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JunfrukällanNuma comunidade rural do século XIV, perdida entre o paganismo e o fervor cristão, o patriarca Töre (Max von Sydow) envia a sua filha Karin (Birgitta Pettersson) entregar velas na igreja mais próxima. Acompanhada da rebelde e lasciva Ingeri (Gunnel Lindblom), Karin é, por comparação, de uma pureza que atrai a inveja de Ingeri, devota de Odin que invoca para uma maldição. Esta acontece na forma de dois pastores que atacam Karin, o que coloca em cheque a devoção pacífica de Töre.

Análise:

Com um argumento que, pela segunda vez, era escrito por Ulla Isaksson, Ingmar Bergman entrava na década de 1960, com “A Fonte da Virgem”, um filme evocativo da atmosfera mistico-medieval que já inspirara “O Sétimo Selo” (Det sjunde inseglet, 1957). Novamente com Max von Sydow (no seu quarto filme com Bergman), e pela segunda vez (desta para continuar) com o fotógrafo Sven Nykvist, com quem trabalhara antes, em “Noite de Saltimbancos” (Gycklarnas afton, 1953), Bergman, de resto, continuava uma equipa há muitos anos fiel, do compositor Erik Nordgren ao montador Oscar Rosander e designer P. A. Lundgren.

“A Fonte da Virgem” leva-nos ao século XIV, a uma pequena comunidade rural, de forte tradição religiosa, liderada pelo patriarca Töre (Max von Sydow). Novo dia rompe, e a família decide que a filha Karin (Birgitta Pettersson) vá até à igreja, do outro lado da floresta, para entregar velas. Esta faz-se acompanhar da rebelde criada Ingeri (Gunnel Lindblom), que às escondidas se entrega a rituais pagãos, por inveja do estatuto da pura Ingeri, em tudo melhor que ela, grávida sem ter casado.

No caminho, Ingeri amedronta-se com a floresta e desiste de continuar, para ser assustada por um velho camponês que diz ser Odin. Quando ela tenta alcançar Karin chega apenas a tempo de a ver ser atacada, violada e morta por dois pastores (Axel Düberg e Tor Isedal). Estes vão, por sua vez, encontrar abrigo na casa de Töre, que não sabem ser a casa da sua vítima. Aí acabam por se trair ao tentar vender as roupas da rapariga que mataram, o que lhes vale a ira de Töre, que os mata, fazendo justiça pelas suas mãos, algo que o deixa em conflito com a sua fé, e que aplaca prometendo construir uma igreja no lugar onde vem a encontrar o corpo de Karin, de onde agora brota uma nascente.

Numa atmosfera muito negra, na qual o isolamento rural espelha o isolamento humano em relação aos mistérios do universo, Ingmar Bergman cria uma obra amarga, onde o fundo medieval é motivo para lembrar o abismo que deixa o homem entre forças e um destino que desconhece, e que materializa na fé e superstição (do cristianismo de Töre ao paganismo de Ingeri).

Por entre estas forças existe a alegria de viver da jovem e inocente Karin. E é através dela que esse abismo se abate, na forma de pastores, forças da natureza (lembremos o Pã da mitologia grega) que, seguindo instintos puramente animais (uma espécie de mal primordial) satisfazem o seu desejo carnal, matando a jovem. Sem fé ou religião que a proteja, sem forças que não sejam as mais existencialistas forças animais e terrenas, Töre vai tomar a justiça em suas mãos. Se com isso faz o que julga estar certo, por outro lado sabe que ao substituir-se ao Deus em que acredita, e romper com os seus mandamentos, não poderá mais encarar o mundo da mesma forma, e onde reconhece a existência da mais pura maldade humana. Essa culpa soma-se à de Ingeri, que entre invejas pueris e invocações supersticiosas terá desejado o mal de Karin pelo qual se sente depois responsável.

O filme termina com a enigmática nascente que brota no local em que Karin morreu, ela própria um símbolo pagão (as manifestações naturais eram símbolos divinos no paganismo, e mais uma vez a nascente lembra antigos mitos gregos), celebrando o sacrifício da virgem. Pelo meio ficam as questões de Bergman acerca da religião, fé, moral, culpa (dos pais pela vingança, e pela responsabilidade por Karin, a de Ingeri por ter desejado mal a Karin) e justiça, num filme feito de uma luz mística e de sombras tenebrosas, que ficou célebre pela sua cena de violação. Luz e trevas são, afinal os dois lados de um filme que é uma luta ancestral entre bem e mal, aqui mostrado de uma forma crua, e superior a qualquer crença humana, ainda que os homens creiam teimosamente estar a seguir um caminho seu (da inocência de Karin, aos rituais familiares, como as libações de Töre antes do massacre final).

A história foi inspirada pela balada medieval sueca “Per Tyrssons döttrar i Vänge”, e receberia o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, embora Bergman o considerasse uma imitação falhada de “Às Portas do Inferno” (Rashomon, 1950) de Akira Kurosawa. Foi, por sua vez, inspiração para o filme de terror “The Last House on the Left” (1972) de Wes Craven.

Max von Sydow em "A Fonte da Virgem" (Junfrukällan, 1960) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Jungfrukällan [Título inglês: The Virgin Spring]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1960; Duração: 85 minutos; Distribuição: Janus Films (EUA); Estreia: 8 de Fevereiro de 1960 (Suécia).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Ingmar Bergman [não creditado], Allan Ekelund [não creditado]; Argumento: Ulla Isaksson; Música: Erik Nordgren; Fotografia: Sven Nykvist [preto e branco]; Montagem: Oscar Rosander; Design de Produção: P. A. Lundgren; Figurinos: Marik Vos-Lundh; Caracterização: Börje Lundh; Direcção de Produção: Carl-Henry Cagarp.

Elenco:

Max von Sydow (Töre), Birgitta Valberg (Märeta), Gunnel Lindblom (Ingeri), Birgitta Pettersson (Karin), Axel Düberg (Pastor Magro), Tor Isedal (Pastor Mudo), Allan Edwall (Pedinte), Ove Porath (Rapaz), Axel Slangus (Vigia da Ponte), Gudrun Brost (Frida), Oscar Ljung (Simon), Tor Borong (Empregado), Leif Forstenberg (Empregado).

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