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ShìjièNo World Park de Pequim (que reúne simulacros de algumas das mais famosas construções humanas) move-se um conjunto de jovens, da chamada «geração flutuante», que migraram para a grande cidade, onde sonham com um mundo maior, e tentam construir uma vida. Entre eles estão Tao (Zhao Tao), uma bailarina do grupo de danças tradicionais que actua no parque, e Taisheng (Chen Taisheng), guarda do mesmo parque, e namorado dela. Entre tensões e promessas de amor, o par vai conhecendo as agruras que lhes são trazidas pelo mundo moderno e as suas solicitações.

Análise:

Depois de “Unknown Pleasures” (Ren xiao yao, 2002), o último dos filmes realizados e tendo como tema a sua natal Fenyang, na província de Shanxi, Jia Zhangke, numa tentativa de tornar o seu trabalho mais conhecido pelas autoridades do seu país, filmou “O Mundo” nos arredores de Pequim. Para tal contou com a colaboração da produtora japonesa Xstream Pictures, da francesa Lumen Films, para além do apoio financeiro de diversas outras entidades.

O título do filme advém do World Park em Pequim, um parque que ostenta, a pequena escala, cópias de algumas das mais vistosas construções humanas (Torre Eiffel, Notre Dame, Arco do Triunfo, Pirâmides do Egipto, Torre de Pisa, Estátua da Liberdade, Big Ben, Manhattan, etc.). O parque torna-se alegoria para a grandeza do mundo a que os personagens são expostos, eles que têm ainda muito de provinciano, a maioria dos quais, provenientes da inevitável Shanxi.

O filme acompanha personagens ligados a esse parque, como Tao (Zhao Tao), uma bailarina do grupo de danças tradicionais que actua no parque, e Taisheng (Chen Taisheng), guarda do mesmo parque, e namorado de Tao. A nível narrativo o filme centra-se nas relações de desconfiança, ciúme e possessão de alguns pares de namorados. Exemplo são Tao e Taisheng, com ele a ficar com ciúmes, com a passagem de um antigo namorado de Tao, em resposta Taisheng torna-se mais pressionante para que Tao se lhe dê sexualmente.

Outro exemplo são Wei (Jing Jue) e Niu (Jiang Zhong-wei), par que passa o tempo a discutir devido aos ciúmes de Niu. Ao mesmo tempo, Tao torna-se amiga de Anna (Alla Shcherbakova), bailarina de um grupo russo, que mais tarde decide dedicar-se à prostituição. Esse revés, e um acidente com um amigo de Taisheng, levam a que as defesas baixem, e eles se envolvam sexualmente. Mas sem que Tao saiba, há algum tempo que Taisheng tentava conquistar Qun (Huang Yiqun), uma modista do parque, cujo marido viajou para França há oito anos. Quando Tao intercepta algumas mensagens no telemóvel de Taisheng, acredita que ele a traiu. Taisheng por fim consegue que ela o receba, mas nessa noite, são vítimas de uma fuga de gás, sendo encontrados quase mortos lado a lado.

A nível mais simbólico, “O Mundo” é mais um ensaio de Jia Zhangke sobre a abertura da China ao mundo, aqui representado alegoricamente como o World Park. Nesta nova realidade os mais jovens (e são sempre eles nos filmes de Jia Zhangke) deparam com novas solicitações. Viajar, conhecer o mundo, ver os amigos e familiares dispersar-se, acolher influências externas, e crescer numa nova realidade de laços familiares e amorosos.

Tudo isso está presente nos vários personagens, quer nas relações atrás descritas, quer na migração para a grande cidade, e laços familiares longínquos (a irmã de Anna, o marido de Qun). É uma realidade desapegada da tradição, onde o amor e a relação amorosa se reinventa (note-se a tranquilidade com que Qun falava de um marido ausente há tantos anos), numa luta entre tradição e modernidade.

Como sempre, Jia Zhangke prefere o enquadramento geral, com os seus longos planos-sequência que quase evitam o olhar dos personagens, que por vezes parecem apenas detalhes. A paisagem torna-se assim dominante, com o World Park a sugerir proximidade e afastamento, entre a cultura chinesa e o mundo. Proximidade pela sua presença na paisagem e nos sonhos dos personagens, afastamento por ser falso, servindo para realçar que aquelas pessoas nunca terão outra oportunidade de conhecer o mundo, que não aquela oportunidade falsa.

Mais uma vez a tradição chega nas representações, como fora feito em “Plataforma” (Zhàntái, 2000), a qual se torna mecânica, como se nota no modo desapaixonado como se comportam os intervenientes durante as preparações (note-se a sequência inicial, onde a procura por um penso impõe-se, mundana, sobre o acto quase sacro de preparar a entrada em palco. Também a música (antes apenas diegética) e a cor (mais garrida que anteriormente, em fotografia digital e CinemaScope) representam papéis fulcrais no definir de estados de espírito.

Com seu habitual olhar frio Jia Zhangke volta a seguir a lição de Ozu, desdramatizando as suas cenas, não mostrando os momentos mais importantes, preferindo deixar os personagens lidar posteriormente com eles, e a nós, compreendermos o que se passa, pela reacção dos personagens. O contraste vem de pequenos momentos de fantasia, em animação, que ilustram um estado de espírito sempre que um telemóvel é usado. No final, em vez de terminar com um momento chocante que a linha narrativa, Jia Zhangke troca-o por um final em aberto, ou como diz Tao «não é a morte, é apenas o princípio».

Apesar do retrato frio e desapaixonado da China actual, o filme foi bem recebido no seu país, sendo o primeiro filme de Jia Zhangke a receber o selo de aprovação das autoridades chinesas. Teve a sua estreia em Veneza, e, como vinha sendo hábito, fez o circuito de festivais. “O Mundo” era então apresentado numa versão que ultrapassava os 140 minutos, a qual foi posteriormente editada para cerca de 105 minutos para passar ao circuito comercial.

Zhao Tao

Produção:

Título original: Shìjiè /世界; Produção: Office Kitano / Lumen Films / X Stream Pictures / Bandai Visual Company / Shanghai Film Group / Xinghui Production, Hong Kong; Produtor Executivo: Masayuki Mori; País: China / Japão / França; Ano: 2004; Duração: 103 minutos; Distribuição: Ad Vitam Distribution (França), Bitters End (Japão), Celluloid Dreams; Estreia: 4 de Setembro de 2004 (Festival de Veneza, Itália), 15 de Abril de 2005 (China), 9 de Março de 2006 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jia Zhangke; Produção: Chow Keung, Shôzô Ichiyama, Hengameh Panahi, Zhong-lun Ren, Takio Yoshida; Produtores Associados: Nelson Lik-wai Yu; Argumento: Tao Zhao, Taishen Cheng, Jue Jing; Música: Lim Giong; Fotografia: Yu Lik-wai; Montagem: Kong Jinlei; Design de Produção: Li-zhong Wu; Direcção de Produção: Tianyan Wang.

Elenco:

Zhao Tao (Tao), Cheng Taisheng (Taisheng), Jing Jue (Wei), Jiang Zhong-wei (Niu), Huang Yiqun (Qun), Hongwei Wang (Sanlai), Jing Dong Liang (Ex-namorado de Tao), Ji Shuai (Erxiao), Wan Xiang (Youyou), Alla Shcherbakova (Anna), Han Sanming (Sanming).

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