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La vergine di norimbergaNa Alemanha contemporânea, Mary (Rossana Podestà) acompanha pela primeira vez o esposo Max Hunter (Georges Rivière) nas suas visitas periódicas ao antigo castelo da família. Uma noite Mary acorda com ruídos, e não encontra Max ao seu lado. Descendo até à fonte do ruído, o museu de máquinas de tortura, que na Idade Média pertenceram a um antepassado dos Hunter, depara com sangue que pinga de uma Dama de Ferro (máquina de tortura consistindo num sarcófago cujo interior é cheio de aguçados espigões) conhecida como “A Virgem de Nuremberga”. Mary abre-a, encontrando dentro dela uma jovem mulher trespassada. Perante a negação do marido de aquilo tenha ocorrido, Mary passa a espiá-lo, temendo que a estátua do seu antepassado, servida pelo sinistro criado Erich (Christopher Lee), tenha voltado à vida e coloque todos em perigo.

Análise:

Depois da ficção científica, do filme de aventuras e do peplum, o conhecido realizador de filmes de género italiano, Antonio Margheriti, realizava, 1963, o seu primeiro filme de terror gótico. Ele que se tornaria um dos mais prolíficos realizadores deste subgénero, assinaria o filme com o pseudónimo de Anthony Dawson, como era habitual no filme de género italiano, produzido para espelhar o cinema inglês e americano. Como ele, parte da equipa técnica usa pseudónimos anglófonos, com alguns actores ingleses no elenco, destacando-se o célebre Christopher Lee, figura de proa do terror gótico da inglesa Hammer, que entre 1963 e 1964 participaria em quatro filmes do género em Itália.

Com um filme rodado em apenas três semanas, Margheriti colaborou no argumento com o especialista Ernesto Gastaldi, adaptando a obra “The Virgin of Nurimberg” de Frank Bogart. O resultado final relembra essencialmente o filme de Roger Corman, adaptado de Edgar Allan Poe, “O Fosso e o Pendulo” (The Pit and the Pendulum, 1961) protagonizado por Vincent Price.

Tal como no filme de Corman, também em “La Vergine Di Norimberga” a acção decorre num castelo antigo, que em tempos foi um centro de horrível tortura física (o lugar preso a um passado que sobre ele pesa é uma das características do gótico). Nesse lugar, um antigo mal parece ter voltado à vida, como se as masmorras e os inenarráveis objectos de tortura clamassem por mais sangue. Só que, enquanto no filme de Roger Corman tal acontece quando o dono do castelo é possuído pela alma do seu cruel antepassado, em “La Vergine Di Norimberga” a explicação é diferente.

Onde o filme de Corman se centrava no sofrimento e tortura interior de um homem (Vincent Price) que sucumbiria à influência sobrenatural de um antepassado, o filme de Margheriti foca-se na personagem de Mary Hunter (desempenhada pela chamada rainha do peplum, Rossana Podestà), que, de susto em susto, e de desmaio em desmaio, vai tentando descobrir que horrível segredo se oculta no castelo do marido Rex (Georges Rivière).

Cedo Mary percebe que o marido lhe mente, cedo desconfia que o sinistro criado Erich (Christopher Lee) sabe mais do que conta, e cedo adivinha que a estátua do antigo torturador tem algo a ver com o assunto, conferindo-lhe um aspecto sobrenatural. Não querendo dar-nos todas as cartas de uma vez, Margheriti faz-nos ainda desconfiar que o próprio Max possa estar possuído pelo espírito do antepassado (talvez no tal paralelo com a citada personagem de Vincent Price), para o que concorre uma ferida numa mão do torturador, e que espelha uma ostentada por Max.

Através do olhar (e dos sustos e gritos) de Mary, vamos caminhando pelo obscuro castelo, conhecendo os seus túneis e masmorras, e tentando discernir o mistério. Este revela-se, no entanto, mais prosaico que o inicialmente previsto, quando se descobre que o criminoso era simplesmente o pai de Max, que todos julgam morto vítima de torturas às mãos dos nazis. Fortemente deformado (exterior e interiormente, no espelho entre interior e exterior bem queridos ao gótico), o pai de Max vive agora o mal a que foi submetido perpetrando-o sobre outros.

Embora criando uma atmosfera muito interessante, com interiores sóbrios, mas bem filmados, o filme de Margheriti perde-se nalguns pontos do argumento. Sendo-nos mostrado que o antepassado de Max era uma espécie de justiceiro puritano, castigando mulheres que dissolutas (daí o duplo sentido da palavra “virgem” do instrumento de tortura usado), os crimes do filme não prolongam essa ideia, pelo que a pura Mary está constantemente em perigo, e outras mortes vão ocorrendo sem razão (como as das criadas). Do mesmo modo não se entende porque estaria o criminoso activo apenas alguns dias por ano.

Com um Georges Rivière demasiado inconsequente e um Christopher Lee a fazer-se valer apenas da sua presença física (aqui com uma caracterização que lhe deforma um dos lados do rosto), resta à belíssima Rossana Podestà guiar-nos pelo filme, o que faz com competência. Mesmo se não é muito original, Margheriti consegue um filme com doses suficientes de mistério, sustos e atmosfera.

Naturalmente dobrado, como acontece no cinema italiano de género, para incluir actores de vários países, e chegar aos seus mercados, “The Virgin of Nurimberg”, tem um elenco multinacional, onde Christopher Lee foi dobrado, tanto na versão italiana, como, curiosamente na inglesa.

Rossana Podestà em "La Vergine Di Norimberga" (1963) de Antonio Margheriti

Produção:

Título original: La Vergine Di Norimberga [Título americano: Horror Castle]; Produção: Atlantica Cinematografica Produzione Films; País: Itália; Ano: 1963; Duração: 80 minutos; Estreia: 15 de Agosto de 1963 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Antonio Margheriti [como Anthony Dawson]; Produção: Marco Vicario; Argumento: Antonio Margheriti [como Anthony Dawson], Edmond T. Gréville [como Edmund Greville], Ernesto Gastaldi [como Gastad Green] [a partir do livro “The Virgin of Nurimberg” de Frank Bogart]; Música e Direcção de Orquestra: Riz Ortolani; Fotografia: Riccardo Pallottini [como Richard Palton] [filmado em Totalscope, cor por Eastman]; Montagem: Otello Colangeli [como Angel Coly]; Cenários: Albert Griffiths; Caracterização: Joseph Hunter; Direcção Artística: Henry Daring, Riccardo Domenici [como Dick Dominici]; Figurinos: James Lyon; Efeitos Especiais: Antonio Margheriti [como Anthony Matthews]; Direcção de Produção: Fred Holliday, Sante Chimirri [como Jim Murray].

Elenco:

Rossana Podestà (Mary Hunter), Georges Rivière (Max Hunter), Christopher Lee (Erich), Jim Dolen (John Selby, Agente do FBI), Lucile Saint-Simon (Hilda), Patrick Walton, Carole Windsor, Rex Vidor, James Borden, Peter Hardy, Bredon Brett, Robert Mayor.

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