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SuspiriaSuzy Banion (Jessica Harper) é uma bailarina norte-americana que vem estudar ballet para uma escola célebre, numa antiga mansão de Friburgo, na Alemanha. À chegada, Suzy cruza-se com outra estudante, Pat Hingle (Eva Axén), em fuga, e que será brutalmente assassinada na casa onde se refugia. Na escola, a directora Madame Blanc (Joan Bennett) e a instrutora, Miss Tanner (Alida Valli), garantem que Pat havia sido explusa, mas a amiga de Pat, Sara (Stefania Casini) confirma a Suzy que estranhas movimentações ocorrem quando todas vão dormir, e que Pat suspeitava de bruxaria. Quando Suzy começa a sentir uma invulgar fraqueza que a obriga a ficar de cama, e quando Sara desaparece, Suzy começa a temer pela sua saúde, decidindo investigar a mansão por conta própria.

Análise:

Numa era em que o gótico tradicional parecia ter morrido, o terror procurava emoções mais fortes, com histórias de assassinos sangrentos, possessões demoníacas. Era a influência de filmes norte-americanos como “A Semente do Diabo” (Rosemary’s Baby, 1968), “O Exorcista” (The Exorcist, 1973) de William Friedkin, o gore de “Massacre no Texas” (The Texas Chainsaw Massacre, 1974) de Tobe Hooper e os infinitos slashers que proliferaram depois do sucesso de “Halloween” (1978) de John Carpenter. A Itália era então dominada pelo giallo, um género de thriller policial, com assassinatos de grande detalhe sadismo e gráfico, e onde se notabilizou Dario Argento.

Iniciando-se como jornalista, e depois argumentista de cinema, posição em que Argento teve como crédito mais destacado, o de co-argumentista (com Bernardo Bertulucci) da ópera-western, “Aconteceu na América” (Once Upon A Time in West, 1969) de Sergio Leone, daí, Argento foi progredindo numa carreira que o levaria à realização, o que aconteceu com o filme “O Pássaro com Plumas de Cristal” (L’uccello dalle piume di cristallo, 1970), um dos filmes que mais ajudou a definir, e celebrizar o Giallo. Mas Argento, estava tão interessado em usar a nova liberdade que tornava banhos de sangue e puro sadismo em atracções para as novas gerações, como estava em capturar e reinventar as velhas atmosferas de inspiração gótica.

Essa síntese surge em pleno no seu filme de terror “Suspiria”, que pode ser considerado um dos últimos exemplos do gótico clássico italiano, enquanto é já um exemplo de uma linguagem mais moderna.

Em “Suspiria”, Argento conta, em inglês, a história de Suzy Banion (Jessica Harper), uma bailarina norte-americana que ingressa numa escola famosa de Friburgo. À chegada, Suzy testemunha a fuga de Pat Hingle (Eva Axén), que mais tarde é misteriosamente assassinada na casa se refugiara. Na escola, Suzy é entusiasticamente acolhida pela directora Madame Blanc (Joan Bennett) e pela instrutora, Miss Tanner (Alida Valli), mas começa a sentir desde logo uma estranha fraqueza, que a obriga a ficar de cama nos dias seguintes. Aí torna-se confidente de Sara (Stefania Casini), que lhe conta que Pat descobrira algo sinistro, e ela está convencida de a escola alberga mais do que as professoras querem que se descubra.

Após uma série de acontecimentos perturbadores, e do desaparecimento de Sara, Suzy decide procurar um amigo de Sara, Frank Mandel (Udo Kier), um psicólogo, que estava a par das suspeitas de Pat. Este conta a Suzy a lenda da bruxa de origem grega, Helena Markos, que teria fundado um conciliábulo naquela mesma casa. Ao regressar, Suzy descobre que é a única rapariga na casa, e decide não tomar a comida que lhe trazem, o que lhe permite ficar desperta nessa noite. Suzy vai então seguir o caminho dos passos que se ouvem todas as noites, e confrontar as bruxas que dominam a escola.

Escrito a meias entre Dario Argento e a sua companheira (e regular protagonista), Daria Nicolodi, supostamente baseado em algo que terá acontecido à avó desta, “Suspiria” é uma história de horror, que alia os já citados elementos do giallo (thriller criminoso, assassinatos sangrentos, enorme detalhe gráfico repleto de sadismo), com elementos clássicos (a bruxaria) e uma atmosfera tipicamente gótica. Assim temos mortes com dilaceramento por vidros, olhos espetados por alfinetes, um corpo que cai num fosso de arame farpado, um pescoço desfeito por dentadas, etc. A isto junta-se o gótico assente, como não podia deixar de ser, num lugar (a mansão-escola, baseada no edifício neo-gótico Haus zum Walfisch em Freiburg im Breisgau, na Alemanha) que, mais que uma habitação, se torna protagonista e presença marcante da história. A isto alia-se a sombra de um passado, que enegrece os personagens presentes (as alunas da escola), as quais, como é habitual, são pessoas modernas, e que desprezam a tradição desses tempos passados.

