Etiquetas

, , , , , , , , , , , , ,

Sommarnattens leendeFredrik Egerman (Gunnar Björnstrand) é um conhecido advogado, casado com a muito mais jovem Anne (Ulla Jacobsson), com a qual ainda não consumou o casamento, pois ela parece preferir a companhia do enteado Henrik (Björn Bjelfvenstam). Por isso, Fredrik procura conforto com a ex-amante Desiree Armfeldt (Eva Dahlbeck), a qual se pretende livrar do impetuoso amante, o bélico conde Carl Magnus Malcolm (Jarl Kulle), que não se importa que a esposa (Margit Carlqvist) saiba da traição. Tudo culmina na mansão da mãe de Desiree (Naima Wifstrand), onde todos são trazidos, num plano para lhes mudar os destinos.

Análise:

De novo na estatal Svensk Filmindustri (SF), Ingmar Bergman escrevia e realizava uma comédia romântica, bem-disposta, mas moralista e de certo modo densa, e, como se tornava característica sua, dominada e vista da perspectiva feminina. Era ainda uma primeira incursão ao filme de época, com a acção a decorrer no final do século XIX, e filmada nos cenários naturais de Skåne, no bem mais soalheiro sul da Suécia.

Hoje considerado um clássico, o filme terá acontecido apenas porque Bergman queria permanecer ocupado, num momento em que a sua saúde definhava, a relação com Harriet Andersson estava pelas ruas da amargura, e a SF o pressionava a obter um sucesso de bilheteira.

“Sorrisos de Uma Noite de Verão” é a história de Fredrik Egerman (Gunnar Björnstrand), um conhecido advogado, casado com a muito mais jovem Anne (Ulla Jacobsson), depois de ter enviuvado da mãe do seu filho, agora adulto, Henrik (Björn Bjelfvenstam). Mas nem tudo vai bem no casamento, ainda não consumado sexualmente, pois Anne trata Frederik com o carinho que uma filha tem por um pai, preferindo a companhia do enteado, o qual vai perseguindo a criada Petre (Harriet Andersson). Após ida ao teatro, Frederik encontra a actriz, e ex-amante, Desiree Armfeldt (Eva Dahlbeck), e pede-lhe ajuda. A entrevista é interrompida pelo novo amante de Desiree, o belicoso conde Carl Magnus Malcolm (Jarl Kulle), o qual não se importa que a esposa (Margit Carlqvist) saiba da traição. Disposta a mudar tudo está Desiree, que convida todos para uma festa na mansão de sua mãe (Naima Wifstrand) para tentar reconquistar o advogado, dar uma lição ao conde, e fazer Anne encontrar o verdadeiro amor.

Como se percebe, tanto pelo título, como pelo enredo, o filme de Bergman tem como inspiração a peça de Shakespeare “Sonho de uma Noite de Verão” (A Midsummer Night’s Dream), uma obra em que jogos de entidades mitológicas levam a uma confusão de enredos e revelações amorosas, passadas numa só noite, aqui numa história de pares desencontrados (dois casais desavindos, dois maridos que procuram consolo junto da actriz, duas mulheres que colocam os seus afectos noutro homem).

Seguimos principalmente as tribulações do pomposo advogado Fredrik Egerman, casado com quem não o deseja sexualmente, e desejado pela mais madura actriz, acossada por um pretensioso e arrogante conde. Pelo meio temos ainda o comportamento de Henrik Egerman, um jovem perdido, que fala em ser padre, mas que cedo percebemos amar a madrasta. E também a divertida criada Petra, mulher desinibida sexualmente, que se diverte a provocar os patrões.

Tudo se conjuga para o clímax organizado por Desiree, numa noite de confusões, na qual a condessa Malcolm tenta seduzir o advogado, como modo de provocar reacções. Estas chegam depois do vinho servido pela anfitriã, como metáfora de elixir mágico, e serão a indisposição de Anne e a cólera de Henrik, que levam à declaração do amor de ambos (na curiosa cena da cama que atravessa uma parede), e por fim ao suposto duelo entre o conde e o advogado.

