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Esther and the KingApós mais uma vitória, Assuero (Richard Egan), rei dos medos e persas, ao voltar à sua capital, depara com os modos impróprios da rainha, ordenando a sua morte. Para a substituir, são trazidas donzelas de todo o reino, incluindo a judia Ester (Joan Collins) que estava noiva de Simão (Rik Battaglia), soldado e amigo do rei. Sob o conselho de Mordecai (Denis O’Dea), também ele judeu, conselheiro do rei, e tio de Ester, esta aceita ficar, pelo seu povo, e consegue ser a escolhida de Assuero. Só que, insatisfeito, está Haman (Sergio Fantoni), o malvado primeiro-ministro, cuja ambição o leva a planear matar o rei, culpando os judeus de traição contra o reino.

Análise:

Com a produção de “Ester e o Rei”, em 1960, a Twentieth Century-Fox mostrava o que seria o caminho a seguir pelas majors norte-americanas, com filmes comissionados a produtoras italianas, e cada vez mais o recurso a pessoal criativo deste país, no comando do projecto. É assim que surge (para lá de um elenco muito italianizado), Mario Bava como director de fotografia, tendo mesmo dado uma mãozinha na realização, para além de compositores, director artístico também italianos.

Foi também o antepenúltimo filme da longa carreira da lenda Raoul Walsh, um realizador que começara no mudo, e atravessou toda a época dourada de Hollywood ajudando a definir todos os grandes géneros, da aventura à guerra, do noir ao western, da comédia ao filme de gangsters.

Filmado inteiramente em Itália, com a grandiosidade do Cinemascope, e em cor Technicolor, Walsh tenta recriar a fama dos melhores épicos históricos de temática bíblica dos anos anteriores, num filme que é mais um exemplo da afirmação propagandística do recém-criado Estado de Israel, que sentia uma necessidade de se justificar perante a opinião pública, algo fácil de fazer através do cinema, e de uma indústria que fora, afinal, criada por judeus.

É assim que surge uma história adaptada do Livro de Ester, do Antigo Testamento, que nos fala de uma humilde judia que se viria a tornar rainha da Pérsia, salvando o seu povo do extermínio. No filme ela é interpretada por Joan Collins, noiva prometida do soldado Simão (Rik Battaglia), fiel amigo do rei Assuero (Richard Egan). Só que quando o rei dá ordem para que lhe sejam trazidas (segundo a tradição) as mais belas virgens do reino, para que escolha nova esposa, Ester é raptada pelos soldados, enfurecendo Simão. Sob os conselhos de Mordecai (Denis O’Dea), também ele judeu, conselheiro do rei, e tio de Ester, esta consegue tornar-se a nova rainha, influenciando Assuero para gestos de paz, e conciliação com o seu povo.

Mas resta ainda Haman (Sergio Fantoni), o ambicioso e manipulador primeiro-ministro de Assuero, que cogemina para usurpar o trono. Para isso, começa por implicar Mordecai e os judeus no roubo de planos de guerra, para depois atentar contra a vida do próprio rei. Para salvar o dia, surge Simão, que perdoa e ajuda a salvar Assuero, e chega à capital a tempo de armar o seu povo para escapar ao massacre preparado por Haman.

Cheio de incongruências e anacronismos, “Ester e o Rei” é nitidamente um filme que escapa em muito ao rigor artístico de Raoul Walsh. É clara a intenção de propaganda na qual se grita a independência de Israel, e se proclama abertamente que todo o objectivo é a liberdade do povo judeu, tantas vezes perseguido e desbaratado. Na tentativa de modernizar o discurso, há até referências anacrónicas a Satanás.

O filme baseia-se num mito judaico que coloca Ester como rainha persa, esposa de um rei de nome Assuero, que tem sido identificado como o rei Xerxes I (519 a.C. – 465 a.C.), grande adversário dos gregos nas chamadas Guerras Médicas, e que o filme coloca, erradamente, preocupado com Alexandre, o Grande, que só viveria mais de 100 anos depois. Segundo esse mito, só presente nas fontes judaicas, Ester seduziria o rei, levando-o a poupar os judeus de um massacre, no que se tornaria no calendário religioso judaico, como o Festival de Purim.

Justificações religiosas à parte, “Ester e o Rei” conta-nos uma história de aventura, traição, ambição, golpes palacianos, e um amor no qual o elemento feminino desempenha o pólo decisivo. Ester foi apaixonada de Simão desde a infância, e prepara-se para casar com ele, mesmo confessando que, ao nunca ter olhado para outro homem, não saber se esse amor resistiria caso fosse testado. O teste chega na figura do rei, que inicialmente Ester vê como um tirano, para logo se apaixonar pela sua bondade e carisma. É uma mudança atípica no cinema clássico, deixando a história com um problema, o que fazer com Simão, afinal um homem bom. A resposta vem na parte final, quando ele perdoa o seu rei, que reconhece não ter tido culpa, e ainda lhe assegura que Ester cresceu e já não ama o namorado de infância. Como prémio, Simão merecerá morrer mártir, salvando o seu povo, e deixando espaço para Ester e Assuero.

Tal não impede que o argumento pareça por vezes demasiado pueril, com justificações pouco credíveis, onde todos parecem pouco mais que crianças titubeando à procura de um caminho. Tudo isso acaba ofuscado pela mensagem, e sobretudo pelos valores de produção, que, mesmo que menos exuberante que noutros filmes (grande parte do filme é rodada em interiores, as vistas exteriores do palácio apresentam sempre a mesma fachada, e as cenas de batalha, reduzem-se a poucos soldados em sequências monótonas), é ainda assim espectacular.

Também a nível da interpretação, “Ester e o Rei” peca por um conjunto de actores sem carisma, e nalguns casos numa língua que não é a sua. O filme acaba, por isso, por ser um exemplo do declínio de um género que se ia agora amalgamar, na sua vertente italiana, nos filmes de aventuras fantásticas, que ficariam conhecidos como «peplum», e onde o citado Mario Bava teria uma importante palavra a dizer.

picsworRichard Egan e Joan Collins

Produção:

Título original: Esther and the King; Produção: Galatea Film / Titanus / Twentieth Century-Fox Film Corporation; País: Itália / EUA; Ano: 1960; Duração: 109 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: 14 de Dezembro de 1960 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Raoul Walsh, Mario Bava; Produção: Raoul Walsh; Produtor Associado: John Twist; Argumento: Raoul Walsh, Michael Elkins; Música: Angelo Francesco Lavagnino, Roberto Nicolosi; Fotografia: Mario Bava [filmado em CinemaScope, cor por Technicolor]; Montagem: Jerry Webb; Direcção Artística: Giorgio Giovannini; Guarda-roupa: Anna Maria Feo; Caracterização: Euclide Santoli; Direcção de Produção: Mike Holden.

Elenco:

Joan Collins (Esther), Richard Egan (Rei Assuero), Denis O’Dea (Mordecai), Sergio Fantoni (Haman), Rik Battaglia (Simão), Renato Baldini (Klydrathes), Gabriele Tinti (Samual), Rosalba Neri (Keresh), Robert Buchanan (Hegai), Daniela Rocca (Rainha Vashti), Folco Lulli (Tobiah), Italo Tancredi (Gisco) [não creditado].