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AnsiktetNa Suécia nos anos 40 do século XIX, Albert Vogler (Max von Sydow) conduz o chamado «Teatro de Saúde Magnética de Vogler», que alegadamente produz fenómenos sobrenaturais, e cura doentes. Em fuga, por ser considerado um charlatão, Vogel, a esposa (Ingrid Thulin), a avô (Naima Wifstrand) e o fala-barato Tubal (Åke Fridell), são recebidos em casa do cônsul Egerman (Erland Josephson), que conjuntamente com os seus convidados, o superintendente da polícia (Toivo Pawlo) e o Dr. Vergerus, ministro da saúde (Gunnar Björnstrand), vão fazer tudo para provar que Vogel não passa de uma fraude.

Análise:

Depois da produção de baixo orçamento “No Limiar da Vida” (Nära Livet, 1958), na independente Tonefilm, Ingmar Bergman voltava à estatal Svensk Filmindustri (SF) para nova obra de maior fôlego, a partir de um argumento seu. Com um conjunto de actores que repetia em grande parte o elenco do filme anterior (Max von Sydow, Ingrid Thulin, Bibi Andersson e Erland Josephson) a que se juntavam alguns regulares como Gunnar Björnstrand e Åke Fridell, Bergman filmava um drama de contornos surreais, passado na década de 1840, na região de Estocolmo.

“O Rosto” conta-nos a história de uma troupe de saltimbancos, auto-intitulada «Teatro de Saúde Magnética de Vogler», cuja reputação de fenómenos sobrenaturais e cura milagrosas atrai a atenção das autoridades. Desse modo Vogler, o mágico mudo (Max von Sydow), o seu assistente Mr. Aman (Ingrid Thulin), a avô de Vogler (Naima Wifstrand), o fala-barato Tubal (Åke Fridell), o jovem cocheiro Simson (Lars Ekborg) e o actor bêbedo Johan Spegel (Bengt Ekerot ), que encontraram no caminho, pernoitam em casa do cônsul Egerman (Erland Josephson), que tem consigo o superintendente da polícia (Toivo Pawlo) e o Dr. Vergerus, ministro da saúde (Gunnar Björnstrand), decididos a desmascarar Vogel, e a provar o seu pequeno circo de pretensões sobrenaturais como perigoso para a população.

Segue-se uma tempestade que vem trajudar ao clima de medo, e depois a exibição, na qual Antonsson (Oscar Ljung), um criado que fora hipnotizado, ataca Vogel e foge. Na comoção ninguém nota que Vogel troca com Spegel, entretanto falecido, e todos acreditam que Vogel morreu, até à autópsia, onde Vogel, já sem maquilhagem, surge a Vergerus para o assustar convencendo-o de que algo sobrenatural se passa. Descoberto o novo embuste a troupe é expulsa de casa, antes que a polícia chegue.

Tem-se dito que “O Rosto” é uma auto-análise de Ingmar Bergman, vendo-se também como um vendedor de banha da cobra, num circo de ilusões como é o cinema, sendo o personagem de Max von Sydow, austero, silencioso, de olhar acutilante e perturbador, o seu alter-ego.

Todo o filme é críptico, num misto de realidade e fantasia, razão e surrealismo, onde as motivações dos personagens, e a sua posição em relação à verdade e mentira parecem mudar a cada cena, acentuando os contornos irreais e demasiado construídos da narrativa bergmaniana. Isto Começa logo nos planos de abertura, onde uma carruagem percorre uma floresta que, na luz e sombra da fotografia de P. A. Lundgren, tem muito de irreal. Nessa sequência vemos a velha avó assumir-se como uma bruxa de 200 anos, Vogel confessar ser um embuste, e um actor, simbolicamente regressar dos mortos, para voltar pouco depois à morte, não sem antes rir do carácter de burlão que há em cada artista.

Essa atmosfera feérica, e quase gótica, transfere-se para a mansão do Cônsul Egerman, onde adivinhamos um fantasma, testemunhamos uma tempestade, assistimos a uma actuação de Vogel, a muitos confrontos de personalidades, a mortes e suas autópsias, e aos efeitos de uma poção de amor. Mesmo num espaço complexo e labiríntico, cujo chiaroscuro nos lembra as sombras do Expressionismo, Bergman consegue uma encenação teatral, fazendo com que os vários espaços se interliguem quase sem cortes, pelos personagens que entram e saem de cena, levando-nos consigo para a sala seguinte.

Juntando a leveza de diálogos bem-dispostos, à tensão dos momentos e confrontos mais marcantes, “O Rosto” lida com o papel do artista no interpretar da realidade, mas também com temas caros a Bergman como a morte, o transcendente (quase que num elogio ao misticismo pagão, e fenómenos sobrenaturais), aqui no eterno debate entre razão e crença, religião e ciência, mas também ao papel da arte (como reino da fantasia e caminho de liberdade) face ao poder castrador das elites. Como ilusionista, Bergman nunca nos deixa perceber onde quer chegar, através de truques e ilusões que são afinal o caminho dos seus personagens. Note-se como a pose aristocrática de Vogel e da esposa, austeros e respeitosos, muda, sem maquilhagem, para a de pessoas nervosas e desesperadas. É de transformações, confrontos, ilusões que se faz “O Rosto”, um filme críptico, nem sempre bem aceite pela crítica.

O filme inspira-se livremente na peça “Magic” de G. K. Chesterton, que Bergman chegou a levar a cena na Suécia. Recebeu o prémio de Melhor Filme nos British Academy Awards, o de Melhor Filme Estrangeiro nos New York Film Critics Awards, e dois prémios (Prémio Especial do Júri e Prémio Novo Cinema) no Festival Internacional de Veneza.

Max von Sydow em "O Rosto" (Ansiktet, 1958) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Ansiktet [Título inglês: The Magician]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1958; Duração: 97 minutos; Distribuição: Janus Films (EUA); Estreia: 26 de Dezembro de 1958 (Suécia), 21 de Fevereiro de 1962 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Allan Ekelund [não creditado]; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Erik Nordgren; Direcção Musical: Eskil Eckert-Lundin; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Oscar Rosander; Design de Produção: P. A. Lundgren; Figurinos: Manne Lindholm, Greta Johansson; Caracterização: Börje Lundh, Nils Nittel; Direcção de Produção: Carl-Henry Cagarp.

Elenco:

Max von Sydow (Albert Emanuel Vogler), Ingrid Thulin (Manda Vogler ou Mr. Aman), Gunnar Björnstrand (Dr. Vergerus, Ministro da Saúde), Naima Wifstrand (Aví Vogler), Bengt Ekerot (Johan Spegel), Bibi Andersson (Sara Lindqvist), Gertrud Fridh (Ottilia Egerman), Lars Ekborg (Simson, o Cocheiro), Toivo Pawlo (Starbeck, Superintendente da Polícia), Erland Josephson (Cônsul Egerman), Åke Fridell (Tubal), Sif Ruud (Sofia Garp), Oscar Ljung (Antonsson), Ulla Sjöblom (Henrietta Starbeck), Axel Düberg (Rustan, Criado), Birgitta Pettersson (Sanna).

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