Etiquetas

, , , ,

Russkiy KovchegUm homem que nunca vemos surge, sem saber como, nem porquê, na Rússia do século XVIII, à entrada do Palácio de Inverno de S. Petersburgo. Seguindo as pessoas que entram, descobre que é visto por um estranho, que se prova ser um aristocrata francês do século XIX. Os dois vão seguindo pelos salões do palácio, comentando o que vêem, e por vezes com o estranho a interagir com os personagens que encontra, que tanto podem ser personagens históricas como Catarina a Grande e os últimos Romanov, como o próprio director do Museu Hermitage. A sua viagem pelo palácio é como que uma sumptuosa visita guiada ao Hermitage que culmina no magnífico baile de 1913.

Análise:

Em 2002, o realizador russo Alexander Sokurov conseguiu o feito de trazer algo inédito ao cinema. Filmando inteiramente numa única take, em fotografia digital não comprimida (o primeiro filme a fazê-lo na sua totalidade), Sokurov construiu um filme que é meio ficção, meio documentário, em parte realista, em parte fantasista, inteiramente filmado num único cenário, o Museu Hermitage de São Petersburgo, antigo Palácio de Inverno dos Czars da Rússia.

Com o apoio do próprio Hermitage, além de outras autoridades russas, Sokurov dirigiu uma produção que envolveu diversos países e que, como a frase promocional dizia, reuniu 2000 figurantes, três orquestras, 33 salas, 300 anos, tudo numa só take. Para tal esforço descomunal foi necessário fechar o museu, e tentar o feito num só dia. Por problemas técnicos as primeiras três takes foram interrompidas, mas à quarta, o filme foi completado.

Com uma estrutura praticamente documental, “A Arca Russa” começa com o ecrã negro, e a voz do narrador (o próprio Sokurov) que nunca veremos, e através de cujo olhar vemos todo o desenrolar dos acontecimentos. Ele é um personagem do nosso tempo que se vê, sem saber como nem onde, num lugar estranho. Descobre que viajou no tempo, e que está na Rússia czarista, adivinhando pelas roupas estar no século XVIII. Seguindo os figurantes para saber o que se passa, às vezes com medo de ser visto, noutras percebendo que ninguém o vê, o narrador encontra um estranho que, parece ser a única pessoa que com ele pode interagir, e que, como ele, também viajou no tempo. Este, descobrir-se-á mais tarde, é um nobre francês, interessado em arte, que conhece bem a cultura russa e, sem saber como, dá por si a falar russo. Passada a estranheza inicial, narrador e estranho vão seguindo, sala após sala, descobrindo e comentando os hábitos, os personagens, a arte e a história, com o estranho a mostrar desconhecer o século XX, que o narrador lhe vai explicando.

O duo vê Pedro, o Grande a maltratar um general, e Catarina, a Grande, que deixa os ensaios de uma ópera para procurar uma casa de banho. Vê preparativos para festas, jantares, encontra curadores do museu (do nosso tempo) que falam das exposições, e depara mesmo com os últimos Romanov, nas vésperas da revolução, e uma passagem para uma lúgubre sala de caixões evocativos da Segunda Guerra Mundial. Umas vezes ignorados pelos figurantes, outras interagindo com eles (sempre o estranho, nunca o narrador), o duo de protagonistas chega finalmente ao grande baile de 1913 (o último baile czarista do Palácio de Inverno), após o qual todos os personagens abandonam o palácio.

O último plano mostra-nos uma vista exterior, em que um mar revolto e fantasmagórico rodeia todo o palácio, justificando o título do filme, em que o Hermitage parece agora uma arca, encapsulando história e arte que se destacam do mundo real.

Com uma estrutura pouco convencional, e personagens que não são mais que cicerones num mundo onde realidade e reprodução histórica coexistem, “A Arca Russa” é, sobretudo, uma visita guiada ao célebre Museu Hermitage de São Petersburgo. A ideia de um filme que é um único e longo plano-sequência permite que essa visita flua como uma viagem em que os nossos anfitriões (o narrador e o estranho) podem comentar as salas, obras de arte, episódios históricos associados a cada momento, bem como apresentar-nos alguns dos personagens (de Catarina a Grande a serviçais e convidados), e até falar com personagens do nosso tempo, trabalhadores do museu (incluindo o próprio director), que nos podem situar no contexto artístico e político daquilo que vamos vendo.

