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La frusta e il corpoQuando Kurt Menliff (Christopher Lee) regressa ao castelo da sua família, gera-me o mau estar. É que ele for a banido depois de seduzir e abandonar ao suicídio a filha da criada Georgia (Harriet Medin), e ameaça agora a herança do seu irmão Christian (Tony Kendall), recém-casado com Nevenka (Daliah Lavi). É que Kurt fora amante de Nevenka, relação agora secretamente reatada, com doses de sado-masoquismo. Isto até se perceber que Kurt tem os dias contados devido a uma vingança que o espera.

Análise:

Mario Bava, o mestre do terror gótico italiano (entre outros géneros onde triunfou), assina como John M. Old, o filme com que sucedeu, no mesmo ano, ao elogiado “As Três Faces do Terror” (I Tre Volti della Paura, ou, em inglês, Black Sabbath), ano esse, em que estroeu o filme que muitos consideram o criador do género giallo, “A Rapariga Que Sabia Demais (La ragazza che sapeva troppo). Este é “O Chicote e o Corpo”, um filme com que Bava gerou controvérsia, por mostrar imagens explícitas de uma relação sado-masoquista.

Mais uma vez, como era hábito no cinema de género italiano, o elenco é internacional, com vozes dobradas, e o próprio realizador (bem como parte da equipa técnica) se apresenta sob um pseudónimo anglófono. O objectivo era dar ao filme um aspecto internacional, que assim penetrava mais facilmente no mercado italiano, onde as dobragens e um descuidado sincronismo entre lábios e voz era tido como normal.

Christopher Lee, uma das estrelas do gótico inglês, era a figura central, interpretando Kurt Menliff, o fiho de um aristocrata, banido pelo próprio pai, depois do suicídio da rapariga que Kurt seduzira, usara e abandonara. A chegada de Kurt vem pôr todos sob tensão, desde o pai (Gustavo De Nardo) que não sabe o que fazer, a empregada Giorgia (Harriet Medin), mãe da rapariga morta, e que deseja vingança, o irmão Christian Menliff (Tony Kendall), que teme a perda da herança, e principalmente a cunhada Nevenka (a bela israelita Daliah Lavi).

Cedo nos damos conta de que Nevenka e Kurt haviam sido amantes, e a sua relação tinha um componente sado-masoquista secreta. Mal Kurt chega volta a usar dessa arma, chicoteando violentamente Nevenka para deleite desta. Só que Kurt surge morto no momento seguinte, pela mesma adaga que matara a filha de Giorgia. A partir daí mais mortes ocorrem, sempre pela mesma adaga, ao mesmo tempo que Nevenka vai vendo o fantasma de Kurt surgir, para a atormentar e chicotear. Embora no início todos pensem que Nevenka está apenas perturbada pelos acontecimentos, mais tarde percebe-se que a verdade é bem mais complexa, com Nevenka verdadeiramente possuída pelo espírito de vingança de Kurt.

Sendo uma história com visíveis erros de argumento, aliás habituais em Bava (por exemplo não se percebe como o todo poderoso Kurt é banido, se todos no castelo Menliff o temem), “O Chicote e o Corpo” vale principalmente pelo aspecto visual. Filmando com um orçamento curtíssimo, Mario Bava vez verdadeiro uso do Technicolor para nos dar um festim visual, onde as cores são quase personagens, e a luz é usada de modo magistral. Cada plano é quase uma pintura cuidada, sempre no objectivo de manter a atmosfera o mais intensa possível, algo que Bava consegue plenamente.

Com a interpretação habitual de Christopher Lee (aqui com a sua voz dobrada), fazendo do seu porte físico uma constante ameaça, e uma surpreendente Daliah Lavi, perfeita pela mistura de medo e tormenta, “O Chicote e o Corpo” segue a regra de ouro do gótico de dar lugar privilegiado a um espaço (o imponente castelo Menliff, filmado logo de início como um rochedo ameaçador no final de uma baía), onde um terrível passado ensombra para sempre os habitantes.

Num contínuo desenrolar de cenas de terror e perseguição, Bava joga com todo o décor. A luz e cor, como citado, juntam-se os sons (note-se como o sacudir de um ramo lembra o som do chicote) e cada recanto da mansão parece ser motivo de temor. Sem que o sangue seja usado em excesso, vemos degolações, flagelações e cadáveres que são queimados. A própria presença da adaga ensanguentada como objecto de culto num altar é já prova do macabro que penetra cada momento.

Mas, obviamente, aquilo que mais fica na memória é a relação entre Kurt e Nevenka, com esta a conduzir-nos o olhar, numa aparente inocência inicial, que se vai transformando, quando percebemos que o chicote nas suas costas é motivo para que esqueça que é casada, numa completa entrega de natureza sexual. É só aos poucos que vamos perceber que Nevenka está longe de ser uma vítima, e que os seus desejos e culpas reprimidas vão despoletar nela uma necessidade de acção impossível de prever.

Por tudo o que é mostrado (as explícitas cenas de flagelação de Nevenka), e por tudo o que é sugerido (fica razão para perguntarmos se a filha de Giorgia se terá suicidado de vergonha, como dito, ou terá sido vítima de jogos sexuais que correram mal) sobre a natureza da relação de Kurt e Nevenka, e os excessos de que esta seria capaz, o filme foi muito controverso, ajudando à reputação de Bava, não só como mestre na criação de ambientes com poucos recursos, mas também pela coragem em explorar temas tabu.

Daliah Lavi em "O Chicote e o Corpo" (La frusta e il corpo, 1963) de Mario Bava

Produção:

Título original: La Frusta e il Corpo [Título inglês: The Whip and the Body]; Produção: Francinor-PIP / Leone Film / Titanus; País: Itália; Ano: 1963; Duração: 83 minutos; Estreia: 29 de Agosto de 1963 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Mario Bava [como John M. Old]; Produção: Federico Magnaghi [como Tom Rhodes]; Produtor Associado: Ferdinando Baldi [como Free Baldwin]; Argumento: Ernesto Gastaldi [como Julian Berry], Ugo Guerra [como Robert Hugo], Luciano Martino [como Martin Hardy]; Música: Carlo Rustichelli [como Jim Murphy]; Fotografia: Ubaldo Terzano [como David Hamilton], Mario Bava [não creditado] [cor por Technicolor]; Montagem: Renato Cinquini [como Rob King]; Direcção Artística: Ottavio Scotti [como Dick Grey]; Cenários: Riccardo Domenici [como Gus Marrow]; Figurinos: Anna Maria Palleri [como Peg Fax]; Caracterização: Franco Freda [como Frank Field]; Director de Produção: Ferdinando Baldi [como Free Baldwin], Elio Scardamaglia [como John Oscar].

Elenco:

Daliah Lavi (Nevenka Menliff), Christopher Lee (Kurt Menliff), Tony Kendall (Christian Menliff), Ida Galli [como Isli Oberon] (Katia), Harriet Medin [como Harriet White] (Giorgia), Gustavo De Nardo [como Dean Ardow] (Conde Menliff), Jacques Herlin (Padre), Luciano Pigozzi [como Alan Collins) (Losat).

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