Etiquetas

, , , , , , ,

SkammenEva (Liv Ullmann) e Jan Rosenberg (Max von Sydow) são um casal de antigos músicos de orquestra, que deixaram a grande cidade para se refugiarem numa pequena ilha, onde vivem uma vida pacífica, dedicados à sua pequena exploração agrícola e pecuária. Mas no casal há ressentimentos e recriminações não faladas. Eva acusa Jan de cobardia quanto ao mundo, e ressente-se de não ser ainda mãe. Jan preza a apatia do seu dia-a-dia, em que nem sequer conserta o rádio para não ter contacto com o mundo. Só que o mundo, na forma da guerra civil que martiriza o país, interfere com o casal, destruindo-lhes a paz, e forçando-os a atitudes de sobrevivência, que se calhar não esperavam um do outro.

Análise:

“A Vergonha” foi o primeiro filme que Bergman filmou em nome da sua própria produtora Cinematograph AB, numa altura em que passava cada vez mais tempo em Fårö, na ilha de Gotland, que foi desta vez cenário para todo o filme. Inicialmente chamado “Kriget” (“A Guerra”), e mais tarde “Skammens drömmar” (“Sonhos de Vergonha”), o filme teve o nome sido simplificado quando o seu caráter onírico foi substituído pelo extremo realismo, Bergman dava-nos o seu único filme passado num futuro próximo, distópico.

O filme é a história de Eva (Liv Ullmann) e Jan Rosenberg (Max von Sydow), um casal de ex-músicos de orquestra que tem uma pequena exploração agrícola e pecuária, e vive dos poucos rendimentos da sua actividade. Entre os ressentimentos de assuntos mal resolvidos, e frustrações do modo mútuo de lidar com a adversidade, o casal é cada vez mais puxado para o turbilhão de uma guerra civil que assola o país, e a qual ambos tentavam ignorar. Cedo a sua propriedade é invadida, as duas facções tentam incriminá-los como traidores, os bombardeamentos trazem destruição e os próprios vizinhos, o presidente da câmara (Gunnar Björnstrand), e o perscador Filip (Sigge Fürst), tornado líder da guerrilha, os tentam usar e torturar. Resta ao casal decidir o que fazer, como resistir e sobreviver, mesmo que para isso tenha que colocar em causa todos os valores morais em que sempre tinha acreditado.

Num filme que espanta pelo realismo, e pelo minimalismo de acontecimentos, vamos testemunhando a dinâmica de um casal que, aos poucos, vai ser absorvido para uma realizade que não controla, que sempre ignorara e à qual não sabe fazer frente. Na habitual óptica pessimista de Bergman, “A Vergonha” é quase que um ensaio de personalidade, perante adversidades catastróficas. Começamos com o quotidiano de um casal que, aparentemente pacífico, transporta já alguma tensão. Eva, a romântica, questiona-se se ter deixado a cidade e a sua vida de músicos de orquestra, para se esconderem numa propriedade rural, foi uma boa decisão, ou simples cobardia. Ressente-se ainda de não ter ainda filhos, e por o marido, Jan, não querer enfrentar esse assunto. Jan, o pragmático, aparentemente deprimido, continua a preferir embrenhar-se nos seus dias sem eventos, orgulha-lhe de não ter o rádio funcional, e renega tudo o que possa vir do exterior.

Mas do exterior chega a guerra, que os vai usar como bolas de pingue-pongue, quando ambos os lados assolam a sua propriedade e os julgam coniventes com o inimigo. Primeiro na figura de soldados anónimos, depois nas dos vizinhos e partidários de facções diferentes, o casal vai ser questionado, pressionado psicologicamente, e torturado, acabando por ver a casa destruída, e viver no pânico.

O volte-face dá-se com a possibilidade que Jan vê de trair o presidente da câmara (Gunnar Björnstrand) por dinheiro, no que revolta ainda mais a esposa, que pelo mesmo dinheiro tinha aceite os seus avanços sexuais. Pragmático, onde antes fora inactivo, Jan vai ver na fuga a única sobrevivência, nem que para isso tenha de continuar a trair, como faz no episódio do soldado que procura refúgio.

“A Vergonha” é um filme amargo, em que Bergman pretende sobretudo usar um casal como um estudo de personalidades perante adversidades. Para tal usa como cenário uma guerra de que nada sabemos, com lutas ideológicas que percebemos serem extremistas, sem sabermos do que se trata. Tudo começa por acontecer quase de surpresa para nós, evento a evento, quase como num pesadelo, sendo que, para Bergman, a guerra, os seus processos, causas e consequências são irrelevantes quando comparados com o comportamento dos seus protagonistas. Por isso, é por eles que vemos tudo, e só vemos o que eles veêm, permanecendo na mesma ignorância que eles, que sempre evitaram ter qualquer envolvimento político ou ideológico.

Abordando a vergonha, o ciúme, a recriminação mútua, a desconfiança, o desprezo e a traição, o filme choca pelo realismo das interpretações, tendo um final aberto, cruel, e mais uma vez amargo (um barco que navega sem barqueiro, com Eva acreditando que tudo aquilo é o sonho de outrem), o qual não impediu que fosse elogiado internacionalmente, e nomeado para inúmeros prémios, sobretudo nos Estados Unidos, onde recebeu a nomeação para Melhor Filme Estrangeiro nos Globos de Ouro. “A Vergonha” permitiu ainda a Liv Ullman ganhar o sueco Guldbagge Award na categoria de Melhor Actriz.

Liv Ullman e Max von Sydow em "A Vergonha" (Skammen, 1968) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Skammen [Título inglês: Shame]; Produção: Cinematograph AB / Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1968; Duração: 103 minutos; Estreia: 29 de Setembro de 1968 (Suécia), 22 de Setembro de 1971 (Cinema Estúdio, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lars-Owe Carlberg; Argumento: Ingmar Bergman; Fotografia: Sven Nykvist [preto e branco]; Montagem: Ulla Ryghe; Design de Produção: P. A. Lundgren; Direcção Artística: Lennart Blomkvist; Figurinos: Mago; Caracterização: Börje Lundh; Efeitos Especiais: Rustan Åberg; Direcção de Produção: Lars-Owe Carlberg.

Elenco:

Liv Ullmann (Eva Rosenberg), Max von Sydow (Jan Rosenberg), Sigge Fürst (Filip, Líder da Guerrilha), Gunnar Björnstrand (Coronel Jacobi, Líder Municipal), Birgitta Valberg (Senhora Jacobi), Hans Alfredson (Fredrik Lobelius, Antiquário), Ingvar Kjellson (Oswald), Frank Sundström (Interrogador Chefe), Ulf Johansson (Médico no Interrogatório), Vilgot Sjöman (Entrecistador), Bengt Eklund (Guarda), Gösta Prüzelius (Vigário), Willy Peters (Oficial Superior), Barbro Hiort af Ornäs (Mulher no Barco), Agda Helin (Mulher do Mercador), Ellika Mann, Rune Lindström.

Anúncios