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L'orribile Segreto del Dr. HichcockEm 1885, o Dr. Bernard Hichcock (Robert Flemyng) é um reputado cirurgião londrino, que desenvolveu uma anestesia que causa uma quase paragem cardíaca, que lhe permite operar os seus doentes com muito maior sucesso. O que ninguém sabe é que o Dr. Hichcock desenvolveu essa técnica por ser um necrófilo, e assim poder replicar na sua esposa, Margherita (Maria Teresa Vianello), uma condição de quase morte, que o excita sexualmente. Só que um dia o Dr. Hitchcock mata a mulher, por acidente, com uma overdose da sua droga. Passados 12 anos, o Dr. Hitchcock regressa a casa com a nova esposa, Cynthia (Barbara Steele). Em breve esta descobre que mais alguém habita a sua mansão, nem mais que o corpo envelhecido e fantasmagórico da primeira mulher de Hitchcock.

Análise:

Riccardo Freda, o homem responsável pelo ressurgimento do cinema de terror italiano, com o filme “Os Vampiros” (I Vampiri, 1957), filmaria pouco depois “Caltiki – Il Mostro Immortale” de 1959, ambos terminados por Mario Bava, e ambos mal recebidos pelo público. Numa outra interrupção dos seus habituais filmes de grande aventura, Freda voltou ao cinema de terror em 1962. Fê-lo, como já vinha sendo hábito, sob o pseudónimo inglês Robert Hampton, por sentir que o público italiano dava mais crédito aos filmes vindos do estrangeiro, e para uma maior hipótese de internacionalizar o seu filme. Pela mesma razão a história passa-se em Londres, os personagens têm nomes ingleses, alguns dos actores usam pseudónimos ingleses e todos os textos e placas escritas que surgem em cena são escritos em inglês.

Para o argumento, Freda socorreu-se de Ernesto Gastaldi, que viria a ser um dos mais importantes argumentistas do «gótico», «giallo» e «western spaghetti», que lhe trouxe uma história estranha sobre um tema muito pouco habitual: a necrofilia.

De facto, é essa a característica que mais distingue o filme, e que justifica o epíteto que o título atribui ao protagonista. O Dr. Hichcock (Robert Flemyng) é tanto um brilhante cirurgião, como um homem que apenas se excita sexualmente perante cadáveres. Por essa razão desenvolve uma anestesia que reduz o ritmo cardíaco a ponto de simular a própria morte. Essa anestesia é tanto usada nas suas intervenções cirúrgicas, como na esposa, a dócil Margherita (Maria Teresa Vianello) que se submete a essa morte livremente, para satisfazer o marido. Com tal tema, é estranho como o filme passou a censura, já que são explícitas as inclinações do Dr. Hichcock, cada vez que toca um corpo morto, ou que tem relações sexuais com a esposa. Todo o filme é uma alegoria a jogos, fetiches e repressões sexuais.

Só que, um dia, algo corre mal na administração da droga, e Margherita morre, levando Hichcock, desgostoso, a abandonar tudo. O médico voltará doze anos depois, novamente casado, e com vontade de retomar a sua prática médica. Mas mal chegam, a nova esposa, Cynthia (Barbara Steele) começa a notar a presença da antecessora. Margherita está tanto nas pinturas, decoração inalterada da casa e rotinas da governanta (Harriet Medin), como vai aparecendo na forma de um fantasma envelhecido. Quando Hichcock se apercebe que a primeira esposa ainda existe, passa imediatamente a planear o sacrifício de Cynthia para trazer Margherita de volta.

O filme faz um cuidado uso dos cenários góticos e de uma iluminação inteligente, capaz de criar um ambiente extremamente bem conseguido na mansão Hichcock. Destaca-se ainda pelo crescendo de tensão provocado pelas repetidas aparições de Margherita, o uso inesperado do macabro e o gerir do perigo crescente corrido por Cynthia, em mais uma memorável interpretação de Barbara Steele, a rainha do gótico italiano da década de 1960.

O nome “Hichcock” levanta desde logo a suspeita de estarmos perante uma homenagem a Alfred Hitchcock, e ela parece evidente em diversos pormenores do argumento. Há por um lado a obsessão com a morte, presente em “Vertigo – A Mulher que Viveu Duas Vezes” (Vertigo, 1958), enquanto a ideia de uma esposa numa casa dominada pela sua antecessora morta, mantida por uma governanta tirânica, é evocativa de “Rebecca” (Rebecca, 1940). Por outro lado, o filme tem ainda algumas semelhanças com “O Túmulo de Ligeia” (The Tomb of Ligeia, 1964) que Roger Corman adaptaria de uma história de Edgar Allan Poe, com Vincent Price no principal papel, e onde a necrofilia é também sugerida.

Pelo arrojo do tema, a preversão sempre patente, o uso da luz e cenários, e um ritmo de tensão eficaz, “L’orribile Segreto del Dr. Hichcock” é um dos mais originais e bem conseguidos filmes góticos italianos deste período, e mais uma entrada inesquecível para a carreira de Barbara Steele.

Barbara Steele em "L'orribile Segreto del Dr. Hichcock" (1962) de Riccardo Freda

Produção:

Título original: L’orribile Segreto del Dr. Hichcock [Título inglês: The Horrible Dr. Hichcock]; Produção: Panda Film; País: Itália; Ano: 1962; Duração: 88 minutos; Distribuição: Warner Bros. (Itália), Sigma III Corp. (EUA); Estreia: 30 de Junho de 1962 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Riccardo Freda [como Robert Hampton]; Produção: Ermanno Donati, Luigi Carpentieri [versão americana, como Louis Mann]; Argumento: Ernesto Gastaldi [como Julyan Perry]; Música: Roman Vlad; Fotografia: Raffaele Masciocchi [como Donald Green] [cor por Technicolor]; Montagem: Ornella Micheli [como Donna Christie]; Design de Produção: Franco Fumagalli [como Frank Smokecocks]; Cenários: Joseph Goodman; Figurinos: Inoa Starly; Caracterização: Bud Steiner.

Elenco:

Barbara Steele (Cynthia Hichcock), Robert Flemyng (Prof. Bernard Hichcock), Silvano Tranquilli [como Montgomery Glenn] (Dr. Kurt Lowe), Maria Teresa Vianello [como Teresa Fitzgerald] (Margherita Hichcock) (voz dobrada por Wanda Tettoni), Harriet Medin [como Harriet White] (Martha, A Governanta) (voz dobrada por Micaela Giustiniani), Al Christianson, Evar Simpson, Nat Harley.

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