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24 City24 City é o nome dado a um complexo urbano moderno, a ser construído na região de Chengdu, onde antes existia uma fábrica de armamento aeronáutico, chamada Fabrica 420. Em jeito de documentário, vemos uma série de entrevistas com três gerações de pessoas que, ou trabalharam na fábrica, ou tiveram as suas vidas de alguma forma ligadas à sua existência. Tudo se passa tendo o desmantelamento da Fábrica 420 a decorrer em fundo, marcando as mudanças na China actual.

Análise:

Desta vez também com o crédito de produtor, Jia Zhangke teve em “24 City” mais uma co-produção internacional, com o aval do governo chinês, e interesse dos mercados europeus, onde o filme estreou em diversos festivais, antes de chegar ao circuito comercial.

Simplificando ainda mais o seu já minimalista estilo de filmagem e montagem, Jia Zhangke construiu o seu filme como um documentário, em que mistura imagens encenadas com actores que actuam como se fossem entrevistados, com imagens documentais dos cenários descritos.

O tema deste documentário é a Fábrica 420, nos arredores de Chengdu, uma importante fábrica de equipamento militar nos anos 50, 60 e 70 do século passado, e cuja localização vai dar lugar a um moderno complexo urbano. No momento das filmagens a fábrica encontra-se a ser desmantelada, e serve de cenário (e mote) a uma série de entrevistas feitas com três gerações de pessoas que ali trabalharam e/ou tiveram as suas vidas moldadas pela existência da fábrica.

A maior parte do filme é composta de entrevistas (na verdade monólogos, pois não vemos entrevistadores, nem ouvimos perguntas), as quais ocorrem em planos fixos do entrevistado, contra um fundo habitualmente marcado por linhas rectas do enquadramento de janelas ou outros pormenores estruturais da fábrica. Vemos antigos trabalhadores que contam como a sua ética de trabalho evoluiu com o desempenho na fábrica, ou como o deslocamento para Chengdu significou deixar de ver a família (história de Liping Lü). Vemos uma mulher que conta dos tempos felizes de juventude, em que era considerada tão bonita como a actriz Joan Chen (e é de facto a actriz que interpreta o papel), mas agora vive só, como muitos ex-colegas, que embora casados, já se divorciaram. E vemos finalmente as gerações mais novas, quer o universitário que um dia pensou trabalhar em vez de estudar, para ficar horrorizado com a monotonia e stress do trabalho, quer a filha de trabalhadores que ficou chocada numa visita, pela desumanização que encontrou.

Todas as entrevistas são longas, aparentemente deixando correr a conversa sem cortes, levando a que episódios corriqueiros, que dão um colorido aos dias áureos de Chengdu, sejam aos poucos toldados de emoção e nostalgia. Seja através daqueles que recordam com saudade os tempos em que podiam depender de um emprego que os enchia de orgulho, seja através da nova geração que aponta a desumanização de um tempo remoto, seja ainda pela geração intermédia que ali viu tempos de alegria transformarem-se em desânimo e decadência, todas as histórias se tornam comoventes, sem qualquer esforço. Um dos maiores méritos que se podem apontar ao filme é de que rapidamente nos esquecemos que estamos a ver actores.

Pode mesmo dizer-se que, por comparação com os seus filmes anteriores, “24 City” é aquele onde mais facilmente se atinge a emoção, passe ser apresentado como documentário, ou talvez por isso mesmo, já que dá desde logo a ideia de um extremo realismo. Jia Zhangke aproxima mais a câmara dos seus protagonistas, deixando-os respirar, dando-lhes pausas dramáticas, embargos de voz e algumas lágrimas.

No geral fica mais um retrato de uma China em mudança, com novos desafios, um povo que ainda não se adaptou, e continua preso a um misto de tradição e curiosidade pelo moderno (note-se a entrevista da jovem – Tao Zhao – que compra roupas de luxo para senhoras ricas). Como se não bastasse a transformação implícita, a própria fábrica (objectivos, necessidade militar, modo como era vista, a ética e propaganda que transmitia) é metáfora dessa mudança, com a sua implosão na parte final do filme a surgir como conclusão lógica de uma China em transformação, com todas as suas contradições.

Por outro lado, e não menos importante que o papel documental e histórico do filme, há ainda o lado humano, que nos é dado a descobrir através das histórias, medos, sonhos, e desejos dos entrevistados. Através deles podemos ver pessoas que acreditaram, lutaram, sonharam, viveram, amaram, viram o seu mundo mudar, analisam o que podia ter corrido melhor, revêem os seus objectivos e olham com nostalgia para o passado. Fica a certeza de que, seja qual a época, filosofia e situação política e cultural em questão, as pessoas vão sempre lutar para ser felizes, procurar o melhor, errar, arrepender-se, e lembrar a sua juventude com nostalgia, e tantas vezes o futuro com desânimo.

É essa a lição que fica de “24 City”, um filme que retrata uma situação concreta na China, mas deixa um ar de universalidade humana.

24 City

Produção:

Título original: Er shi si cheng ji / 二十四城記; Produção: Bandai Visual Company / Bitters End / China Resources / Office Kitano / Shanghai Film Group / Xstream Pictures; Produtores Executivos: Chow Keung, Ren Zhong-lun, Tang Yong; País: China / Hong Kong / Japão; Ano: 2008; Duração: 112 minutos; Estreia: 17 de Maio de 2008 (Festival de Cannes, França), 3 de Junho de 2008 (China), 10 de Junho de 2010 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jia Zhangke; Produção: Jia Zhangke, Shozo Ichiyama, Wang Hong; Co-Produção: Kubo Satoshi, Ma Ning, Mori Masayuki, Sadai Yûji, Xu Pengle, Yoshida Takio, Zhu Jiong; Argumento: Jia Zhangke, Zhai Yongming; Música: Yoshihiro Hanno, Lim Giong; Fotografia: Yu Lik-wai, Wang Yu [Digital]; Montagem: Lin Xudong, Kong Jinglei; Design de Produção: Liu Qiang.

Elenco:

Jianbin Chen, Joan Chen (Gu Minhua / Xiao Hua), Liping Lü (Hao Dali), Tao Zhao (Su Na).

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