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La cripta e l'incuboNo castelo dos Karnstein, Laura (Adriana Ambesi) sonha com mortes de pessoas conhecidas, que depois vem a saber terem morrido. Tal fá-la viver no terror de estar possuída pelo espírito da sua antepassada Sheena Karnstein, uma conhecida vampira. A suspeita é partilhada pela ama Rowena (Nela Conjiu) que invoca magia negra para tentar obter a confirmação, após o que matará Laura, como combinado entre as duas. Temendo pela filha o Conde Karnstein (Christopher Lee) manda chamar Friedrich Klauss (José Campos), um perito em investigação histórica, para que, entre a muita documentação antiga do castelo, lance luz sobre o assunto. Mas será a chegada da jovem Ljuba (Ursula Davis) que virá trazer alguma paz a Laura, bem como precipitar acontecimentos, e colocar Klauss na pista certa.

Análise:

Camillo Mastrocinque, um realizador então já com uma longa carreira, em diversos géneros italianos, sobretudo na comédia, aventurava-se em 1964 num filme de terror. Com base no célebre “Carmilla” de Sheridan Le Fanu, que alguns anos depois originaria, na Inglaterra, a chamada Karnstein Trilogy da Hammer Horror, Mastrocinque, com os experientes argumentistas Tonino Valerii e Ernesto Gastaldi, construía uma história de casa assombrada, possessões de além-túmulo, e claro, mitologia vampiresca.

Como vinha sendo hábito no gótico italiano, a quem as produtoras queriam dar uma aura de filme internacional, “La Cripta e L’incubo” é uma co-produção que conta com dinheiro espanhol, e um elenco internacional, onde vários elementos da equipa de produção e do elenco usam nomes anglófonos como pseudónimos. Era uma conhecida estratégia, tanto de conquista de mercados externos, como de legitimação do filme, que assim parecia vir de fora aos olhos dos italianos. Entre esses actores internacionais contava-se Christopher Lee, numa presença que começava a ser comum nos filmes italianos, com vista a ligá-los esteticamente ao gótico inglês.

Em “La Cripta e L’incubo”, Lee é o aristocrático Conde Karnstein, cuja filha Laura (Adriana Ambesi) sofre de pesadelos, que parecem adivinhar mortes trágicas nas redondezas. Enquanto Laura e a sua ama Rowena (Nela Conjiu) parecem convencidas de que a primeira encarna o espírito da sua antepassada vampira Sheena Karnstein, o Conde prefere acreditar que a explicação seja outra. Para tal manda chamar o perito em investigação histórica, Friedrich Klauss (José Campos), para que este ajude a descobrir quem foi a verdadeira Sheena. A chegada da visitante Ljuba (Ursula Davis) vem-se revelar como um conforto para Laura, que assim deixa os seus pensamentos mais negativos. Mas as mortes continuam, levando Karnstein e Krauss a terem de aprofundar a investigação para descobrir quem é o assassino no castelo.

Partindo de uma atmosfera de casa assombrada, fazendo uso do tétrico castelo, da figura do conde (onde o próprio título condal é um piscar de olhos ao papel de Lee como Drácula), das inúmeras passagens secretas, recantos escuros e mobiliário antigo, tudo no espaço físico nos leva a crer estarmos num castelo onde o próprio lugar se comporta como um personagem, na boa tradição gótica. Nele voltamos a sentir o peso do passado, não só o da história do castelo, mas principalmente o da maldição dos Karnstein que parece pesar sobre Laura. Seja pelo trágico medo e sonhos de Laura, pela constante observação da sua ama, ou do ódio da empregada e amante do conde, Annette (Véra Valmont), tudo parece apontar para a culpa da jovem Karnstein.

Por entre as negras suspeitas surgem duas luzes. Primeiro Krauss, que acredita na inocência de Laura, e numa crescente atracção, a tenta ajudar. A segunda chega através da recém-chegada Ljuba, que recorda a Laura a sua juventude, e a instiga numa relação que obviamente nos surge como erótica, que desde logo afasta Laura de Krauss. Esse homoerotismo surge, portanto, como maléfico, empurrando Laura para a escuridão e afastando-a do seu futuro salvador.

Com uma história apenas vagamente ligada ao livro de Sheridan Le Fanu, “La Cripta e L’incubo” mantém a relação ambígua entre Laura e Ljuba como elo de ligação à história original, tendo como ponto mais forte a atmosfera criada dentro do castelo. Técnico experiente, Mastrocinque sabe jogar com o espaço e a sombra, construindo uma fotografia de belo efeito. Pelo lado negativo destaca-se alguns saltos no argumento, personagens mal definidas (Annette, o Corcunda), e um ritmo muito irregular. O próprio Christopher Lee tem um papel pobre, surgindo amiúde como uma figura fraca, longe da imponência que habitualmente o caracteriza.

Mastrocinque voltaria ao domínio do terror gótico dois anos depois, com o filme “Un Angelo per Satana”, protagonizado pela incontornável Barbara Steele.

Christopher Lee e Ursula Davis em "La Cripta e L'incubo" (1964) de Camillo Mastrocinque

Produção:

Título original: La Cripta e L’incubo [Título inglês: Crypt of the Vampire, ou Terror of the Crypt]; Produção: E.I. Associates Producers / Hispamer Films / Alta Vista [não creditada] / MEC Cinematografica [não creditada]; País: Itália / Espanha; Ano: 1964; Duração: 81 minutos; Estreia: 27 de Maio de 1964 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Camillo Mastrocinque [como Thomas Miller]; Produção: Mario Mariani [como William Mulligan], Carlo Savina [Herbert Buckman]; Argumento: Tonino Valerii [como Robert Bohr], Ernesto Gastaldi [como Julian Berry], María del Carmen Martínez Román [não creditada], José Luis Monter [não creditado] [baseado no livro “Carmilla” de Sheridan Le Fanu]; Música: Carlo Savina [como Herbert Buckman]; Direcção Musical: Carlo Savina [como James Munshin]; Fotografia: Julio Ortas, Giuseppe Aquari [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Herbert Markle; Design de Produção: Demofilo Fidani [como Demos Filos]; Figurinos: Mila Vitelli Valenza [como Milose]; Caracterização: Joe Carlin; Direcção de Produção: Hector Corey.

Elenco:

Christopher Lee (Conde Ludwig Karnstein), Adriana Ambesi [como Audry Amber] (Laura Karnstein), Ursula Davis (Ljuba), José Campos (Friedrich Klauss), Véra Valmont (Annette), Angel Midlin (Corcunda), Carla Calò [como Cicely Clayton] (Mãe de Ljuba), Nela Conjiu (Rowena), José Villasante (Cedric, O Mordomo), José Cortés [como Bill Curtis] (Homem), James Brightman (Homem), Noemi Gifuni (dobragem de voz de Adriana Ambesi) [não creditada].

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