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ZhàntáiNa pequena Fenyang, da província de Shanxi, Cui Minliang (Hongwei Wang) e Zhang Jun (Jing Dong Liang) são dois rapazes curiosos com a globalização e a entrada das influências ocidentais na China de Deng-Xiao Ping. Por isso têm cabelos compridos, calças boca-de-sino, fumam, e ouvem música pop que vem de fora. Com as amigas Yin Ruijuan (Tao Zhao) e Zhong Ping (Tian-yi Yang), integram uma troupe de música e dança cultural, patrocinada pelo Estado, que vai em digressão por vários pontos do país como um veículo de propaganda dos valores do comunismo. Mas os tempos vão mudando, os amigos crescem, e a mensagem musical muda também, com a chegada da música rock.

Análise:

Continuando a filmar na sua natal Fenyang, sobre a própria Fenyang, e com produção do habitual Kit Ming Li, Jia Zhangke conseguia em “Plataforma” reunir apoios internacionais para um filme que seria, esperado nos festivais europeus, onde receberia várias menções honrosas e o favor da crítica que o descreveria como uma das novas maravilhas do cinema oriental.

O tema era recorrente em Jia Zhangke: as transformações da sociedade chinesa, da década de 1980, vistas pelos olhos dos jovens (afinal a geração do próprio realizador). O filme segue um pequeno grupo de personagens, que têm em comum pertencerem a uma troupe cultural que canta e dança temas tradicionais, sob supervisão estatal, levados em digressão a vários pontos do país. Eles centram-se em torno de Cui Minliang (Hongwei Wang), rapaz um pouco alienado, sem grande interesse por nada, e que por isso entra constantemente em choque com os mais velhos, e inclui os amigos Yin Ruijuan (Tao Zhao), Zhang Jun (Jing Dong Liang) e Zhong Ping (Tian-yi Yang).

Os amigos têm como principal tema de conversa as influências que conseguem captar do estrangeiro, nomeadamente no campo da música, e da moda (episódio das permanentes no cabelo das raparigas e das calças à boca-de-sino, dos rapazes). Entre isso falam de namoros, com Minliang a tentar namorar Ruijuan, e Jun a manter uma relação com Ping, que resulta na gravidez (e posterior aborto) desta, que após o incidente deixa Fenyang, para nunca mais ser vista.

A troupe continua em digressão, deixando Ruijuan para trás, que se torna cobradora de impostos, ao mesmo tempo que vai vendo o seu reportório mudando, cada vez com menos temas tradicionais, e mais versões rock de músicas ocidentais.

Com um olhar quase desprovido de emoção, Jia Zhangke deixa a sua câmara rolar, de um modo quase documental, em planos gerais (quase tudo se passa à distância do nosso olhar, quase sem close-ups, quase sem podermos ver em detalhe os rostos dos protagonistas), fixos e longos. Um pouco como Ozu, Jia Zhangke não se preocupa tanto em mostrar incidentes decisivos, mas sim em dar-nos aqueles em que nada acontece, e em que os personagens se limitam a lidar com informação que não foi transformada em episódios dramáticos aos nossos olhos.

É o atravessar dos anos 80, anos de abertura, sob a direcção de Deng-Xiao Ping, nos quais se abandona o comunismo fechado de Mao-Tsé Tung, para a experiência que foi a introdução de um capitalismo controlado, com a entrada da iniciativa privada. Por isso se vê a chegada da influência Ocidental, numa geração ávida de ser diferente e de consumir (note-se como fumar e ouvir música parecem ser as suas únicas ocupações), que Jia Zhangke mostra como alienada da sua realidade e tradição, mas perdida num limbo em que não compreende aquilo que chega de fora, imitando apenas mecanicamente, por querer ser moderna.

Essa alienação chega-nos tanto pelo expor dos temas, onde se salta de referência em referência sem uma lógica aparente, como pelo modo semi-ausente como cada personagem se envolve, num quase niilismo geracional, que leva ao total afastamento uns dos outros, como consequência desse caminhar para a sociedade moderna. Tal é o efeito dado pela câmara observadora, mas afastada, de Jia Zhangke, que pontua sem comentar, e que mostra sem julgar. Esse efeito é apenas ampliado pela filmagem da própria Fenyang, uma cidade pequena, sem atracções, feita de muito entulho e prédios em decadência, que se misturam com muralhas de tempos gloriosos, sendo esse cenário natural uma boa representação dos tempos que são de mudança, e sem destino aparente.

“Plataforma” teve estreia mundial no Festival Internacional de Veneza, sendo mais um passo para a afirmação de Jia Zhangke como figura de proa do novo cinema chinês.

Zhàntái

Produção:

Título original: Zhàntái / 站台; Produção: Artcam International / Bandai Entertainment Inc. / Hu Tong Communications / Office Kitano / T-Mark; Produtores Executivos: Masayuki Mori; País: Hong Kong / China / Japão / França; Ano: 2000; Duração: 148 minutos; Distribuição: Ad Vitam Distribution (França) / Artificial Eye (Reino Unido) / Contact Film Cinematheek (Holanda) / Empire Pictures Inc. (EUA); Estreia: 4 de Setembro de 2000 (Venice Film Festival, Itália), 22 de Março de 2002 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jia Zhangke; Produção: Kit Ming Li, Shôzô Ichiyama; Co-Produção: Joël Farges, Juliette Grandmont, Elise Jalladeau; Produtores Associados: Keung Chow, Nelson Lik-wai Yu; Argumento: Jia Zhangke; Música: Yoshihiro Hanno; Fotografia: Nelson Lik-wai Yu; Montagem: Jinlei Kong; Direcção Artística: Sheng Qiu; Figurinos: Lei Qi, Xiafei Zhao.

Elenco:

Hongwei Wang (Cui Minliang), Tao Zhao (Ruijuan), Jing Dong Liang (Chang Jun), Tian-yi Yang (Zhong Pin), Bo Wang (Yao Eryong), Sanming Han (Sanming).

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