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Tian zhu dingEm quatro histórias distintas, baseadas em acontecimentos verídicos, ocorridos na China contemporânea, vemos sucessivamente: Dahai (Jiang Wu), um mineiro que questiona o uso de dinheiro dos responsáveis da vila; Zhou San (Wang Baoqiang), um assassino mercenário que vive para os roubos e execuções que vai cometendo; Xiao Yu (Zhao Tao), a amante de um homem casado, cujo espancamento pela rival a vai levar a actos de extrema violência; e Xiao Hui (Luo Lanshan), um jovem que se emprega num prostituição de luxo, onde se apaixona por uma das prostitutas.

Análise:

Com um título que literalmente significa “Destino Celestial” ou “Destino Condenado”, mas cujo título inglês presta homenagem ao filme Wuxia (histórias chinesas de artes marciais, geralmente passadas num passado remoto) “A Touch of Zen” (Xia nü, 1971), um clássico de King Hu, Jia Zhangke realizou e escreveu “China – Um Toque de Pecado”, numa co-produção internacional, que, como vinha sendo hábito, foi acolhido em inúmeros festivais internacionais na Europa e América.

O filme representa uma mudança no estilo de Zhangke, não só por se tratar de um conjunto de histórias separadas (os personagens chegam a cruzar-se e partilhar um espaço, mas sem participarem nas histórias uns dos outros), mas principalmente por sequências de acção dramática, e maior ênfase nos protagonistas, por contraste com os planos gerais e distanciamento antes típico do realizador.

“China – Um Toque de Pecado” é formado por quatro histórias distintas, abarcando vastas regiões da China, dos subúrbios movimentados de Guangzhou e Dongguan, à paisagem rural da província de Shanxi, terra natal de Jia Zhangke.

Na primeira história temos Dahai (Jiang Wu), um mineiro que questiona a elite da vila quanto aos fins corruptos do dinheiro retirado do negócio local. A sua teimosia leva a que seja brutalmente espancado, e Dahai perde completamente as estribeiras, matando a tiro todos os que se lhe atravessam à frente, culpados ou não. Na segunda história vemos Zhou San (Wang Baoqiang) um assassino mercenário, que tem como único interesse na sua vida, a excitação dos seus trabalhos. Embora provindo de uma aldeia rural, onde tem esposa e filho, Zhou San só se sente bem em viagem, de pistola na mão. A terceira história mostra-nos Xiao Yu (Zhao Tao), amante de um homem casado de Guangzhou, que quer que este se defina quanto à relação. De regresso a casa, Xiao Yu é brutalmente espancada a mando da rival. Mais tarde, no salão de massagens onde trabalha, é assediada por dois clientes agressivos, e Xiao Yu perde o controlo esfaqueando um deles. Por fim, na última história, Xiao Hui (Luo Lanshan), trabalhador numa fábrica, é responsabilizado por um acidente. Para evitar ficar sem salário, Xiao Hui abandona a fábrica e vai para Dongguan, onde se emprega como empregado num estabelecimento de prostituição de luxo. Aí apaixona-se por uma das prostitutas, que embora lhe retribua os sentimentos, o avisa de que não lhe pode dar o que quer, pois apenas quer ganhar dinheiro para a sua filha.

O filme inicia-se com uma cena de execução, que parece provir de um filme de acção, e termina num suicídio. Esse tipo de registo mantém-se, mostrando-nos espancamentos, tiroteios, roubos, e uma sequência com esquartejamentos, dignos de um filme Wuxia.

O filme inicia-se com uma cena de execução, que parece provir de um filme de acção, e termina num suicídio. Esse tipo de registo mantém-se, mostrando-nos espancamentos, tiroteios, roubos, e uma sequência com esquartejamentos, dignos de um filme Wuxia. Na base de todas as histórias (as quais se inspiraram em acontecimentos reais) está, como é imagem de marca de Jia Zhangke, a mudança na China, numa adopção de um mundo moderno que colide com a sua tradição, e que, incorporado à pressa pelas novas gerações, dá lugar a conflitos e paradoxos. Vemos por isso, a corrupção, combatida pela irreverência e teimosia de quem não tem as mesmas armas dos poderosos; a nova criminalidade, de mercenários que escolhem a aventura como meio de vida; uma relação ilícita que leva uma mulher a ser espancada, para mais tarde se vingar no clube nocturno onde trabalha; e por fim a inadaptação à grande indústria que leva um jovem romântico que vai tentar a sua sorte no submundo dos clubes nocturnos, e perder-se numa relação impossível.

Violência, inadaptação, desgosto, ambição são temas recorrentes, que provêm do quase niilismo que é a perda de referências na negação de um passado, que ainda assim, Jia Zhangke tenta lembrar, mesmo que em jeito irónico, como na festa de ano novo, celebrada a tiro, ou no desfile de roupas tradicionais das prostitutas de um estabelecimento de luxo. Cúmulo dessa ironia é a cena final, em que uma audiência de um espectáculo tradicional aplaude, na nossa direcção, como se tivéssemos passado a ser nós o espectáculo.

Também a nível de filmagem muito muda na linguagem de Zhangke, com os close-ups a substituírem os planos gerais, e uma câmara intrusiva que acompanha os protagonistas ao ponto de se centrar em detalhes e movimentos, a substituir a câmara distante contemplativa de antes. Curiosamente, ou talvez não, esta aproximação ao rosto resulta numa maior frieza, enquanto a anterior distância conseguia trazer mais emoção.

“China – Um Toque de Pecado” foi nomeado para a Palma de Ouro em Cannes, onde venceria o prémio para Melhor Argumento.

Wang Baoqiang

Produção:

Título original: Tian zhu ding / 天注定; Produção: Xstream Pictures / Office Kitano / Shanghai Film Group / Shanxi Film & Television Group / Bandai Visual Company / Bitters End / MK2; Produtores Executivos: Jia Zhangke, Mori Masayuki, Ren Zhong-lun; País: China / Japão / França; Ano: 2013; Duração: 130 minutos; Estreia: 17 de Maio de 2013 (Festival de Cannes, França), 5 de Dezembro de 2013 (Itália), 5 de Dezembro de 2013 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jia Zhangke; Produção: Shozo Ichiyama; Produtores Associados: Jia Bin, Kazumi Kawashiro, Liu Shiyu, Sadai Yûji; Co-Produção: Xiaojiang Gao, Eva Lam, Jianping Qian, Dong Zhang; Argumento: Jia Zhangke; Música: Lim Giong; Fotografia: Yu Lik-wai [filmado em Master Scope, fotografia Digital]; Montagem: Matthieu Laclau, Lin Xudong; Direcção Artística: Liu Weixin; Cenários: He Daiyu; Efeitos Especiais: Qin Fei, Xie Yanquan, Xie Yunshui; Efeitos Visuais: Patrick Jarvis, Zhang Fan.

Elenco:

Jiang Wu (Dahai), Wang Baoqiang (Zhou San), Zhao Tao (Xiao Yu), Luo Lanshan (Xiao Hui), Zhang Jia-yi (Zhang Youliang), Meng Li [como Vivien Li], Liu Lu, Han Dong, Wang Hongwei, Wang Qiang.

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