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La bambola di satanaQuando o milionário Ball Janon morre, deixa toda a sua herança à sobrinha Elizabeth (Erna Schurer), incluindo o antigo castelo da família. Esta chega com o namorado Jack (Roland Carey) e um casal amigo, mas é confrontada com a governanta Carol (Lucia Bomez), que insiste que era vontade do seu tio que o castelo fosse imediatamente vendido. Inicialmente Elizabeth rejeita essa hipótese, mas após alguns desaparecimentos misteriosos, sonhos horríficos, e a suspeita de que algo sobrenatural envolva o castelo, Elizabeth vai ficando cada vez mais convencida a vendê-lo ao vizinho Paul Reno (Ettore Ribotta), o que leva Jack a iniciar uma investigação por sua conta.

Análise:

Em 1969 o filão do terror gótico italiano encontrava-se já a definhar. Embora ainda viessem a surgir algumas obras interessantes, os géneros que faziam as delícias dos italianos eram agora principalmente o western spaghetti e o giallo. Surge neste ano, no entanto, “La bambola di Satana”, um filme de Ferruccio Casapinta, com argumento do próprio, que tentava capturar a fama do gótico, mas já com alguma sombra de modernidade.

Casapinta, do qual só praticamente se conhece este filme, engendra uma história que, ao contrário do gótico mais convencional, se passa no presente, e é banhada por influências da sociedade contemporânea, desde a música pop ao comportamento dos jovens na geração da rebeldia. Tal torna-se uma distracção, com o filme constantemente a fugir dos ambientes opressores do castelo, deixando a imagem respirar em tranquilos exteriores, ou movimentados espaços públicos.

Sem conseguir fazer da atmosfera do castelo um atributo essencial para o desenvolvimento da tensão, Casapinta fica, de facto, perdido entre o gótico e o giallo. Embora nesta altura alguns filmes italianos pareçam ficar a meio caminho entre os dois géneros, lançando uma certa confusão entre eles, convém diferenciá-los. O giallo, é na sua origem uma história policial, que tem por base descobrir um criminoso. Na sua vertente italiana o giallo tornar-se-ia um género propenso a criar serial killers que matam com requintada violência. Isso surge um pouco em “La bambola di Satana”, onde um conjunto de mortes se sucede, perpetradas por alguém de quem nunca vemos o rosto, para enfatizar a ideia de que é a descoberta do criminoso que nos interessa. Por outro lado, o uso de um velho castelo, as alusões ao sobrenatural, idas a catacumbas e cemitérios, fazem parte da iconografia do gótico.

Passando à história, tudo começa quando Elizabeth Ball Janon (Erna Schurer) regressa, com o namorado Jack (Roland Carey), ao castelo de família, para tomar posse da sua herança após a morte do seu tio. Ali é recebida com frieza pela governanta Carol (Lucia Bomez), que insiste que era intenção do tio de Elizabeth vender imediatamente o castelo. Mas disso nada sabe Mr. Shinton (Domenico Ravenna), o melhor amigo e colega do tio de Elizabeth.

O súbito desaparecimento de Mr. Shinton, as histórias de terror contadas por Carol e os sonhos horríficos que Elizabeth começa a sofrer, levam-na a mudar de ideias, quase chegando a acordo com o vizinho Paul Reno (Ettore Ribotta), um rico industrial que quer comprar o castelo. Menos convencido fica Jack, que resolve investigar o que se passa.

“La bambola di Satana” ganha alguma vida nas investidas nocturnas do misterioso assassino, e nas desventuras de Elizabeth, que nunca sabe quando está a sonhar ou fantasiar. Cada regresso à sua cama é acompanhada de fantasias sexuais, em que se vê nua e assaltada por alguém, para depois se ver raptada e mesmo chicoteada, num misto de terror e sexualidade entre o sonho e o pesadelo.

Infelizmente estas ideias parecem forçadas, não sendo ajudadas pelas más interpretações, o facto de a dobragem de vozes ser demasiado má (alguns dos gritos mais terríveis surgem em momentos em que a actriz tem serenamente a boca fechada), e claro, o argumento se perder com personagens supérfluos e voltas desnecessárias. Por exemplo, não se percebe porque a agente policial de repente decide que é tempo de desmascarar o culpado, a não ser por sentir que já era hora de parar o filme. Do mesmo modo que não se entende porque no momento em que a mesma agente diz a Jack ter a solução consigo, este decida correr para desmascarar o culpado sozinho, sem esperar confirmação ou apoio. A própria morte do assassino é completamente absurda, quando depois de dominado, um cão resolve surgir como um louco só porque sim, e atirá-lo para cima de espadas afiadas.

São demasiados os erros no argumento e na direcção para que “La bambola di Satana” seja considerado um bom filme. Fica no entanto como um exemplo de como o gótico italiano no final dos anos 60 se tentava transformar sem sucesso.

Não deve deixar de ser dito também que o título do filme não faz qualquer sentido, já que não há em momento nenhum alguma alusão a elementos demoníacos, muito menos o uso do conceito de boneca, quer literal quer figurativamente.

Erna Schurer em "La bambola di Satana" (1969) de Ferruccio Casapinta

Produção:

Título original: La bambola di Satana [Título inglês: The Doll of Satan]; Produção: Cinediorama; País: Itália; Ano: 1969; Duração: 85 minutos; Estreia: 12 de Junho de 1969 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Ferruccio Casapinta; História: Ferruccio Casapinta; Argumento: Giorgio Cristallini, Carlo M. Lori, Ferruccio Casapinta; Diálogos: Alfredo Medori; Música: Franco Potenza; Fotografia: Francesco Attenni [cor por Eastmancolor]; Montagem: Franco Attenni; Direcção Artística: Alessandro Dell’Orco; Figurinos: Giuliana Serano; Caracterização: Oscar Pacelli, Leandro Marini; Director de Produção: Carlo Chamblant.

Elenco:

Erna Schurer (Elizabeth Ball Janon), Roland Carey (Jack Seaton), Aurora Bautista (Claudine), Ettore Ribotta (Paul Reno), Lucia Bomez (Carol), Manlio Salvatori (Edward), Franco Daddi (Mr. Cordova), Beverly Fuller, Eugenio Galadini (Andrea), Giorgio Gennari (Gérard), Domenico Ravenna (Mr. Shinton), Teresa Ronchi, Ivan Giovanni Scratuglia.

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