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KvinnodrömSusanne Frank (Eva Dahlbeck), a directora de uma revista de moda de Estocolmo, viaja até Gotemburgo para um trabalho, na esperança de reatar a relação com o seu amante, o casado Henrik Lobelius (Ulf Palme). Com ela viaja Doris (Harriet Andersson), uma das suas modelos, que acabou de terminar com o seu namorado, e vai ser cortejada pelo elegante idoso, o cônsul Otto Sönderby (Gunnar Björnstrand). Estes encontros e seus desfechos vão trazer ambas as mulheres à realidade do que são as suas vidas.

Análise:

Continuando a alternância de produtoras, Ingmar Bergman voltava à Sandrew para mais um filme escrito por si, o drama “Sonhos de Mulheres”, no qual voltava a contar com as suas mais recentes divas, Eva Dahlbeck e Harriet Andersson.

Contado quase como duas histórias que praticamente não se tocam (exceptuando no facto de que as duas protagonistas trabalham juntas) “Sonhos de Mulheres” gira em torno da agência de moda dirigida por Susanne (Eva Dahlbeck), a qual tem de ir a Gotemburgo, para um trabalho, aproveitando o facto para tentar retomar a ligação com o amante casado, Henrik Lobelius (Ulf Palme). Henrik nega-se a princípio, para ceder e encontrar-se com Susanne no hotel desta. Aí, a frieza inicial é vencida, e o par retoma a ligação sexual, e os sonhos de novas escapadas. Só que a esposa de Lobelius (Inga Landgré) surge, e a forma como humilha Susanne perante o olhar do impávido amante, deixa-a convicta de que não quer mais aquela relação.

Com Susanne viaja a sua modelo Doris (Harriet Andersson), uma jovem impulsiva que, para viajar, decidiu acabar a relação com o pressionante namorado Palle (Sven Lindberg). Caminhando por Gotemburgo, Doris conhece o velho cônsul Otto Sönderby (Gunnar Björnstrand), que, por capricho, a trata como uma princesa, comprando-lhe roupas e jóias e levando-a para a sua mansão, onde bebem champanhe e se divertem conversando. A chegada da filha do cônsul (Kerstin Hedeby) é como um balde de água fria, e a forma como esta humilha Doris, crendo-a uma companhia de aluguer, acorda-a para a realidade, deixando o cônsul e todos os pertences comprados, e reunindo-se a Susanne, disposta a reatar com Palle, quando chegar a Estocolmo.

Com “Sonhos de Mulheres”, Ingmar Bergman assume-se cada vez mais como um realizador do sexo feminino, aqui mantendo os homens apenas como objectos narrativos em histórias de mulheres.

Embora se trate de um drama (ou dois, de facto), o filme apresenta sempre alguma leveza, talvez conferida pela realização. Bergman é aqui mais inventivo que nunca. Registe-se o início do filme, com a longa sequência do estúdio de fotografia. É na verdade uma sequência muda, onde os sons são uma espécie de banda sonora, mas todos os comportamentos dispensam palavras. O mesmo acontecerá mais tarde na sequência em que Doris se veste em casa do cônsul, ao som de música jazz.

Por outro lado, é como se o efeito da montagem nunca tivesse sido tão importante em Bergman (fala-se do chamado efeito Kuleshov, que provoca interpretações e contextos apenas pela justaposição de imagens separadas). É o caso da mesma sequência inicial, onde a rapidez de olhares mostra tensão, o tamborilar do homem mostra desejo, os movimentos dos maquilhadores mostram nervosismo, e a pose da modelo mostra intranquilidade. Tal efeito é claro, de novo, na sequência do comboio, com a montagem dar-nos consecutivamente o rosto perturbado de Susanne, o anúncio de perigo de morte em caso de porta aberta, e os sinais nas portas que dizem «fechado» e «abrir», sugerindo a iminência de um suicídio. A montagem e o acompanhamento de detalhes com a câmara, contam em “Sonhos de Mulheres” tanto quanto as palavras ditas.

Do ponto de vista dos temas, temos essencialmente a forma como as mulheres se sentem joguetes dos homens. Susanne, mais velha, presa a uma relação que não lhe pode dar nada (nem o filho que ela deseja), que é uma ilusão para ser vivida às escondidas, mas que não resiste quando a rival (a esposa do amante) coloca tudo a nu. Na sua cobardia masculina, Henrik fica calado, enquanto a esposa mostra a Susanne que ela não pode esperar nada dele. Quando, depois, à distância, ele escreve a Susanne para lhe dizer que, às escondidas, tudo será como antes, ela mostra que aprendeu com a lição. Do outro lado, Doris, mais nova, é levada pelos impulsos, primeiro discutindo com o namorado que a ama, depois deixando-se levar pelo charme de um homem idoso, que lhe dá uma pequena amostra de uma vida diferente. Note-se ainda como ambos os sonhos destas mulheres são quebrados por duas outras mulheres (a esposa de Henrik e a filha do cônsul), num papel onde os homens são completamente anulados.

Pelo meio pode-se notar nova incursão no tema da velhice, do cônsul, que vive só, com a esposa internada, e uma filha que o odeia, dando-se a alguns caprichos que o façam recordar a sua juventude. Mas no final (ainda antes da explícita cena, em que o cônsul cai, por ser idoso), já víramos Bergman ironizar na frase cómica do joalheiro «Seria engraçado se um homem velho corresse tão rápido como uma jovem bonita».

“Sonhos de Mulheres” termina no ponto em que começou, no mesmo local, acção e personagens, num círculo perfeito que nos pode deixar a interrogação se de facto alguma coisa aconteceu. E como não podia deixar de ser, a acção é dominada pelas actrizes, Eva Dahlbeck glacial e terna, Harriet Andersson impulsiva e mimada. Entre elas destaca-se o habitual charme de Gunnar Björnstrand. Excelentes interpretações num filme muito subestimado, mas que, apesar de simples, é mais um bom filme de Bergman.

Gunnar Björnstrand e Harriet Andersson

Produção:

Título original: Kvinnodröm [Título inglês: Dreams]; Produção: Sandrew; País: Suécia; Ano: 1955; Duração: 83 minutos; Distribuição: Sandrew-Baumanfilm AB; Estreia: 22 de Agosto de 1955 (Suécia).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Rune Waldekranz; Argumento: Ingmar Bergman; Fotografia: Hilding Bladh [preto e branco]; Montagem: Carl-Olov Skeppstedt; Design de Produção: Gittan Gustafsson; Caracterização: Sture Höglund.

Elenco:

Eva Dahlbeck (Susanne Frank), Harriet Andersson (Doris), Gunnar Björnstrand (Cônsul Otto Sönderby), Ulf Palme (Mr. Henrik Lobelius), Inga Landgré (Mrs. Lobelius), Benkt-Åke Benktsson (Mr. Magnus), Sven Lindberg (Palle Palt), Kerstin Hedeby [como Kerstin Hedeby-Pawlo) (Marianne).

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