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King of Kings“Rei dos Reis” traz-nos a história da vida de Jesus Cristo (interpretado pelo jovem Jeffrey Hunter) desde o seu nascimento. Nele vemos momentos icónicos como o encontro com João Baptista (Robert Ryan), que marca o início do seu ministério, o jejum no deserto, o reunir de discípulos, a humanidade da sua mensagem, os milagres, a sua prisão e condenação. Pelo meio testemunhamos ainda o destino de João Baptista às mãos de Salomé (Brigid Bazlen), e vemos a revolta judia, organizada por Barrabás (Harry Guardino) e o seu braço direito, Judas Iscariotes (Rip Torn).

Análise:

Depois do seu estrondoso sucesso “Ben-Hur” (1959), realizado por William Wyler, a MGM, desta vez através da produtora Samuel Bronston Productions, voltava a apostar no grande épico de temática bíblica, procurando repetir o êxito. Era a vez de mergulhar directamente naquilo que o filme anterior apenas aflorara, a história de Cristo, aqui num remake do filme com o mesmo nome, realizado em 1927 por Cecil B. DeMille. Para o realizar foi escolhido Nicholas Ray, um homem cuja sensibilidade humana o tornara especialista nalguns dos dramas psicológicos mais conhecidos das décadas anteriores, desde o seu filme de estreia, “Filhos da Noite” (They Live by Night, 1941), passando pelo famoso “Johnny Guitar” (1954), até ao segundo filme de James Dean, “Fúria de Viver” (Rebel Without a Cause, 1955).

Filmado integralmente em Espanha, e com muitos actores espanhóis nos papéis secundários, com este país a começar a substituir (ou a complementar) aquele que fora o papel da Itália na década anterior, Ray tem entre mãos um projecto muito mais ambicioso que aquilo a que estava habituado, tendo que conjugar a densidade psicológica das suas personagens, com a espectacularidade pretendida pela produtora, que lhe dava um filme no formato Super Technirama 70, fotografia com cor Technicolor e duração de quase três horas. Segundo o próprio, este era um filme que ele não queria fazer, mas que aceitava apenas pelo chorudo salário que lhe permitiria depois independência criativa. Ironicamente, Ray só realizaria mais uma longa-metragem depois de “Rei dos Reis”.

O resultado é uma história que mescla diversos momentos, sem ter em conta o rigor, mas sim criar pontos de tensão, que ultrapassam a mensagem religiosa. Temos essencialmente a história de Jesus Cristo (Jeffrey Hunter), do seu nascimento até à crucificação e ressurreição, mas também a história de João Baptista, com o macabro da sua morte.

Com um diferente conjunto de enredos, começamos por testemunhar a tomada de Jerusalém por Pompeu (Conrado San Martín) e o primeiro confronto espiritual entre Roma e o povo judeu. Segue-se o nascimento de Jesus, e o massacre dos inocentes por Herodes, o Grande (Grégoire Aslan), que leva à ideia de uma maldição, resultando na morte de Herodes pelo próprio filho, Herodes Antipas (Frank Thring), que toma o trono. Anos mais tarde Jesus é um carpinteiro que trabalha com os seus pais, numa altura em que Roma envia para Jerusalém um novo governador, Pôncio Pilatos (Hurd Hatfield). Ao mesmo tempo a revolta dos judeus organiza-se sob Barrabás (Harry Guardino), e o seu braço direito, Judas Iscariotes (Rip Torn), revoltas essas que levarão à prisão de Barrabás.

Jesus (Jeffrey Hunter) inicia o seu ministério, após ser baptizado por João Baptista (Robert Ryan), o qual é temido em Jerusalém. Após um confronto às portas do palácio, João acaba preso, mas Herodes, temendo a maldição caída sobre seu pai, nega-se a executá-lo, o que acontece apenas por intervenção da sua filha Salomé (Brigid Bazlen). No deserto Jesus jejua e resiste às tentações do demónio, para voltar aos seus discípulos convicto do seu caminho. Este passa pelas várias passagens bíblicas de encontros e milagres, culminando no sermão do monte dos olivais, e entrada triunfal em Jerusalém, onde acaba traído por Judas, que quer apenas incitar à revolta. Condenado por romanos e judeus, Jesus acaba crucificado, regressando aos seus discípulos, salvo da morte, ao terceiro dia.

