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PersonaA jovem enfermeira Alma (Bibi Andersson) é encarregada de velar pela recuperação da famosa actriz de teatro of Elisabeth Vogler (Liv Ullman), uma mulher que, sem razão aparente, perdeu todo interesse na vida e caiu numa apatia total que a impede de agir ou dizer uma palavra. As duas vão para uma casa junto ao mar, onde Alma vai falando por ambas, numa relação que vai sendo de partilha, descoberta mútua e muita tensão, quando ambas percebem que as suas personalidades, histórias e motivações se podem estar a fundir uma na outra.

Análise:

Continuando um caminho de libertação em direcção a um cinema cada vez mais pessoal e original, Ingmar Bergman sucedia o seu surreal “A Força do Sexo Fraco” (För att inte tala om alla dessa kvinnor, 1964), com o mais ambicioso, e ainda mais complexo “A Máscara”, que era também o primeiro filme que rodava com Liv Ullman, actriz pela qual Bergman se apaixonaria no decorrer das filmagens, e que teria papel fundamental na continuação da sua cinematografia.

Com argumento do próprio Bergman, baseado numa experiência sua de internamento no hospital, e sempre guiado pelos ritmos da música clássica (neste caso Bach), “A Máscara” foi filmado parcialmente em Fårö, local onde o realizador tinha residência. O filme é a história de duas mulheres, que podem muito bem ser vertentes (ou máscaras, na tradução portuguesa) da mesma pessoa. Uma é a Elisabet Vogler (Liv Ullman), uma actriz que, repentinamente, se deu a uma completa inacção, sendo internada, apesar de nada de errado lhe ser diagnosticado. A segunda é a jovem enfermeira Alma (Bibi Andersson), encarregada de cuidar de Elisabet, acompanhando-a à sua casa de praia, onde repousa longe de tudo. Entre Elisabet e Alma estabelece-se uma grande proximidade, embora a primeira nunca diga uma palavra e a segunda fale sem parar. Nesses diálogos unidireccionais, Alma conta as suas amarguras do passado e dúvidas de vida, tentando ir de encontro àquilo que aflige Elisabet, mas esta trai a sua confiança, escrevendo as histórias de Alma, numa carta para a sua médica. A relação torna-se tensa, com Alma a sentir que se está a tornar Elisabet, chegando ao ponto de agir como tal numa visita do marido desta (Gunnar Björnstrand). Nessa osmose entre as duas, Alma força Elisabet a lidar com a verdade da não acitação do seu filho (Jörgen Lindström), após o que deixa a a casa e a sua paciente.

Quase tudo em “A Máscara” é desconcertante e irreverente. Logo na sequência de abertura, há como que uma colagem de planos desligados (que incluem um pénis erecto, excertos do filme “The Devil’s Wantom”, uma tarântula, a degolação de uma ovelha e uma crucificação), onde começamos por ver corpos que parecem estar numa morgue, com um a acordar para ler e se relacionar com imagens irreais, projectadas nas paredes. A essa composição, a lembrar um pouco a teoria de montagem da cinematografia soviética dos anos 20, junta-se ainda uma fotografia saturada, onde preto e branco não permitem quase tons de cinzento, o que resulta em rostos onde muitas vezes se vê apenas uma metade (sendo as metades que se completam um dos temas visuais mais recorrentes do filme, nas diversas composições onde os rostos das duas mulheres se completam). Temos mesmo um aparente rasgar da fita e, por fim temos os cenários estilizados (sobretudo o hospital), e um uso quase exclusivo dos grandes planos, evocativos de “A Paixão de Joana d’Arc” (La passion de Jeanne d’Arc, 1928) de Carl Th. Dreyer, sem necessidade de um raccord que decomponha cenas em vários planos. Aliás, poucas vezes foi uma narrativa tão dependente da expressão facial como nestes dois filmes, onde é o rosto, que nos guia os pensamentos e sentimentos, e que tem como melhor exemplo o facto de Bergman repetir o mesmo monólogo completo, para mostrar de cada vez o rosto de uma das actrizes.

De modo parco, cru e directo, Bergman dá-nos a relação tensa de duas mulheres, que cedo sentimos não serem mais que duas vertentes (ou personas) da mesma pessoa. Elisabet é a actriz, habituada a encarnar diferentes papéis. Não fala, pois vive internamente os seus conflitos. Alma (note-se o nome) é, por outro lado, a convulsão interna feita pessoa, falando sem parar, questionando, tentando fazer luz de todas as suas dúvidas. Por isso Alma age como esposa do marido de Elisabet, pela sua necessidade de tudo consertar. Por isso Alma sabe tudo o que levou à gravidez indesejada de Elisabet, confrontando-a com o que esta não quer enfrentar. Por isso ainda, Alma sabe que todos os comportamentos (silenciosos) de Elisabeth a perturbam, e a transformam.

Mas mais que uma interpretação racional de algum fenómeno psicológico, “A Máscara” vale sobretudo pelo complexo jogo de osmoses entre as duas pessoas (ou personalidades), num construir poético enaltecido pelas interpretações sublimes das duas divas de Bergman (e repita-se que a de Liv Ullman é feita quase sem palavras).

Sempre provocante, radical e inovador, “A Máscara” é considerado um dos melhores filmes de Ingmar Bergman, e por vezes descrito como um dos melhores filmes alguma vez feitos. Mais uma vez o autor dá-nos um olhar psicológico para temas como a morte (note-se como Elisabet apenas fala quando teme que Alma a mate), solidão, o confronto entre o indivíduo e o mundo, ilusões e frustrações, levando às máscaras da convenção que o próprio Bergman confessava ter de usar.

Pleno de simbolismo, provocação e um erotismo subjajente, “A Máscara”, que parece sair do interior de sonhos e pesadelos, mais que de uma óbvia racionalização, foi relativamente censurado nos Estados Unidos, com alguns momentos truncados. Foi essa versão que acabou nomeada aos Oscars na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Bibi Andersson e Liv Ullman em "A Mascara" (Persona, 1966) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Persona; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1966; Duração: 79 minutos; Distribuição: Lopert Pictures Corporation (EUA), United Artists (Bélgica); Estreia: 18 de Outubro de 1966 (Suécia), 28 de Dezembro de 1973 (Cinema Estúdio, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Ingmar Bergman; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Lars Johan Werle; Fotografia: Sven Nykvist [preto e branco]; Montagem: Ulla Ryghe; Design de Produção: Bibi Lindström; Figurinos: Mago; Caracterização: Börje Lundh; Direcção de Produção: Lars-Owe Carlberg.

Elenco:

Bibi Andersson (Alma), Liv Ullmann (Elisabet Vogler), Margaretha Krook (A Médica), Gunnar Björnstrand (Sr. Vogler), Jörgen Lindström (Filho de Elisabet [não creditado].

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