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I VampiriEm Paris, em 1957, regista-se uma série de crimes, resultando na morte de jovens raparigas, atribuídos a um criminoso a que se chama “O Vampiro”, por deixar os cadáveres sem pinga de sangue. A investigar o caso está o jornalista Pierre Lantin (Dario Michaelis), que interfere no trabalho da polícia, seguindo pistas que o levam ao palácio da duquesa Marguerite du Grand, avó de Giselle (ambas interpretadas por Gianna Maria Canale), que se enamora dele. Mas Pierre começa a desconfiar que algo sinistro ocorre no castelo, ligado ao sangue das raparigas assassinadas.

Análise:

Citado habitualmente como o filme que iniciou o género do terror gótico italiano, “Os Vampiros” foi uma obra com uma produção demasiado quezilenta, para se poder na altura adivinhar o impacto que viria a ter.

Recuperando dos traumas do pós-guerra, o cinema italiano era, nos anos 1950, conhecido internacionalmente por duas coisas distintas. Uma era o interesse crescente no Neo-realismo que, sobretudo através de Roberto Rossellini, tinha conseguido exportar com êxito. A outra era a utilização dos estúdios e técnicos do Cinecittà, em grandes produções americanas, que viam assim uma forma de diminuir custos. São exemplos dessa política “Ben Hur” (Ben Hur, 1959) de William Wyler ou “Cleópatra” (Cleopatra, 1963) de Joseph L. Mankiewicz. Esse intercâmbio funcionou também como forma de estimular, público, profissionais e produtores italianos para um cinema mais espectacular, que espelhasse o que se fazia em Hollywood, e trouxesse de volta o escapismo que o Neo-realismo procurava combater.

Uma das correntes saídas dessa necessidade foi o género do terror, algo há muito desaparecido no cinema italiano (proibido mesmo durante o fascismo de Mussolini). O projecto foi proposto por Riccardo Freda, um realizador que trabalhava fora do movimento neo-realista, especializando-se em filmes de aventuras e dramas históricos. Freda queria agora experimentar num novo género, para o qual tinha pensado em soluções estéticas nunca tentadas em Itália. Sem um argumento acabado, Freda abordou as companhias Titanus e Athena Cinematografica, prometendo-lhes que teria imagens prontas no dia seguinte, que conseguiria um argumento que passasse a censura, e que filmaria todo o filme em apenas doze dias. Tal foi o suficiente para convencer as produtoras a dar luz verde a Freda.

Com Freda estava Mario Bava, na altura já um reputado director de fotografia, que sugeriu que se filmasse a preto e branco, o que também diminuiria o custo do filme. O orçamento era mesmo um problema, e Freda viu-se a mãos com pouquíssimos recursos que lhe permitissem elaborar os complexos cenários góticos que tinha em mente. Passados dez dias, Riccardo Freda não tinha ainda conseguido a aprovação do argumento, e via-se apenas com meio filme rodado. Tal levou-o a pedir mais tempo aos produtores que o negaram. Sem ver qualquer possibilidade de terminar o filme como pretendia, Freda demitiu-se do projecto. Para o seu lugar foi promovido Mario Bava, que tinha a incumbência de terminar o filme em dois dias, modificando o argumento, aproveitando cenas descartadas, e filmando freneticamente no tempo que lhe restava.

O resultado é um filme um pouco híbrido, onde se começa num thriller moderno e se termina num drama de horror gótico. Tudo começa com algumas mortes de raparigas jovens, atribuídas a um criminoso a que se chama “O Vampiro”, por deixar os cadáveres sem pinga de sangue. O jornalista Pierre Lantin (Dario Michaelis) vai então interferir no trabalho da polícia, procurando chegar mais perto da verdade. Na pista para salvar a mais recente desaparecida, Laurette Robert (Wandisa Guida), Pierre Lantin, chega a uma festa dada pela duquesa Marguerite du Grand, avó de Giselle (ambas interpretadas por Gianna Maria Canale), a qual está enamorada dele. Aos poucos Pierre começa a suspeitar de que o velho palácio está ligado aos crimes, e com a ajuda da polícia, Pierre descobre que, na verdade, Margerite e Giselle são a mesma pessoa, sendo que a velha duquesa usa sangue de jovens mulheres para aparentar ser jovem.

O filme (cuja história nada tinha a ver com vampiros, sendo sim uma recriação do mito da condessa Elizabeth Báthory, tantas vezes já levado à tela) teve a interpretação de Gianna Maria Canale, então esposa de Riccardo Freda e, embora de importância histórica, padece de vários males. Não só não é esteticamente uniforme (com as sequências do palácio e as da investigação policial na cidade a parecerem provir de dois filmes distintos), como o argumento permite que soluções surjam do nada, que alguns personagens desapareçam repentinamente ou ganhem proeminência inusitada, e que algumas pontas da história acabem soltas.

Ainda assim, a belíssima fotografia de Bava é um dos pontos altos do filme, o qual disfarça as dificuldades orçamentais com soluções imaginativas, que nos possibilitam ver um interior de um castelo gótico bastante eficaz. Igualmente eficaz é o aspecto aterrador do exterior do castelo, conseguido à custa das névoas tão queridas do gótico, e os efeitos especiais, nomeadamente as transformações faciais. De destacar que estas são conseguidas sem truques de montagem. Na verdade tudo se passa com maquilhagem cujas várias nuances vão sendo realçadas, sucessivamente, através da exposição a luzes de diferentes cores, as quais são imperceptíveis a preto e branco, mas fazem realçar no rosto diferentes estágios de maquilhagem (note-se o escurecimento do vestido, que trai esta técnica).

O filme foi um fracasso em Itália, o que Riccardo Freda atribuía ao facto de o público italiano não estar habituado a ver filmes de terror feitos em Itália. Por essa razão usou um pseudónimo anglófono (Robert Hamton) no seu filme de terror seguinte. “Os Vampiros” veio, com os anos, a ganhar um estatuto de culto.

Gianna Maria Canale

Produção:

Título original: I Vampiri; Produção: Titanus Produzione / Athena Cinematografic; País: Itália; Ano: 1957; Duração: 81 minutos; Distribuição: Titanus Distribuzione; Estreia: 5 de Abril de 1957 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Riccardo Freda, Mario Bava [não creditado]; Produção: Ermanno Donati, Luigi Carpentieri; Argumento: Piero Regnoli, Rijk Sijöstrom, Riccardo Freda; História: Piero Regnoli, Rijk Sijöstrom; Fotografia: Mario Bava [filmado em CinemaScope, preto e branco]; Música: Roman Vlad; Design de Produção: Beni Montresor; Montagem: Roberto Cinquini; Figurinos: Beni Montresor; Caracterização: Franco Freda; Efeitos Especiais: Mario Bava [não creditado]; Director de Produção: Piero Donati.

Elenco:

Gianna Maria Canale (Giselle du Grand / Marguerite du Grand), Carlo D’Angelo (Inspector Chantal), Dario Michaelis (Pierre Lantin), Wandisa Guida (Laurette Robert), Angelo Galassi (Ronald Fontaine), Renato Tontini (Assistente do Professor Grand), Charles Fawcett (Senhor Robert), Gisella Mancinotti (Amiga di Laurette), Miranda Campa (Senhora Robert), Antoine Balpêtré (Professor Julien du Grand), Paul Muller (Joseph Signoret).

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