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What Time Is it There?Hsiao-kang (Lee Kang-sheng) é um jovem de Taiwan, que vende relógios na rua, e tem uma vida caseira triste, passando pela recente morte do pai, e hábitos deprimentes da mãe (Lu Yi-Ching). Um dia, Hsiao-kang conhece uma rapariga, Shiang-chyi (Chen Shiang-chyi), com quem, uma venda de um relógio estabelece uma espécie de contacto. Shiang-chyi vai viver para Paris e, enquanto a sua estadia lhe traz todo o tipo de más disposições, Hsiao-kang vai-se sentindo mais ligado a Paris, acertando todos os relógios para a hora francesa e vendo obsessivamente “Os 400 Golpes” de Truffaut.

Análise:

Com “What Time Is it There?”, Tsai Ming-liang passava a ter a França no seu vocabulário cinematográfico. Isto porque o filme é uma co-produção envolvendo dinheiro francês, tem partes filmadas em França, com actores franceses, e presta homenagem ao cinema francês, com referência directa a François Truffaut, e ao seu filme “Os 400 Golpes” (Les Quatre Cents Coups, 1959), de cujo protagonista, Jean-Pierre Léaud, tem mesmo um cameo.

Mas, apesar disto, o filme continua a ter todos os traços de Tsai Ming-liang, no modo de filmar, nos diálogos (ou quase sua ausência), comportamentos e obsessões dos personagens. Estes chegam-nos na história de Hsiao-kang (Lee Kang-sheng), um jovem de Taiwan, que vende relógios na rua, e sofre a morte do pai (Miao Tien). A vida em sua casa torna-se então quase anedótica, com a mãe (Lu Yi-Ching) a procurar sinais do regresso do fantasma do marido em todos os aspectos do dia-a-dia, e Hsiao-kang a começar a temer a vida em própria casa, para não afrontar o fantasma do pai, o que o leva, por exemplo, a urinar em garrafas de plástico à noite, para não se cruzar com o fantasma nos corredores de casa. Enquanto isso, Hsiao-kang encontra Shiang-chyi (Chen Shiang-chyi), uma jovem assertiva que insiste em comprar o seu relógio, o qual Hsiao-kang crê estar ligado ao pai. Perante a insistência da rapariga, Hsiao-kang acaba por vender o relógio e, sabendo que ela parte de seguida para Paris, fica obcecado com a ideia de a França estar a sete horas de diferença. Passa então a certar todos os relógios pela hora francesa, e a ver repetidamente o seu filme preferido, o citado “Os 400 Golpes” François Truffaut. Já em Paris, Shiang-chyi começa a sentir-se mal com a diferença de comportamento das pessoas, tendo reacções físicas (enjoo) a isso. Na sequência vem a conhecer o próprio Jean-Pierre Léaud (o próprio) e a ser acolhida por uma mulher de Hong Kong que se apieda dela (Cecilia Yip).

Continuando a insistir nos seus planos quase sempre fixos, de acção minimalista, parcos de diálogos, e mostrando personagens que são pouco mais que zombies, movendo-se e agindo automaticamente e sem chama, Tsai Ming-liang dá-nos mais uma história de afastamento e incapacidade de comunicação, desta vez com razões físicas (um afastamento físico de meio planeta).

Embora aqui Hsiao-kang e Shiang-chyi pareçam começar numa relação perfeitamente normal (vendedor/compradora, numa transacção algo agressiva), ambos se tornam, depois, uma espécie de fantasmas vivos, passando por um mundo com o qual não sentem afinidade. Este estado é comparado, por Tsai Ming-liang, com aquele que se vive em casa de Hsiao-kang, cuja mãe se comporta como se a cada momento o fantasma do falecido marido pudesse ser ofendido a cada esquina da casa.

Filmando com planos fixos, muitas vezes pelo enquadramento de portas, Tsai Ming-liang lembra bastante Yasujirō Ozu. A sua fotografia é agora um pouco mais luminosa, contrastando exteriores vívidos com interiores sombrios. São os comportamentos, mais que os cenários, que definem a atmosfera. Como em Ozu, são os pequenos nadas que definem as personalidades. No focar de cada personagem, Tsai Ming-liang dá-nos o seu estado de espírito que, se no cômputo geral parece quase ausente, no detalhe é intenso, perturbado, e mesmo desesperado (é no modo como Hsiao-kang tenta partir um relógio, ou como urina em garrafas, no modo como Shiang-chyi é dada a enjoos e vómitos, que se testemunham as suas convulsões internas). Mais uma vez, os personagens procuram algo, um contacto humano difícil de definir, e cuja falta que os leva a comportamentos estranhos, desligados, por vezes quase surreais. Na metáfora do tempo, é como se os relógios tivessem parado, e nada nas vidas dos seus personagens avançasse.

Cheio de detalhe, e atenção aos seus protagonistas, “What Time Is it There?” espanta pelo modo como, através de vinhetas díspares, nos deixa um sabor bem realista do que é a solidão e incapacidade de comunicação num mundo confuso de alienações globais, geradoras de tristeza e apatia.

Jean-Pierre Léaud e Chen Shiang-chyi em "What Time Is it There?" (Ni na bian ji dian, 2001) de Tsai Ming-liang

Produção:

Título original: Ni na bian ji dian; Produção: Arena Films / Homegreen Films; Produtor Executivo: Bruno Pésery; País: Taiwan / França; Ano: 2001; Duração: 110 minutos; Estreia: 15 de Maio de 2001 (Cannes Film Festival, França), 26 de Setembro de 2001 (França).

Equipa técnica:

Realização: Tsai Ming-Liang; Produção: Laurence Picollec; Produtor Associado: Chinlin Hsieh; Argumento: Tsai Ming-liang, Yang Pi-ying; Fotografia: Benoît Delhomme; Montagem: Chen Sheng-Chang; Design de Produção: Yip Tim; Direcção de Produção: Michel Imbert.

Elenco:

Lee Kang-sheng (Hsiao-kang), Chen Shiang-chyi (Shiang-chyi), Lu Yi-Ching (Mãe), Miao Tien (Pai), Cecilia Yip (Mulher em Paris), Chen Chao-jung (Homem na Estação de Metro), Tsai Guei (Prostituta), Jean-Pierre Léaud (Jean-Pierre / Homem no Cemitério), Arthur Nauzyciel (Homem na Cabine Telefónica), David Ganansia (Homem no Restaurante).

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