Com este conjunto de referências, Dario Argento diverte-se construindo um ambiente irreal, onde a cor predomina, numa palete intensa, que inunda cada espaço, condicionando emoções e estados de espírito. A fotografia é por isso um dos pontos-chave de “Suspiria”, e tem sido uma inspiração para muitos realizadores. Usando cores primárias, e recorrendo a processos de impressão já em desuso, Argento consegue uma atmosfera irreal, que faz com que cada sequência nocturna pareça um sonho (algo ampliado ainda pelo constante semi-adormecimento da protagonista). Se a isto se aliar o facto de que Argento pretendia que a história fosse protagonizada por crianças de doze anos, entende-se o quanto estamos perante uma espécie de conto de fadas subvertido em conto de terror.

A ajudar a atmosfera está a banda sonora, composta e interpretada pela banda de rock progressivo, Goblin, em colaboração com o próprio realizador. Famosos pelas várias colaborações com Dario Argento, os Goblin conseguem aqui uma música inquietante e perturbadora, a qual, diz-se, era tocada no estúdio, com o intuito de enervar os actores.

Todos estes ingredientes resultam naquilo que era o objectivo de Dario Argento (e a imagem de marca da sua carreira), arrepiar e enervar o espectador, acedendo a zonas mais recônditas da psique humana, para acordar medos instintivos e viscerais (cortes em olhos, insectos que caem do tecto, sons de dilacerações, etc.), algo que Argento sempre conseguiu como poucos.

Passando aos actores, “Suspiria” foi o último filme da veterana Joan Bennett, e contou ainda com a veterana Alida Valli, uma italiana que fez carreira em Hollywood, e ficou famosa por alguns Noir nos anos 40-50. Mas o protagonismo recai sobre Jessica Harper, trazida como forma de atrair o público americano, e perfeita no papel da jovem inocente, de um mundo completamente diferente, mas de enorme força interior, não se remetendo ao desinteressante papel de uma vulgar scream queen.

“Suspiria” foi um sucesso aquando da sua estreia, cimentando internacionalmente o nome de Dario Argento, com o filme a ter distribuição internacional. Seria ainda o primeiro da chamada Trilogia das Três Mães, que inclui “Inferno” (1980) e “Mãe das Lágrimas: A Terceira Mãe” (La terza madre, 2007).

Jessica Harper em "Suspiria" (1977) de Dario Argento

Produção:

Título original: Suspiria; Produção: Seda Spettacoli; Produtor Executivo: Salvatore Argento; País: Itália; Ano: 1977; Duração: 98 minutos; Distribuição: Produzioni Atlas Consorziate (P.A.C.) (Itália), EMI (Reino Unido), International Classics (EUA); Estreia: 1 de Fevereiro de 1977 (Itália) 6 de Abril de 1978 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Dario Argento; Produção: Claudio Argento; Argumento: Dario Argento, Daria Nicolodi; Música: Dario Argento e Goblin; Fotografia: Luciano Tovoli [filmado em Technovision, cor por Technicolor]; Montagem: Franco Fraticelli; Design de Produção: Giuseppe Bassan; Cenários: Enrico Fiorentini; Figurinos: Pierangelo Cicoletti; Caracterização: Pierantonio Mecacci; Director de Produção: Lucio Trentini; Efeitos Especiais: Germano Natali.

Elenco:

Jessica Harper (Suzy Bannion), Stefania Casini (Sara), Flavio Bucci (Daniel), Miguel Bosé (Mark), Barbara Magnolfi (Olga), Susanna Javicoli (Sonia), Eva Axén (Pat Hingle), Rudolf Schündler (Prof. Milius), Udo Kier (Dr. Frank Mandel), Alida Valli (Miss Tanner), Joan Bennett (Madame Blanc), Margherita Horowitz (Professora), Jacopo Mariani (Albert), Fulvio Mingozzi (Taxista), Franca Scagnetti (Cozinheira), Renato Scarpa (Prof. Verdegast), Serafina Scorceletti (Segunda Cozinheira), Giuseppe Transocchi (Pavlo), Renata Zamengo (Caroline).

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