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The Greatest Story Ever ToldVersão de George Stevens da história da vida de Jesus Cristo (interpretado por Max von Sydow), desde o seu nascimento, passando pelo encontro com João Baptista (Charlton Heston), que marca o início do seu ministério, o jejum no deserto, tentado por Satanás (Donald Pleasance), o reunir de discípulos, a mensagem e os milagres, até à prisão e condenação por Caifás (Martin Landau), Herodes Antipas (José Ferrer) e Pilatos (Telly Savalas).

Análise:

Exemplo tardio do género épico de fundo bíblico que marcou as super-produções de Hollywood dos anos 50 e 60 do século XX, “A Maior História de Todos os Tempos” distinguiu-se por ser inteiramente filmado nos Estados Unidos, e não em Itália ou Espanha, como os filmes que o precederam. O filme surgiu depois de uma série de episódios de rádio originarem a obra homónima de Fulton Oursler, de 1949, a qual, por sua vez, despertou o interesse de Darryl F. Zanuck, que comprou os direitos do livro para a sua 20th Century Fox, mas nunca o chegou a filmar. Seria apenas em 1958 que o projecto chegaria ao conhecimento de George Stevens, já um nome pesado de Hollywood, e com capacidade para montar uma produtora para levar o filme a bom porto.

O argumento passou então por muitas mãos e versões, durante dois anos, nos quais Stevens usou como storyboards quadros do pintor André Girard, e se aconselhou com o próprio papa João XXIII. Com a MGM a lançar, em 1961, a sua própria versão da história de Cristo, no filme “Rei dos Reis” (King of Kings), realizado por Nicholas Ray, George Stevens tinha ainda de procurar uma distribuidora, o que conseguiu na United Artists. Decidiu então que o seu filme teria de ser maior e mais imponente que o de Ray, conseguindo que o ultrapassasse em perto de uma hora, com direito a suítes instrumentais a abrir, a meio e no final, da autoria de Alfred Newman.

Talvez inspirado pelo rosto jovem, e olhos azuis, de Jeffrey Hunter, Stevens procurou como protagonista um rosto desconhecido do público, que trouxesse um certo mistério. Encontrou-o no sueco Max von Sydow, então conhecido como intérprete de Ingmar Bergman.

Sendo ou não a maior história de todos os tempos, a história de Jesus Cristo é provavelmente a mais conhecida de todos os tempos. E o filme de Steven só tnha de seguir os seus pontos mais marcantes. Começamos com o nascimento de Jesus e a homenagem dos reis magos, seguida da desconfiança do rei Herodes (Claude Rains, no seu último filme), e chacina dos recém-nascidos. Já adulto, Jesus (Max von Sydow) conhece João Baptista (Charlton Heston) e inicia o seu ministério, depois de, no deserto, ser tentado pelo Diabo (Donald Pleasance). Segue-se o recrutar dos apóstolos, pregações e milagres.

Enquanto isto Herodes Antipas (José Ferrer), preocupado com revoltas populares, ordena a prisão e posterior morte de João Baptista, passando a ter Jesus debaixo de olho. Jesus, por fim, vem a Jerusalém, onde atrai a atenção pela sua insurgência no Templo. É ordenada a sua prisão, com Caifás (Martin Landau) como mandatário. Depois de julgado por blasfémia, Jesus é enviado a Herodes Antipas e ao governador romano Pôncio Pilatos (Telly Savalas), para ratificação da sentença, que será a de crucificação. O filme termina com a ascenção de Jesus aos céus, testemunhada pelos seus apóstolos.

Filmando nos cenários naturais do Arizona, Califórnia e Utah (Grand Canyon, Death Valley, etc.), George Stevens procurou desde logo embelezar a paisagem como um fundo romântico, que desse à fotografia uma qualidade de pintura e ao mesmo tempo uma enorme profundidade e sentido espacial. O resultado foi inteiramente conseguido, e “A Maior História de Todos os Tempos” tem o seu maior mérito na fotografia, e planos encenados em que os personagens se colocam como num quadro renascentista, a que não é alheio o facto de muitos cenários serem pintados. Por outro lado, sente-se por vezes que as cenas têm como única função dar a ver esses “quadros”, tornando-se exercícios fúteis e maçadores. Já menos bem conseguida é a opção de usar um enorme número de actores famosos, alguns em pequenos cameos, destacando-se Sidney Poitier na secção final, ajudando Cristo a transportar, e John Wayne (a solo, num plano que não inclui mais nada do filme), que cita uma linha saída do vazio com a mesma convicção com que olhava uma manada de vacas num dos seus westerns.

