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The BellboyStanley (Jerry Lewis) é um dos muitos e expedientes paquetes no luxuoso Fountainbleau Hotel, em Miami Beach, na Flórida. Entusiasta, alegre e bem-intencionado, Stanley está sempre pronto a acorrer a todos os chamamentos, cumprir todas as tarefas, e agradar a todos os hóspedes. Pena é que Stanley seja desastrado e trapalhão, o que acaba por complicar o que é simples, tornando cada incumbência um pesadelo. Através de Stanley, e de uma série de sketches burlescos, acompanhamos, de forma divertida, a vida do hotel do ponto de vista dos seus mais invisíveis empregados.

Análise:

Em 1960, Jerry Lewis era já um dos mais famosos rostos do cinema e dos palcos nos Estados Unidos. Graças a uma bem-sucedida parceria com Dean Martin, a dupla estivera junta em dezasseis filmes, na televisão, e em espectáculos ao vivo, dos casinos de Atlantic City a Las Vegas. Mas era óbvio a todos que a fórmula se gastava, e impedia o verdadeiro cómico do duo, Lewis, de crescer para lá das amarras da convenção. Tal notava-se com a diminuição da importância dos papéis (e do nome nos cartazes) de Dean Martin.

A dupla terminaria em 1956 e, no ano seguinte, Jerry Lewis começava uma série de seis filmes a solo, sob a égide de Hal B. Wallis, da Paramount Pictures, iniciados com “O Delinquente Delicado” (The Delicate Delinquent 1957). É em 1959 que Jerry Lewis assina um novo contrato com a Paramount, que lhe dá controlo criativo dos seus filmes, que passam a ser produzidos pela Jerry Lewis Productions, e nos quais Lewis é o principal produtor, argumentista, e muitas das vezes realizador.

O primeiro destes novos filmes é “Cinderelo dos Pés Grandes” (Cinderfella, 1960), que Lewis insistiu que estreasse apenas no Natal. Para apaziguar a Paramount, que queria algo mais cedo, Lewis acedeu em rodar um filme mais curto, para estrear no Verão. Foi assim que nasceu, “Jerry no Grande Hotel”, que foi ainda a estreia de Lewis a realizador, por sugestão de Billy Wilder, que o comediante terá tentado trazer para o projecto.

Escrito em apenas oito dias, e filmado em quatro semanas, o filme é uma colecção de sketches, em registo quase mudo (o filme tem som, mas o humor não depende disso, e o personagem de Lewis apenas fala numa cena), de humor visual e burlesco, em homenagem aos primeiros tempos do cinema de Hollywood, e filmado no próprio local que lhe serve de mote, o Fontainebleau Hotel, em Miami Beach, onde Lewis se encontrava a dar uma série de espectáculos ao vivo. Por essa razão, a maioria dos actores e figurantes são artistas de clubes nocturnos, que trabalhavam em Miami nessa altura.

Como a finalidade era uma produção breve, Lewis trabalhou o mais rapidamente que pode, e confiou num sistema de vídeo de circuito interno, para melhor seguir a produção. Tal tornou-se a hoje habitual ferramenta, “Closed Circuit Television Applied to Motion Pictures”, da qual Lewis ficou com a patente. O facto de as palavras serem pouco utilizadas, com uma narração off a ser acrescentada em pós-produção, foi também factor decisivo para a velocidade da produção.

“Jerry no Grande Hotel” apresenta-nos uma série de vinhetas separadas sobre o quotidiano de um grande hotel, do ponto de vista daqueles que, como o narrador explica no início, são a alma da indústria hoteleira, os paquetes (bellboys, no original), paus para toda a obra, mas quase invisíveis aos hóspedes, pelo tipo de trabalhos, considerados insignificantes, que executam. Entre eles, o mais trapalhão e desastrado é Stanley (Jerry Lewis), eternamente apressado, alegre e despassarado, sempre pronto a estragar qualquer tarefa que lhe seja entregue.

O filme segue um sem número de situações, onde o humor é principalmente visual, indo do burlesco dos desastres de Stanley, a situações de surrealismo (como a foto à noite, cujo flash torna dia, ou a hóspede que emagrece e engorda da noite para o dia). Há espaço para Lewis se macaquear (por exemplo na sequência onde dirige uma orquestra invisível), para usar a sua expressão facial como fonte de humor (muitas vezes o humor reside no testemunhar de situações insólitas e reacção que estas provocam no inocente paquete), mas principalmente para mostrar a sua imaginação na criação de pequenas situações, cujo humor vem da surpresa e desconcerto (o motor do carro no porta-bagagens, a troca das chaves no lobby, os problemas com uma estátua, etc.). Jerry surge ainda como o próprio, causando comoção no hotel, e situações baseadas no facto de todos quererem estar junto a ele. Note-se ainda um dueto de Lewis com Milton Berle, e ainda o cameo de Bill Richmond (habitual parceiro de escrita de Lewis), que é uma homenagem a Stan Laurel, ídolo de Lewis, que o aconselhou quanto ao argumento, e por isso baptizou o protagonista Stanley.

Com um humor muito desequilibrado (várias sequências poderiam ser mais curtas, outras não chegam a ter piada), o filme tem uma introdução de um suposto executivo da Paramout (Jack Kruschen), que salienta que estamos perante uma comédia diferente, sem linha narrativa. É de facto uma obra meio experimental, de transição dos papéis adocicados e românticos do seu personagem-tipo ao lado de Dean Martin, para um personagem irreverente, de humor anárquico, em homenagem a Chaplin, Keaton, Laurel, mas também aos Irmãos Marx e Jacques Tati. Apesar da rapidez e baixo orçamento, o filme foi um enorme sucesso, e um exemplo do crescimento criativo de Jerry Lewis, que agora se impunha como autor de pleno direito.

Jerry Lewis em "Jerry no Grande Hotel" (The Bellboy, 1960)

Produção:

Título original: The Bellboy; Produção: Jerry Lewis Pictures / Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1960; Duração: 72 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 20 de Julho de 1960 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Jerry Lewis; Produção: Jerry Lewis; Produtor Associado: Ernest D. Glucksman; Argumento: Jerry Lewis; Música: Walter Scharf, Jerry Lewis (tema-título); Fotografia: Haskell B. Boggs [preto e branco]; Montagem: Stanley E. Johnson; Direcção Artística: Hal Pereira, Henry Bumstead; Cenários: Sam Comer, Robert R. Benton; Guarda-roupa: Pat Barto, John A. Anderson, Sy Devore, Mickey Hayes; Caracterização: Wally Westmore, Jack Stone; Efeitos Especiais: Douglas Pettibone; Efeitos Visuais: John P. Fulton; Coreografia: Nick Castle; Desenhador: John Jensen; Direcção de Produção: William Davidson.

Elenco:

Jerry Lewis (Stanley / O Próprio), Alex Gerry (Mr. Novak, Gerente do Hotel), Bob Clayton (Bob, Chefe dos Paquetes, Sonnie Sands (Sonnie, Paquete), Eddie Shaeffer (Eddie, Paquete), Herkie Styles (Herkie, Paquete), David Landfield (David, Paquete), Bill Richmond (Stan Laurel), Larry Best (Apple Man), Cary Middlecoff (O Próprio), Art Terry (O Próprio – The Novelites), Frankie Carr (O Próprio – The Novelites), Joe Mayer (O Próprio – The Novelites), Joe Levitch, Walter Winchell (narrador) [não creditado], Milton Berle (O Próprio / Paquete) [não creditado], Jack Kruschen (Executivo da Paramount) [não creditado].

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