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NattvardsgästernaTomas Ericsson (Gunnar Björnstrand) é um pastor religioso na Suécia rural, que após enviuvar se limita exercer o ofício maquinalmente, sem qualquer paixão, nem crença em Deus. Essa atitude vai transparecendo para os seus concidadãos, como são exemplos Jonas Persson (Max von Sydow), um homem com uma crise de fé e existêncial, e Märta Lundberg (Ingrid Thulin), professora primária e há muito apaixonada pelo pastor, que uma após outra vez a vai ignorando.

Análise:

Dois anos depois de “Em Busca da Verdade” (Såsom i en spegel, 1961), num raro hiato de um ano sem estrear nenhum filme (algo que só acontecera em 1956 e 1959), Ingmar Bergman estreava, baseado num argumento seu, o filme “Luz de Inverno”, o segundo tomo da sua trilogia sobre o silêncio de Deus.

Mais uma vez tratava-se de uma história minimalista, com uma produção modesta, em cenários limitados, quase como se de uma peça de teatro se tratasse. Mais uma vez o filme incidia em particular nas tormentas interiores dos seus personagens, mais que nas suas acções, decisões ou acontecimentos narrativos.

Temos, em “Em Busca da Verdade”, a história de Tomas Ericsson (Gunnar Björnstrand), um pastor religioso na Suécia rural, que lamenta ainda a morte da mulher, três anos antes, e sabe que, depois disso, não conseguiu mais acreditar em nada daquilo que o levou a ser pastor. Atormentado nesse vazio sem respostas, a que chama o silêncio de Deus, Tomas continua em modo automático, em rituais vazios, numa comunidade que pouco tem de ligação à igreja. Entre os seus poucos paroquianos está o casal Persson, ele Jonas (Max von Sydow), contemplando o suicídio por atravessar uma crise de fé. Em seu torno gravita ainda Märta Lundberg (Ingrid Thulin), professora primária, apaixonada pelo pastor, que procura insistentemente a melhor forma de o convencer a aceitar o seu amor. Mas Tomas não sente ligação a nada, desde as dúvidas teológicas do seu sacristão (Allan Edwall), ao repudiar cínico dos avanços de Märta, até à incapacidade de inspirar Persson, todas as situações são apenas testemunhos da fraude que Tomas sente ser.

Com a ideia do silêncio de Deus citada diversas vezes durante o filme, é sobretudo um silêncio de emoções, da capacidade de sentir, e estar empaticamente com os que os rodeiam, que mais marca a história de Bergman. Isto no cenário de uma igreja, com o início e fim do filmr passados numa eucaristia, num ciclo fechado que nos mostra tanto o distanciamento entre comunidade e religião, como o mecanicismo dos rituais. Vemos a criança aborrecida, o casal desencorajado, o organista que vai olhando para o relógio com mais em que pensar. Todos seguem os ritos, cantando os salmos, cada um com outras preocupações, começando pelo pároco, o qual sabe que tudo o que faz é forçado, e sem sentimento.

Seguem-se as várias confrontações, onde o pastor Tomas tem que mostrar a sua capacidade de guiar a pequena comunidade. O resultado é um conjunto de fracassos. Perante o grito de ajuda de Persson, um homem que perdeu a vontade de viver, pois não vê em Deus resposta à maldade do mundo, Tomas responde apenas com a confirmação desse silêncio e nas suas frustrações pessoais. Com o sacristão Algot, que tem dúvidas sobre a sinceridade do sacrifício de Cristo, Jonas não tem mais que um encolher de ombros. Por fim, a Märta, mulher de sacrifícios e dores (incluindo chagas que têm o seu quê de cristão), a professora que o ama, e procura formas de o demonstrar, Jonas responde com uma fria repudia, que é ao mesmo tempo o seu sentimento de indiferença perante a espécie humana.

É sempre a interpretação de Gunnar Björnstrand que está no centro do filme, na sua indiferença, frustração, impavidez e mesmo cinismo com que aceita um ministério em que não acredita, e um conjunto de almas que guia sem sinceridade. Por essa razão é no seu rosto que a câmara de Svn Nikvist se centra, numa fotografia marcada pelo grande número de sequências onde campo e contra-campo estão em confronto, os grandes planos dominam, Björnstrand quase se nos dirige nos seus serviços religiosos, e o discurso directo para a câmara é usado na leitura de uma carta.

Como dito atrás, há uma certa lógica teatral a conduzir o filme, feito de espaços fechados (duas igrejas, e a escola de Märta), nas quais os personagens entram e saem, dirigindo-se ao pastor, falando-lhe do que aconteceu no exterior, sem que precisemos de deixar esses espaços, sem ser nas transições entre eles, em breves viagens de carro.

Austero, duro, e pessimista (a desolação do Inverno sueco é um excelente pano de fundo, e a única música ouvida são os salmos de igreja), poder-se-á dizer que há algo de “A Paixão de Joana D’Arc” de Dreyer (La passion de Jeanne d’Arc, 1928), ou de Diário de um Pároco de Aldeia” (Journal d’un curé de campagne, 1951) de Bresson, num filme que é essencialmente uma viagem pelo interior de um ser humano, que se sente desolado, sem crenças ou objectivos, nem ligações quer com o transcendente, quer com aqueles que o rodeiam.

No final, resultado da aridez com que Bergman nos quer provocar, fica a igreja vazia, onde Tomas teima em celebrar mais uma eucaristia, na penumbra, sem público. A pergunta que fica é se o silêncio é de Deus, ou dos homens, que não estão presentes uns para os outros. Tal como em Cristo, humanizado como Tomas, ecoa sempre a frase “Meu deus, porque me abandonaste?”

Gunnar Björnstrand em "Luz de Inverno" (Nattvardsgästerna, 1963) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Nattvardsgästerna [Título inglês: Winter Light]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1963; Duração: 81 minutos; Distribuição: Svensk Filmindustri (SF) (Suécia), Janus Films (EUA); Estreia: 11 de Fevereiro de 1963 (Suécia), 16 de Março de 1964 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Allan Ekelund; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Evald Andersson [não creditado]; Fotografia: Sven Nykvist [preto e branco]; Montagem: Ulla Ryghe; Design de Produção: P. A. Lundgren; Figurinos: Mago; Caracterização: Börje Lundh; Efeitos Especiais: Evald Andersson.

Elenco:

Ingrid Thulin (Märta Lundberg, Professora), Gunnar Björnstrand (Tomas Ericsson, Pastor), Gunnel Lindblom (Karin Persson), Max von Sydow (Jonas Persson), Allan Edwall (Algot Frövik, Sacristão), Kolbjörn Knudsen (Knut Aronsson, Director), Olof Thunberg (Fredrik Blom, Organista), Elsa Ebbesen (Magdalena Ledfors, Viúva).

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