Através dessa viagem e comentário, para além do olhar requintado para salões, vestes, orquestras, e obras de arte, temos ainda a oportunidade de assistir a algumas discussões, como o papel da Rússia no mundo artístico, a evolução da sua cultura e a sua posição em relação à Europa, bem como o fascínio que a grandeza russa sempre exerceu na Europa. Muito dos diálogos passa por essa descoberta, análise e desconstrução da Rússia como continente ainda por perceber aos olhos ocidentais.

Por tudo isso, há algo no comentário de Sokurov que passa pela sátira, admiração, reverência e crítica. Com um percorrer constante de salas e épocas históricas, o filme fascina tanto pela beleza da imagem e conteúdo dos espaços, como deixa um pouco a desejar por alguma pressa com que por vezes decorre e falta de envolvimento emocional. Ainda assim, o resultado é uma magnífica peça cinematográfica, que recebeu inúmeros prémios internacionais, e um elogio geral da crítica.

Palavras finais para a fotografia maravilhosa do alemão Tilman Büttner, que nos dá um retrato detalhado, fluido e quase épico, do interior de um dos mais requintados palácios do mundo. É um feito memorável, que nas mãos de Sokurov, mais que um detalhe técnico, é uma obra de um fôlego e bom gosto indescritíveis.

Sergey Dreiden em "A Arca Russa" (Russkiy Kovcheg, 2002) de Alexander Sokurov

Produção:

Título original: Russkiy kovcheg / Русский ковчег; Produção: The State Hermitage Museum / The Hermitage Bridge Studio / Egoli Tossel Film AG; País: Rússia / Alemanha / Japão / Canadá / Finlândia / Dinamarca; Ano: 2002; Duração: 95 minutos; Distribuição: Wellspring Media; Estreia: 19 de Abril de 2003 (Rússia).

Equipa técnica:

Realização: Alexander Sokurov; Produção: Andrey Deryabin, Jens Meurer, Karsten Stöter; Co-Produção: John Hamilton, David Reckziegel; Produtor Associado: Alla Verlotsky; Argumento: Anatoli Nikiforov, Alexander Sokurov; Diálogos: Boris Khaimsky, Alexander Sokurov, Svetlana Proskurina; Música: Sergei Yevtushenko, Mikhail Glinka, Piotr Tchaikovsky, G. Persella, Georg Phillipp Telemann; Fotografia: Tilman Büttner [Digital]; Montagem: Stefan Ciupek, Sergey Ivanov, Betina Kuntzsch; Direcção Artística: Yelena Zhukova, Natalia Kochergina; Cenários: V. Yermakova, M. Yevstigneyeva, Y. Bousse; Figurinos: Lidiya Kryukova, Tamara Seferyan, Maria Grishanova; Caracterização: Zhanna Rodionova, Lyudmila Kozinets; Efeitos Especiais: A. Alexeyev, Y. Epstein, Timur Gordin, M. Khatsarevich, Vladimir Khromov, Anatoli Kudryavtsev, Vladimir Ponikarovsky, V. Valeulov, Dmitry Voronov, Yury Vybornov; Efeitos Visuais: Patrick Wilfert, Stefan Kessner, Kay Woytke, Ania Cremer, Hoger Knauer; Coreografia: Gali Abaidulov.

Elenco:

Sergey Dreiden (O Estranho – O Marquês de Custine), Mariya Kuznetsova (Catarina, a Grande), Leonid Mozgovoy (O Espião), Mikhail Piotrovsky (O Próprio, O Director do Hermitage Director), David Giorgobiani (Orbeli), Aleksandr Chaban (Boris Piotrovsky), Lev Eliseev (O Próprio), Oleg Khmelnitsky (O Próprio), Alla Osipenko (O Próprio), Artyom Strelnikov (Rapaz Talentoso), Tamara Kurenkova (A Própria – Cega), Maksim Sergeev (Pedro, o Grande), Natalya Nikulenko (Catarina, a Grande), Elena Rufanova (Primeira Dama), Yelena Spiridonova (Segunda Dama), Maestro Valery Gergiev, Mariinsky Theatre Orchestra, The State Hermitage Orchestra, Alexander Sokurov (O Narrador) [não creditado].

Advertisements