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Det sjunde insegletRegressados das cruzadas, o cavaleiro Antonius Block (Max von Sydow) e o seu escudeiro Jöns (Gunnar Björnstrand) deparam com uma Suécia onde a peste grassa, o povo sofre, e Deus parece ter-se definitivamente ausentado. Estas são as preocupações do cavaleiro que, no caminho, joga um perigoso jogo com a Morte (Bengt Ekerot), à qual tenta ganhar tempo. Block viaja pela floresta, por entre episódios de procissões de flagelados, e execuções de bruxas, na companhia do escudeiro, dos saltimbancos Jof (Nils Poppe) e a sua esposa Mia (Bibi Andersson), do ferreiro Plog (Åke Fridell) e esposa Lisa (Inga Gill) e de uma jovem rapariga (Gunnel Lindblom).

Análise:

Com a produção do seu filme de 1957, “O Sétimo Selo”, Ingmar Bergman libertava-se de uma vez por todas das convenções cinematográficas assentes na narrativa literária e teatral, para criar definitivamente um universo só seu, que não mais o largaria, e o tornaria uma das vozes mais inconfundíveis do cinema internacional. Tal aconteceu a partir de uma peça de teatro sua, “Trämålning” (Wood Painting), que em 1953-54 escreveu para os seus estudantes de teatro em Malmö. Foi também o início da sua colaboração com Max von Sydow e Bibi Andersson, a qual já tivera um cameo no anterior “Sorrisos de uma Noite de Verão” (Sommarnattens leende, 1955). Era o assumir explícito de uma metafísica que não conhece agora barreiras narrativas na interacção com o real.

Basta a cena de abertura para percebermos que muito mudou no universo de Bergman. Um cavaleiro cruzado (Max von Sydow) acorda na praia, e depara-se com um tabuleiro de xadrez, para o qual é convidado a jogar por uma figura sinistra completamente vestida de negro: a Morte (Bengt Ekerot). Joga-se a vida do cavaleiro, chamado Antonius Block, e mesmo que este saiba que o mais provável é perder, tenta a cada jogada adiar esse momento, para ganhar algum tempo, no qual busca desesperadamente respostas, sobre a vida, Deus, e o seu propósito.

Com esse início alegórico, passamos a acompanhar Block e o seu escudeiro Jöns (Gunnar Björnstrand, no seu oitavo filme com Bergman), regressados das cruzadas para uma terra devastada pela peste e miséria. Block e Jöns vão ter a uma aldeia, onde Jöns salva uma jovem rapariga (Gunnel Lindblom) das tentativas de violação de um dos homens. Na aldeia um grupo de saltimbancos actua, e um deles, Skat (Erik Strandmark), seduz Lisa (Inga Gill), a mulher do ferreiro Plog (Åke Fridell). Block torna-se amigo dos outros saltimbancos, o casal Jof (Nils Poppe) e Mia (Bibi Andersson), e segue com eles pela floresta, com Jöns, a rapariga e o infeliz Plog, que entretanto reencontrará Lisa.

Na floresta a Morte volta a defrontar Block, o grupo testemunha a execução de uma bruxa (Maud Hansson) e finalmente chegam a casa de Block, onde são recebidos pela esposa deste (Inga Landgré), e após uma tempestade fantasmagórica, a Morte chega para reclamar as suas vidas. Escapam apenas Mia, Jof e o bebé de ambos, que haviam fugido antes.

Tendo já abordado alguns destes temas anteriormente, Ingmar Bergman lança-se sem pejo numa busca metafísica, com o mote numa citação do Livro das Revelações do Novo Testamento, que dá o nome ao filme. Começando e terminando com imagens do céu, esse céu que é um lugar de onde só provém silêncio, Bergman confunde protagonista com as suas preocupações pessoais. Aqui fantasia e realidade não têm barreiras definidas e o tema é a relação do homem com o transcendente que, em “O Sétimo Selo”, passa por questões de fé e religiosidade, num momento (Idade Média) em que a religião era tema dominante. Temos, por isso, os devotos, as procissões, os flagelos auto-impostos, a caça às bruxas, o medo da peste como castigo divino, e as várias conversas sobre fé e religião. Block discute isto com a Morte (que chega a surgir como monge disfarçado), e esta vai repetindo que depois dela não existe nada, que não tem respostas para ele, e que a ausência de Deus é uma possibilidade. Mas recusando-se a aceitar esse vazio, embora não tendo mais que o silêncio de Deus, Block procura respostas, nem que seja na presença do Diabo invocado pela bruxa.

