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Djävulens ögaO Diabo (Stig Järrel) tem um terçolho que, segundo a lenda, é causado pela castidade das mulheres. Para resolver o problema, o Diabo envia Don Juan (Jarl Kulle) para seduzir a jovem Britt-Marie (Bibi Andersson), a casta filha do vigário local (Nils Poppe), que pretende casar virgem. Ao mesmo tempo, Pablo (Sture Lagerwall), fiel servo de Don Juan, tenta aproveitar a noite fora do Inferno para seduzir Renata (Gertrud Fridh), a mulher do vigário. Só que para desgosto do Diabo, os sedutores acabam por se apaixonar pelas vítimas.

Análise:

Como segundo filme do ano de 1960, Ingmar Bergman apresentou, a partir de mais um argumento seu, novamente uma produção mais modesta, cumprindo quase que uma regra de alternar filmes de maior fôlego com cenários em exteriores, e uma grande atenção à produção e histórias complexas, com produções ditas menores, inteiramente filmadas em estúdio, com um pequeno elenco, numa encenação que o aproxima da lógica teatral.

É o que acontece em “O Olho do Diabo”, um filme que Bergman realizou por encomenda, filmado apenas em interiores, nos estúdios de Råsunda, nos arredores de Estocolmo. O próprio argumento baseia-se numa peça de teatro, o filme é dividido em actos distintos, os quais têm introdução e comentários, em tom shakespeariano, de um solene Gunnar Björnstrand que se nos dirige, pede desculpas e adverte para o teor do filme.

Voltando a um terreno mais metafísico, aqui como uma simples alegoria, Bergman parte do dito popular irlandês «a castidade de uma mulher é um terçolho no olho do Diabo» para uma interpretação literal que constitui a base desta comédia dramática. No inferno, o Diabo (Stig Järrel) é afligido por um terçolho, e resolve tomar uma medida. Isola como culpada a casta Britt-Marie (Bibi Andersson), uma noiva que tenciona casar virgem, e escolhe Don Juan (Jarl Kulle) como solução. Vivendo numa tormenta que é uma conquista nunca concretizada, Don Juan aceita o repto e a oportunidade de voltar à Terra, nem que seja por um dia. O mesmo pensa o seu fiel servo, Pablo (Sture Lagerwall), que não enjeita a oportunidade de também ele viver uma aventura. Para que não se percam da missão, os dois homens são seguidos por um jocoso demónio, na forma de um velho e irritante monge (Ragnar Arvedson).

Travado conhecimento com o pai de Britt-Marie, o vigário local (Nils Poppe), o duo pernoita em casa dele, e começam os avanços, tanto de Don Juan sobre a jovem, como de Pablo sobre Renata (Gertrud Fridh), a esposa do vigário. Britt-Marie, noiva de Jonas (Axel Düberg), ama o noivo, mas não quer dar-se por adquirida, ao mesmo tempo que incentiva os avanços de Don Juan, mas tem pena dele, pela futilidade da sua vida. Na ânsia de descobrir algo novo, Britt-Marie dorme com Don Juan, o qual, inesperadamente se apaixona por ela. Isto enquanto Renata vai aceitando os avanços de Pablo, por ver no marido um desinteresse carnal, apesar dos avisos do demónio que o tenta pôr ao corrente do perigo.

Terminada a noite, Don Juan volta derrotado, por se ter deixado apaixonar em vão. Mas quando um demónio conta ao Diabo que Britt-Marie mentiu ao noivo acerca de beijos trocados com Don Juan, o terçolho desaparece.

Em jeito alegórico (destacando-se neste campo o décor cómico do Inferno, o burlesco dos servos de Satanás, e a postura de classe de Stig Järrel), Bergman usa o eterno conflito de sexos, nas malhas da fidelidade e matrimónio, como combustível desta sua comédia dramática. Em tom irreverente e bem-disposto, o filme não deixa de abordar assuntos sérios, com o dramatismo esperado de um tema que tem Bibi Andersson como protagonista: os desejos da alma feminina e a sua luta por um caminho na relação amorosa. Desse ponto de vista, Don Juan, que a início nos parece o protagonista, não é mais que o demónio da tentação, que acaba vítima dela mesma. Esta tentação perde força com a humanização do personagem, que se vai deixar apaixonar, e assim deixar de ser interessante para a mulher. É pena, tanto quanto curiosidade, e quase que uma obsessiva necessidade de se provar viva, que levam Britt-Marie a trair o noivo. Mas curiosamente não é isso que salva o Diabo, mas sim a mentira da rapariga em relação a um beijo, esta sim uma pequena vitória do Inferno.

O casamento é, de facto, o ponto fulcral da história, com repetidas piadas, como a que diz que é às custas dele que muito se constrói no Inferno. Um exemplo é a relação do vigário com a esposa. Ele, pacato, acomodado, ela aparentemente adoentada, para logo ficar restabelecida com a tentativa de conquista de Pablo. O vigário é então avisado, primeiro pela própria esposa, depois pelo demónio que vai passeando pela casa, disfarçado de um gato preto. Mas os avisos são ignorados por um vigário entusiasmado pelo transcendente (capturar um diabo para si), mas alheio ao que se passa em sua casa, nos desejos carnais de esposa e filha.

Apresentado como um «rondo capriccioso» (pontuado com música para cravo de Domenico Scarlatti), e sendo considerado uma comédia, graças a um humor fino de sátira social, “O Olho do Diabo” está repleto de momentos negros, situações dramáticas e diálogos complexos. Com acção linear e um tema bastante terreno, o filme não deixa de ser uma abordagem mais leve de Bergman, por comparação a outros seus filmes da época. Tal valeu-lhe mesmo ser comparado a ” O Céu Pode Esperar” (Heaven Can Wait, 1943) de Ernst Lubitsch, embora aqui com um final agridoce, onde o final feliz (a vitória do Diabo) tem o muito de crítico em relação à humanidade.

Allan Edwall, Jarl Kulle e Stig Järrel em "O Olho do Diabo" (Djävulens öga, 1960) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Djävulens öga [Título inglês: The Devil’s Eye]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1966; Duração: 84 minutos; Distribuição: Svensk Filmindustri (SF) (Suécia), Janus Films (EUA); Estreia: 17 de Outubro de 1960 (Suécia), 23 de Maio de 1960 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Allan Ekelund [não creditado]; Argumento: Ingmar Bergman [inspirado pela peça “Don Juan vender tillbage” de Oluf Bang]; Música: Domenico Scarlatti, Erik Nordgren [não creditado]; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Oscar Rosander; Design de Produção: P. A. Lundgren; Figurinos: Mago; Caracterização: Börje Lundh; Efeitos Especiais: Evald Andersson; Direcção de Produção: Lars-Owe Carlberg.

Elenco:

Jarl Kulle (Don Juan), Bibi Andersson (Britt-Marie), Stig Järrel (Satanás), Nils Poppe (Vigário), Gertrud Fridh (Renata), Sture Lagerwall (Pablo), Georg Funkquist (Conde Armand de Rochefoucauld), Gunnar Sjöberg (Marquês Giuseppe Maria de Macopanza), Torsten Winge (Velho), Axel Düberg (Jonas), Kristina Adolphson (Mulher de Véu), Allan Edwall (Demónio Ouvidor), Ragnar Arvedson (Demónio Guardião), Gunnar Björnstrand (Actor).

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