Mas, e apesar de ser uma comédia, com réplicas humoradas e inúmeras insinuações sexuais, “Sorrisos de Uma Noite de Verão” não deixa de ter um lado negro, de cinismo e descrença no amor, numa história afinal marcada por infidelidades, mentiras e adultério. No final, é certo, toda a gente termina feliz, mas essa amargura dos amores impossíveis, compromissos inevitáveis e cinismo das relações nunca é desfeita. Nele toca-se ainda a morte (o falhado suicídio, a roleta russa), e a fatídica passagem do tempo (as horas dos sorrisos, o relógio com as suas figuras sinistras) como fatalidades inultrapassáveis.

São os dois serviçais, Frid (Åke Fridell) e Petra, mais terra-a-terra, sem necessidade de falsas poesias, que chegam à ideia dos três sorrisos da noite de Verão, na tragicomédia que é o amor. Segundo Frid, o primeiro sorriso é para os jovens amantes, os verdadeiramente inocentes, que recebem o amor como dádiva e castigo. O segundo é para os palhaços, os loucos, e os sem perdão. O terceiro, quando a madrugada já desponta, é para os tristes e rejeitados, os insones e almas perdidas, os assustados e solitários.

Ao serviço do filme está ainda um ensemble como Bergman nunca tinha juntado. À mais mimada das suas actrizes, Harriet Andersson, juntava-se a classe de Eva Dahlbeck, o carisma de Gunnar Björnstrand, os três actores mais habituais nos filmes recentes de Bergman. Com eles estava a subtileza delicada de Ulla Jacobsson, a comicidade caricatural de Jarl Kulle, e a força natural de Margit Carlqvist, e o bonacheirão Åke Fridell, todos a comporem personagens fortes, onde se destaca pela negativa o sofredor romântico interpretado por Björn Bjelfvenstam. Presente mas quase imperceptível está Bibi Andersson, nova amante de Bergman, que tem uma breve cena na sequência do teatro, e seria fulcral nos filmes seguintes do realizador.

Como a inspiração de Shakespeare deixará adivinhar, há sempre algo de teatral em “Sorrisos de Uma Noite de Verão”, tanto na forma como todos os confrontos são encenados, como na própria forma de filmar, onde cada composição é como um palco, o que afasta este filme do muito mais cinematográfico “Sonhos de Mulheres” (Kvinnodröm, 1955).

Muito apreciado internacionalmente, “Sorrisos de Uma Noite de Verão” conquistaria Cannes, em 1956, onde recebeu o Prémio do Júri, lançando definitivamente o nome de Ingmar Bergman. O filme inspiraria o musical da Broadway “A Little Night Show” (1973) e levou Woody Allen a fazer o seu filme-homenagem ao seu ídolo sueco, “Comédia Sexual numa Noite de Verão” (A Midsummer Night’s Sex Comedy, 1982).

Naima Wifstrand, Åke Fridell, Jarl Kulle, Eva Dahlbeck, Margit Carlqvist e Gunnar Björnstrand

Produção:

Título original: Sommarnattens leende [Título inglês: Smiles of a Summer Night]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1955; Duração: 104 minutos; Distribuição: Svensk Filmindustri (SF); Estreia: 26 de Dezembro de 1955 (Suécia), 17 de Fevereiro de 1960 (Cinema Império, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Allan Ekelund; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Erik Nordgren; Direcção Musical: Eskil Eckert-Lundin; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Oscar Rosander; Design de Produção: P. A. Lundgren; Figurinos: Mago; Caracterização: Carl M. Lundh.

Elenco:

Ulla Jacobsson (Anne Egerman), Eva Dahlbeck (Desiree Armfeldt), Harriet Andersson (Petra, a Criada), Margit Carlqvist (Condessa Charlotte Malcolm), Gunnar Björnstrand (Fredrik Egerman), Jarl Kulle (Conde Carl Magnus Malcolm), Åke Fridell (Frid), Björn Bjelfvenstam (Henrik Egerman), Naima Wifstrand (Mrs. Armfeldt), Jullan Kindahl (Beata, a Cozinheira), Gull Natorp (Malla), Birgitta Valberg (Actriz), Bibi Andersson (Actriz).

Advertisements