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The Fall of the Roman EmpireCom o imperador Marco Aurélio (Alec Guinness) a sentir avizinhar-se a sua morte, é sua intenção nomear como sucessor o general Lívio (Stephen Boyd), em detrimento do próprio filho Cómodo (Christopher Plummer). Ao descobri-lo, os partidários de Cómodo apressam a morte do imperador, antes que este proclame o sucessor, e Cómodo consegue o apoio público de Lívio, para desgosto da sua irmã Lucilla (Sophia Loren), enamorada de Lívio, mas forçada a casar com o rei arménio Sohamus (Omar Sharif). Na frente germânica, Lívio, com auxílio do filósofo Timónides (James Mason) procura a paz desejada por Marco Aurélio, libertando os germanos e dando-lhes terras. Ao descobrir, Cómodo toma isso como afronta, e ordena a morte dos novos cidadãos, lançando o império numa guerra civil.

Análise:

Por iniciativa da produtora de Samuel Bronston, a Paramount Pictures deu a sua aprovação ao filme “A Queda do Império Romano”, um dos últimos filmes sword and sandal, da sua era áurea (anos 50 e 60). Tratava-se da adaptação, não creditada, ao cinema, do livro homónimo Edward Gibbon, que pretendia ser um estudo político sobre as razões que levaram ao fim do império. Realizado por Anthony Mann, realizador com carreira no western, o filme foi rodado em Espanha.

O filme deveria suceder “El Cid” (1961), também de Bronston, repetindo as presenças de Charlton Heston e Sophia Loren como protagonistas, mas o primeiro acabou por declinar, sendo substituído por Stephen Boyd, com quem contracenara em “Ben-Hur” (1959) de William Wyler. Curiosamente Boyd voltava agora a ter uma competição de quadrigas, aqui menos imponente que a mítica sequência do filme de Wyler.

“A Queda do Império Romano” lida com a política do Império Romano, nesta altura (final do século II), dividida sobre a questão demográfica, com hordas de germanos a pressionar a fronteira do Danúbio, todos os anos. O filme começa em 180, com as campanhas de Marco Aurélio (Alec Guinness). O imperador tem consigo o fiel filósofo grego Timónides (James Mason), e o seu principal general, Caio Lívio (Stephen Boyd), que ele tenciona nomear seu sucessor, em detrimento do filho Cómodo (Christopher Plummer), que ele vê como violento e imaturo. Para isso, Marco Aurélio convoca todos os seus governadores, mas acaba por ser envenenado pelos seguidores de Cómodo, antes de poder fazer o anúncio. Cómodo auto-proclama-se imperador, mas fica desde logo decidido a desfazer a obra do seu pai, a quem não perdoa ter preferido Lívio. Enquanto isso, Lucilla (Sophia Loren), filha de Marco Aurélio, e enamorada de Lívio, é dada em casamento ao rei arménio Sohamus (Omar Sharif).

Caio Lívio continua a lutar no norte e consegue subjugar os inimigos, mas em vez de os matar consegue, com a ajuda de Timónides, convencê-los a aceitar a paz com Roma. Para isso, Lívio e Timónides discursam no senado, contra o imperador, e conseguem que seja aprovada a sua ideia de fazer dos inimigos agricultores pacíficos que defendam a fronteira norte do império.

Quando Lívio é enviado à fronteira Leste, para aplacar uma revolta de alguns governadores, descobre que Lucilla está por trás dela, esperando convencer Lívio a juntar-se-lhe. Mas este é fiel a Roma acima de tudo, e tudo se resolve quando as tropas percebem que Sohamus chamou para o seu lado os persas. Todos se juntam então a Lívio que triunfa, para desagrado de Cómodo, que, por vingança, manda chacinar os povos germanos pacificados.

Lívio e Lucilla entram então em Roma para desafiar Cómodo, que se tenta salvar através de subornos. Mas ao descobrir que ele não é filho de Marco Aurélio, mas sim do gladiador Verulo (Anthony Quayle), agora seu guarda-costas, Cómodo perde a cabeça e desafia Lívio para um combate, sendo morto por ele, no senado.