Ao lado do cavaleiro todos os personagens surgem como personagens tipo. Jöns é o seu Sancho Pança, prosaico e terra-a-terra (veja-se como recruta a rapariga, na esperança de que a mulher já tenha morrido), onde o cavaleiro é espiritual. Os saltimbancos (note-se a repetição deste tema) representam a jovialidade e vida, representada no seu bebé (note-se como Jof e Mia são diminutivos de José e Maria, que com o bebé formam uma sagrada família), e o ferreiro e a esposa os paradoxos do comportamento humano, sempre entre alegria e tragédia.

Todo o filme funciona como uma busca, que é mais metafísica que literal, onde praia, aldeia e floresta funcionam como espaços místicos. Há sempre um sopro de medieval, que se deve à inspiração do autor, pinturas medievais em murais de igrejas. Quase todo o filme é filmado em estúdio (embora a maioria das cenas sejam de exteriores), o que torna a fotografia e uso da luz magistrais, evocando, talvez, Akira Kurosawa, particularmente no filme “Às Portas do Inferno” (Rashomon, 1950).

Com Max von Sydow a encarnar na perfeição o amargurado cavaleiro, tornava-se o paradigma do alter-ego bergmaniano, exalando uma elegante dignidade e uma contida tormenta interna. O comediante Nils Poppe a traz um lado alegre, aliado à leveza da bela Bibi Andersson (então numa relação amorosa com o realizador), e o seguro e carismático Gunnar Björnstrand é de novo um pilar seguro para o realizador, ele que parece conseguir transformar-se a cada filme. Com eles, o pândego Åke Fridell, novamente num papel cómico, ajuda a que o filme seja ao mesmo tempo leve e denso.

Ingmar Bergman confessaria mais tarde que “O Sétimo Selo” era um dos seus filmes preferidos dos muitos que realizou. O filme tem sido considerado um dos mais importantes da história do cinema, e a sua iconografia inesquecível é frequentemente citada e parodiada noutras obras. Exemplos são a dança macabra em “Nem Guerra, nem Paz” (Love and Death, 1975) de Woody Allen, ou a sequência em que a Morte anuncia a morte dos protagonistas, em “O Sentido da Vida” (Monty Python’s Meaning of Life, 1983) de Terry Jones.

Muito apreciado, discutido e estudado até hoje, “O Sétimo Selo” era, para Bergman, simplesmente o filme que o ajudou a superar o medo da morte.

Bengt Ekerot e Max von Sydow

Produção:

Título original: Det sjunde inseglet [Título inglês: The Seventh Seal]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1957; Duração: 92 minutos; Distribuição: Svensk Filmindustri (SF); Estreia: 16 de Fevereiro de 1957 (EUA), 23 de Outubro de 1963 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Allan Ekelund; Argumento: Ingmar Bergman [a partir de uma peça sua]; Música: Erik Nordgren; Direcção Musical: Sixten Ehrling; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Lennart Wallén; Design de Produção: P. A. Lundgren; Figurinos: Manne Lindholm; Efeitos Especiais: Evald Andersson; Coreografia: Else Fisher; Caracterização: Nils Nittel.

Elenco:

Gunnar Björnstrand (Jöns, o Escudeiro), Bengt Ekerot (Morte), Nils Poppe (Jof), Max von Sydow (Antonius Block), Bibi Andersson (Mia, Mulher de Jof), Inga Gill (Lisa, Mulher do Ferreiro), Maud Hansson (Bruxa), Inga Landgré (Karin, Mulher de Block), Gunnel Lindblom (Rapariga), Bertil Anderberg (Raval), Anders Ek (Monge), Åke Fridell (Plog, o Ferreiro), Gunnar Olsson (Albertus Pictor, Pintor da Igreja), Erik Strandmark (Jonas Skat).

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