“Ritual” mostra-nos um Bergman amargo para com os seus pares e as autoridades, num momento em que a sua direcção do Kungliga Dramatiska Teatern (Teatro Dramático Real de Estocolmo) era posta em causa. Tal como antes, Bergman satirizava um Estado opressor e inquisitivo, que colocava a burocracia acima da liberdade artística, e tentava uma normalização de ideias e costumes, típica do período Social-Democrata da Suécia os anos 60 e 70, guiada por Olof Palme. Irónico é que a Cinematograph AB, empresa constituída para a produção de “Ritual”, seria na década seguinte perseguida pela máquina fiscal sueca, e causa de processos e prisão de Bergman, e conseguente exílio do realizador sueco.

Transportando-nos para um país não nomeado, numa quase distopia onde tudo nos surge como metáfora, desde os personagens aos espaços e cenários estilizados, Bergman conta-nos, numa série de actos (cada qual precedido de um quadro negro com o título, dando ao filme um aspecto artificial que nos distancia propositadamente do realismo) a história de uma inquisição de três actores, por um agente da justiça, o juiz Dr. Abrahamson (Erik Hell). Este interroga, primeiro em conjunto, depois isoladamente, os actores Thea Winkelmann (Ingrid Thulin), Hans Winkelmann (Gunnar Björnstrand) e Sebastian Fisher (Anders Ek), acusados de comportamentos abusivos no estrangeiro, de terem uma peça obscena, e de fuga aos impostos. Por entre os interrogatórios vemos os actores em pares, sabendo da fraca relação entre os casados Thea e Hans, da relação amorosa de Thea e Sebastian, da intenção de Hans em separar o trio, e da sobranceria de Sebastian em relação a Hans. Após um conjunto de interrogatórios inconclusivos, o Dr. Abrahamson decide que o melhor é julgar a peça, vendo-a representada para si, mas as emoções fortes que todo o processo lhe começava a causar resultam na sua morte.

“Ritual” trata-se, para todos os efeitos, de um filme enigmático, que deixa sempre a sensação de ajuste de contas, com muito de deliberadamente críptico para o espectador, e talvez bem directo para os visados por Bergman. Seguindo a linha que já vinha dos recentes “A Máscara” (Persona, 1966) e “A Vergonha” (Skammen, 1968), e mesmo do mais antigo “O Silêncio” (Tystnaden, 1963), Bergman usa a claustrofobia dos espaços fechados, em cenários minimalistas, onde faz interagir personagens intensos, à beira do colapso, em relações tensas de comportamentos quase surreais, para finalizar com o caos total que parece ser agora a sua resposta para a velha questão do silêncio de Deus.

Desse modo, onde se entende o muito de metafórico que está por detrás de cada diálogo e acção, Bergman explora aspectos psicológicos, quase num ensaio de associação livre e fluxo de consciência, num carrossel de emoções em parada e resposta de conflitos e provocações entre os diversos personagens. Tal como nos filmes citados, “Ritual” fecha-se sobre si próprio, sem nos dar qualquer noção de contexto ou realidade exterior, com os quatro personagens encerrando-se no seu próprio mundo de tramas e convulsões intestinas.

Nessas tramas, se é óbvio que assistimos ao desenvolvimento de um triângulo amoroso, há muito mais em jogo. Desde as intenções de Hans, ao comportamento quase ninfómano de Thea, à estimulação da natureza sádica do juiz (que chega à violação explícita), passando pelo aspecto psicótico e superior de Sebastian (como mostrado na sequência do incêndio). As questões de quem engana quem em termos fiscais, o que acontecerá ao triângulo amoroso, ou qual a verdadeira natureza da peça, vão perdendo importância no jogo de manipulações e vontades que se vai estabelecendo de forma nem sempre perceptível, ou óbvia. Aos poucos ganhamos a percepção de que talvez ninguém fale sinceramente, de que tudo tem várias formas de ser interpretado, e de que as formas intrincadas de cada qual se relacionar com a realidade dão um aspecto labiríntico de pesadelo e irrealidade kafkiana a todo o enredo.

Fica sempre a dúvida sobre onde quer Bergman chegar na sua sátira, com actores que interpretam actores, com todos os excessos que uns e outros se permitem, onde não faltam provocações de caácter sexual (não apenas no clímax final, como na nudez de Ingrid Thulin e na citada violação). A rudez do tema, a sua indeterminação e abordagem um tanto ou quanto enigmática (para não falar mesmo da sua débil distribuição na altura), não permitem que “Ritual” esteja ao nível dos filmes anteriormente citados. É ainda assim um olhar interessante para o modo de funcionar e de se mostrar de Ingmar Bergman.

Gunnar Björnstrand, Ingrid Thulin e Anders Ek em "Ritual" (Riten, 1969) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Riten [Título inglês: The Rite]; Produção: Svensk Filmindustri (SF) / Personafilm / Cinematograph AB; País: Suécia; Ano: 1969; Duração: 72 minutos; Distribuição: Sveriges Radio (Suécia), Janus Films (EUA); Estreia: 25 de Março de 1969 (Suécia).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lars-Owe Carlberg; Argumento: Ingmar Bergman; Fotografia: Sven Nykvist [preto e branco]; Montagem: Siv Lundgren [como Siv Kanälv]; Design de Produção: Mago; Cenários: Lennart Blomkvist; Figurinos: Mago; Caracterização: Börje Lundh; Direcção de Produção: Lars-Owe Carlberg.

Elenco:

Ingrid Thulin (Thea Winkelmann), Anders Ek (Sebastian Fisher), Gunnar Björnstrand (Hans Winkelmann), Erik Hell (Judge Dr. Abrahamson).