À luz do livro que lhe deu origem, “A Queda do Império Romano” surpreende pela quantidade de temas que traz a discussão, e que transcendem o simples entretenimento. Logo à cabeça temos um complexo edipiano, presente na relação entre pai (Marco Aurélio) e filho (Cómodo), onde não falta uma mãe, ausente, é certo, mas omnipresente no desenrolar da trama, desde o ódio de Cómodo pelo pai até ao desenlace final. Temos depois a pertinente questão da integração dos germanos, povo que fazia uma pressão demográfica sobre o império. É uma questão universal, onde as cíclicas migrações que foram formando a Europa estão longe de terem terminado. Temos depois a sucessão e corrupção na cabeça do império, na pessoa de Cómodo, um imperador vaidoso e arrogante, sem responsabilidade por aqueles que governa, bem o oposto do que o seu pai fora. Temos finalmente o papel do amor de Lucilla por Lívio, que a torna capaz de trair o próprio império contra o irmão.

Todos estes temas convivem com as batalhas épicas, aventuras, intrigas palacianas e cenários luxuosos. Mas há em “A Queda do Império Romano” algo mais. Uma atmosfera negra, e de maior rigor no que seria a reconstituição de uma era, aqui fugindo a clichés gastos. O acampamento de Marco Aurélio no norte do império, com as suas paisagens nevadas, e camaratas de campanha em madeira primam pelo ambiente que transmitem. Do mesmo modo a reconstituição do Fórum Romano é um feito inigualável pela atenção dada ao detalhe e ao rigor. Consta ser ainda hoje o maior cenário ao ar livre alguma vez construído para cinema.

O elo mais fraco serão talvez as interpretações. Mesmo com Alec Guiness e James Mason irrepreensíveis, Stephen Boyd não é Charlton Heston, e a sua química com uma Sophia Loren demasiado preocupada com a sua dicção é inexistente. Mesmo Christopher Plummer soa a exagerado, não ajudando a trazer subtileza e profundidade a um personagem que ele parece querer apenas tornar mau. Outras opções estranhas foram a quase não utilização de actores como Mel Ferrer e Omar Sharif, que passeiam pelo set quase sem nada para dizer. A título de curiosidade note-se as presenças (aqui também muito apagadas) de Andrew Keir e Finlay Currie, dois veteranos do sword and sandal. Destaque ainda para a presença do português Virgílio Teixeira num curto papel.

Apesar de uma história inteligente, talvez por ser um pouco pretensiosa num género onde se queriam heróis épicos e alguns efeitos especiais memoráveis, “A Queda do Império Romano” foi um completo fracasso de bilheteira. O filme, no entanto, ganhou o Globo de Ouro pela banda sonora de Dimitri Tiomkin, categoria na qual foi também nomeado para os Oscars.

Em 2000, Ridley Scott filmaria “O Gladiador” (Gladiator) protagonizado por Russell Crowe e Joaquin Phoenix, com uma história com muitos pontos em comum com a do filme de Anthony Mann.

The Fall of the Roman Empire

Produção:

Título original: The Fall of the Roman Empire; Produção: Samuel Bronston Productions; Produtor Executivo Associado: Michael Waszynski; País: EUA; Ano: 1964; Duração: 173 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 24 de Março de 1964 (Reino Unido), 15 de Setembro de 1964 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Anthony Mann; Produção: Samuel Bronston; Produtor Associado: Jaime Prades; Argumento: Ben Barzman, Basilio Franchina, Philip Yordan [baseado no livro “The History of the Decline and Fall of the Roman Empire” de Edward Gibbon]; Música: Dimitri Tiomkin; Fotografia: Robert Krasker [filmado em Ultra Panavision 70, cor por Technicolor]; Montagem: Robert Lawrence; Design de Produção: Veniero Colasanti, John Moore; Cenários: Veniero Colasanti, John Moore; Figurinos: Veniero Colasanti, John Moore; Caracterização: Mario Van Riel; Efeitos Especiais: Alex Weldon; Pinturas e Murais: Maciek Piotrowski.

Elenco:

Sophia Loren (Lucilla), Stephen Boyd (Lívio), Alec Guinness (Marco Aurélio), James Mason (Timónides), Christopher Plummer (Cómodo), Anthony Quayle (Verulo), John Ireland (Ballomar), Omar Sharif (Sohamus), Mel Ferrer (Cleander), Eric Porter (Juliano), Finlay Currie (Senador), Andrew Keir (Políbio), Douglas Wilmer (Niger), George Murcell (Vitorino), Norman Wooland (Virgiliano), Michael Gwynn (Cornélio), Virgilio Teixeira (Marcelo), Peter Damon (Cláudio), Rafael Calvo (Lentulo), Lena von von Martens (Helva).

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