Com o jovem, e relativamente desconhecido, Jeffrey Hunter, no papel principal, Ray consegue um Jesus carismático, e cativante. Todo o elenco se revela profissional, mesmo que nalguns casos seja surpreendente a sua escolha (como Robert Ryan como João Baptista). Nitidamente Ray caminha sempre um trajecto delicado entre a necessidade de dar densidade aos seus protagonistas, sem esquecer que está a fazer um espectáculo para milhões, que querem (re)ver passagens fundamentais e suas conhecidas. Destacam-se sequências cuidadas e bem filmadas como a dança de Salomé, o muito bem coreografado sermão da montanha, e a quase épica subida ao calvário.

Assim, algumas linhas narrativas são criadas e cruzadas a gosto do drama (o assassinato de Herodes o Grande, as intrigas palacianas com judeus e romanos, etc.). Ao contrário do filme de 1927, de Cecil B. DeMille, o filme de Nicholas Ray prefere comentar a situação política em Israel, tanto mostrando a conquista romana, com vários momentos de decisão nas cortes (que aqui são de conluio entre a de Herodes e os romanos), como ao mostrar a comparação entre os modos violentos da revolta de Barrabás (no filme elevado de simples ladrão, a importante líder político) e os pacíficos de Jesus.

Com tudo isto, Ray cria um filme que, ainda que nem sempre obedecendo em rigor aos contos bíblicos, se torna um entretenimento que é por vezes empolgante, noutras desiquilibrado, mercê de uma realização pouco apaixonada, mas que não se deslumbra apenas com os meios (técnicos, e de milhares de figurantes), mantendo sempre a narrativa na esfera do confronto de ideias e conflito de personalidades.

O aspecto juvenil de Jeffrey Hunter (que na realidade tinha 33 anos a idade de Jesus, quando crucificado) levou os críticos a apelidarem o filme sarcasticamente como “I Was a Teenage Jesus”. Tal contribuiu para a reputação de que “Rei dos Reis” era algo imaturo, o que prejudicou a sua recepção junto do público. Só com o passar dos anos a imagem do filme de Ray foi sendo reabilitada. Ficava ainda a novidade de se representar a figura de Jesus Cristo sem subterfúgios (até aí o habitual era o filme tocar de leve a história de Cristo, com planos que o mostravam ao longe, ou de costas, ou apenas as mãos). Como consequência novos filmes sobre Jesus estavam para surgir, começando por “A Maior História de Todos os Tempos” (The Greatest Story Ever Told, 1965) de George Stevens.

Jeffrey Hunter

Produção:

Título original: King of Kings; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Samuel Bronston Productions [não creditada]; País: EUA; Ano: 1961; Duração: 167 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 11 de Outubro de 1961 (EUA), 19 de Dezembro de 1961 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Nicholas Ray; Produção: Samuel Bronston; Produtores Associados: Alan Brown, Jaime Prades; Argumento: Philip Yordan, Ray Bradbury (narração) [não creditado]; Música: Miklós Rózsa; Fotografia: Franz Planer, Milton R. Krasner, Manuel Berenguer [filmado em Super Technirama 70mm, cor por Technicolor]; Montagem: Harold F. Kress, Renée Lichtig [não creditado]; Cenários: Enrique Alarcón; Figurinos: Georges Wakhévitch; Caracterização: Mario Van Riel, Charles E. Parker; Efeitos Especiais: Alex Weldon; Efeitos Visuais: Lee LeBlanc; Coreografia: Betty Utey; Direcção de Produção: Stanley Goldsmith.

Elenco:

Jeffrey Hunter (Jesus), Siobhan McKenna (Maria), Hurd Hatfield (Pôncio Pilatos), Ron Randell (Lucius), Viveca Lindfors (Claudia), Rita Gam (Herodias), Carmen Sevilla (Maria Madalena), Brigid Bazlen (Salomé), Harry Guardino (Barrabás), Rip Torn (Judas), Frank Thring (Herodes Antipas), Guy Rolfe (Caifás), Royal Dano (Pedro), Robert Ryan (João Baptista), Edric Connor (Baltazar), Maurice Marsac (Nicodemus), Grégoire Aslan (Herodes, o Grande), George Coulouris (Condutor de Camelos), Conrado San Martín (General Pompeu), Gérard Tichy (José), Antonio Mayans (Jovem João), Luis Prendes (Ladrão Bom), José Nieto (Gaspar), Rubén Rojo (Mateus), Fernando Sancho (Louco), Michael Wager (Tomé), Félix de Pomés (José de Arimateia), Adriano Rimoldi (Belchior), Barry Keegan (Ladrão Mau), Rafael Luis Calvo (Simão de Cirene), Tino Barrero (André), Paco Morán (Cego) (as Francisco Moran), Orson Welles (Narrador (voz)) [não creditado].