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Lisa e il DiavoloLisa (Elke Sommer) é uma turista americana em Espanha, que após ver um fresco que representa o diabo se deixa perturbar, perdendo-se do seu grupo. Após uma série de perseguições pela vila espanhola, Lisa acaba por pedir boleia ao casal Lehar (Sylva Koscina e Eduardo Fajardo), cujo carro avaria em frente de uma casa antiga. Lá dentro, os turistas são acolhidos por Max (Alessio Orano), a sua contrafeita mãe (Alida Valli) e o estranho mordomo Leandro (Telly Savalas), o qual passa o tempo a carregar estátuas que aparentam ser humanas, para constante susto de Lisa, que vai vendo os seus companheiros serem estranhamente assassinados, e as mesmas estátuas parecerem ter vida.

Análise:

Continuando a sua senda de realizador mais emblemático do cinema de terror de cariz gótico de Itália, Mario Bava (aqui assistido pelo seu filho e futuro realizador, Lamberto), prosseguia no género, nos anos 1970, com uma co-produção Italo-hispano-alemã.

Com os atractivos de ter nos papéis principais o americano Telly Savallas, e a nova scream queen, Elke Sommer, para além da antiga celebridade Alida Valli, “Lisa e il Diavolo” é uma estranha história de contornos fantasistas e alusões fantasmagórico-diabólicas, cumprindo a tradição de Bava, de tentar inovar a cada filme.

A história acompanha Lisa, uma turista americana numa povoação espanhola, que ao deixar-se impressionar por um fresco que mostra o Diabo a conduzir almas, se perde do seu grupo para, numa loja, se deixar sugestionar pela aparência de um comprador, Leandro (Telly Savalas) no qual ela vê semelhanças com o Diabo do fresco.

Depois de uma perseguição por um homem que Lisa crê ser o boneco que Leandro carrega, ela consegue boleia de mais um casal estrangeiro, Sophia (Sylva Koscina) e Francis Lehar (Eduardo Fajardo). Mas o carro avaria em frente de uma antiga casa aristocrática, onde os turistas são recebidos por Max (Alessio Orano), a condessa sua mãe (Alida Valli) e o mordomo, que não é mais que Leandro que antes atemorizara Lisa. Desde logo o trio se sente desconfortável naquela casa, e as mortes começam a suceder-se. Pelo meio Max vai confessando o seu amor a Lisa, como se já a conhecesse, invocando a fúria da sua mãe, enquanto um misterioso Carlos (Espartaco Santoni), que Lisa crê ser o boneco de Leandro, a vai querer salvar. Enquanto isso Leandro vai acumulando bonecos de tamanho humano, como que recriando uma qualquer cerimónia macabra.

Com uma atmosfera que parece um contínuo pesadelo, Maria Bava filma com um requinte e qualidade técnica muito acima do que habitualmente lhe era permitido. Os cenários são agora impecáveis, e os movimentos de câmara rebuscados, na construção de um ambiente que é ao mesmo tempo surreal e ameaçador.

O gore não deixa de se fazer rogado, com inúmeras mortes e mutilações sangrentas, mas tudo misturado com um ar de irrealismo que nos deixa (e a Lisa) sempre com a dúvida de estarmos a observar algo real ou apenas a sonhar. Essa ambiguidade é explorada ao máximo com os comportamentos de Leandro, as constantes transformações entre bonecos e pessoas, e a atmosfera de loucura patente em personagens como Max e a sua mãe, que parecem presos a qualquer passado misterioso.

Por toda esta trama, Lisa conduz-nos na sempre estridente interpretação de Elke Sommer, no papel da vítima perfeita e desejada sexualmente (as cenas de nudez são também uma constante). À medida que a história avança e os mortos se acumulam, começa a fazer-se alguma luz (num filme que decorre quase todo numa noite), a qual alude a um crime passional passado de uma mulher (Elena) parecida com Lisa, e um homem que é agora imitado pelo boneco de Leandro.

Sem termos uma consciência concreta do que terá de facto acontecido, vemos o quanto isso afectou alguns personagens, como a condessa, hoje cega, mas nem por isso menos fatal, ou Max, que percebemos ser dado a necrofilia, mantendo consigo o cadáver de Elena, o qual chega a testemunhar a violação de Lisa por ele.

“Lisa e il Diavolo”, um filme bem filmado e visualmente bastante eficaz, tem assim, apesar de algumas fragilidades de argumento, o condão de nos prender pela originalidade e mesmo pelo grotesco de uma história surreal que faz da paranóia, loucura e necrofilia pontos de interesse. A isto alia-se um final que nos mostra que talvez Lisa já tenha passado para uma outra dimensão e Leandro é bem mais que um excêntrico mordomo, fazendo-nos reler toda a história, e perceber que esta se esconde atrás de sucessivas camadas.

“Lisa e il Diavolo” foi um fracasso comercial, e Alfredo Leone convenceu Mario Bava a alterá-lo de modo a colá-lo ao sucesso de “O Exorcista” (The Exorcist, 1973) de William Friedkin. Para tal foram filmadas novas cenas com Elke Sommer, introduzido o personagem de um padre, interpretado por Robert Alda, e feita nova montagem para que o exorcismo fosse o tema central. O filme teve como título “A Casa do Exorcismo” (The House of Exorcism) sendo distribuído nos Estados Unidos em 1975.

Elke Sommer, Telly Savalas e Alida Valli em "Lisa e il Diavolo" (1973) de Mario Bava

Produção:

Título original: Lisa e Il Diavolo [Título inglês: Lisa and the Devil]; Produção: Euro America Produzioni Cinematografiche / Leone International / Roxy Film / Tecisa; País: Itália / República Federal Alemã / Espanha; Ano: 1973; Duração: 95 minutos; Estreia: 1973 (França), 2 de Abril de 1975 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Mario Bava; Produção: Alfredo Leone; Argumento: Mario Bava, Alfredo Leone, Giorgio Maulini [não creditado], Romano Migliorini [não creditado], Roberto Natale [não creditado], Francesca Rusishka [não creditado]; Música: Carlo Savina; Fotografia: Cecilio Paniagua [cor por Eastmancolor]; Montagem: Carlo Reali; Direcção Artística: Nedo Azzini; Cenários: Rafael Ferri; Caracterização: Franco Freda; Director de Produção: Fausto Lupi, Efeitos Especiais: Franco Tocci.

Elenco:

Telly Savalas (Leandro), Elke Sommer (Lisa Reiner), Sylva Koscina (Sophia Lehar), Alessio Orano (Max), Alida Valli (Condessa), Gabriele Tinti (George, o Motorista), Kathy Leone (Amiga de Lisa), Eduardo Fajardo (Francis Lehar), Franz von Treuberg (Lojista), Espartaco Santoni (Carlos).

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