O uso de tão vasto elenco, e número de enredos paralelos é uma das pechas do filme, que peca por falta de ritmo, e muitas discussões desinteressantes apenas a procurar dar tempo de ecrã a alguns dos actores, quando, por outro lado, faz curiosas elipses de momentos dramáticos importantes, como é a ressurreição de Lázaro.

Max von Sydow é competente, procurando dar ao seu Jesus um ar etéreo, cândido, e carismático. Mas o argumento não consegue que ele seja mais que enigmático e elusivo, bem distante do mais terra-a-terra Jeffrey Hunter no filme de Nicholas Ray. O resto do elenco não tem como brilhar, e o desfile de estrelas torna-se um pouco uma distracção sem propósito.

Para muitos o filme, apesar de tecnicamente admirável, representou o cumular dos excessos e erros que levaram ao final de uma época, com uma pose (e duração) desmedida, mas sem vida, nem uma mensagem original para transmitir. Acresce a isto a falta de rigor histórico, que atinge o absurdo na ideia de que o povo judeu estaria preocupado com o desrespeito do imperador romano, e quereria crucificar um dos seus só porque sim.

Ainda assim, “A Maior História de Todos os Tempos” foi nomeado para cinco Oscars da Academia, e ganhava um lugar no panteão dos grandes épicos de Hollywood.

Max von Sydow

Produção:

Título original: The Greatest Story Ever Told; Produção: George Stevens Productions; Produtor Executivo: Frank I. Davis; País: EUA; Ano: 1965; Duração: 199 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 9 de Abril de 1965 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: George Stevens, David Lean [não creditado], Jean Negulesco [não creditado]; Produção: George Stevens; Produtores Associados: George Stevens Jr., Antonio Vellani; Argumento: James Lee Barrett, George Stevens, Carl Sandburg [baseado em textos bíblicos, no livro homónimo de Fulton Oursler, e textos de Henry Denker]; Música e Direcção Musical: Alfred Newman; Música Adicional: Hugo Friedhofer, Fred Steiner, Ovadia Tuvia; Orquestração: Leo Shuken, Jack Hayes; Fotografia: William C. Mellor, Loyal Griggs [filmado em Ultra Panavision 70, cor por Technicolor]; Montagem: Harold F. Kress, Argyle Nelson Jr., J. Frank O’Neill; Direcção Artística: Richard Day, William J. Creber, David S. Hall; Cenários: Ray Moyer, Fred M. MacLean, Norman Rockett; Figurinos: Vittorio Nino Novarese, Marjorie Best; Caracterização: Del Armstrong; Efeitos Especiais: Johnny Borgese; Efeitos Visuais: J. McMillan Johnson, Clarence Slifer, A. Arnold Gillespie, Robert R. Hoag; Direcção de Produção: Ridgeway Callow, John Veitch.

Elenco:

Max von Sydow (Jesus Cristo), Michael Anderson Jr. (Tiago Menor), Carroll Baker (Verónica), Ina Balin (Marta de Betânia), Pat Boone (Anjo no Túmulo), Victor Buono (Sorak), Richard Conte (Barrabás), Joanna Dunham (Maria Madalena), José Ferrer (Herodes Antipas), Van Heflin (Bar Amand), Charlton Heston (João Baptista), Martin Landau (Caifás), Angela Lansbury (Cláudia), Janet Margolin (Maria de Betânia), David McCallum (Judas Iscariotes), Roddy McDowall (Mateus), Dorothy McGuire (Virgem Maria), Sal Mineo (Urias), Nehemiah Persoff (Shemiah), Donald Pleasence (Satanás), Sidney Poitier (Simão de Cirene), Claude Rains (Rei Herodes), Gary Raymond (Pedro), Telly Savalas (Pôncio Pilatos), Joseph Schildkraut (Nicodemo), Paul Stewart (Questor), John Wayne (Centurião), Shelley Winters (Mulher Curada), Ed Wynn (Velho Arão).

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