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SpartacusRetirado das minas, e vendido como gladiador a Lentulus Batiatus (Peter Ustinov), o escravo Spartacus (Kirk Douglas) é treinado para lutar na arena. Na escola apaixona-se por outra escrava, Varinia (Jean Simmons), e conduz uma revolta após a presença do famoso Marco Licínio Crasso (Laurence Olivier) ter originado combates até à morte entre companheiros na escola. Livre, Spartacus constrói um exército de escravos que tentam deixar a Itália, enquanto Crasso manipula no Senado contra o seu rival Graco (Charles Laughton), para obter o comando das legiões romanas na perseguição aos escravos.

Análise:

Continuando a exploração do filão dos épicos históricos passados na antiguidade, “Spartacus” foi um projecto de Kirk Douglas, agora produtor, além de protagonista, produzido pela sua companhia Bryna Productions, filmado em Espanha, e distribuído pela Universal. Segundo a lenda a ideia terá surgido da raiva de Douglas ao ser rejeitado para o papel de Ben-Hur, no filme de William Wyler. A produção iniciou-se com Anthony Mann ao leme (as cenas iniciais do filme – a sequência das minas – serão dele, mas não creditadas), que foi despedido logo uma semana depois, para ser substituído por Stanley Kubrick, um amigo de Douglas, com quem ele já trabalhara em “Horizontes de Glória” (Paths of Glory, 1957).

“Spartacus” seria a quinta longa-metragem de Kubrick, um realizador que se tornaria revolucionário em Hollywood, pelo seu olhar original, soluções técnicas inovadoras e uma irreverência na quebra de convenções que o tornariam uma das vozes artísticas mais influentes do cinema moderno. Mas em 1960, completando os anos formativos da sua carreira, depois de filmes muito apreciados, mas ainda dentro de um formalismo clássico, como o citado “Horizontes de Glória” e o Noir “Um Roubo no Hipódromo” (The Killing, 1956), Kubrick teve em “Spartacus” o único filme em que não teria completo controlo criativo. Isso percebe-se ao ver que se trata de um filme de produtor, mais que de realizador, que segue as convenções do género de um modo não muito original.

A partir de um livro de Howard Fast, o argumentista Donald Trumbo, um dos nomes da Lista Negra das actividades anti-americanas, nos anos da caça às bruxas pelo medo do comunismo, viu na história do escravo que morre pela sua liberdade, um pouco da sua história. Spartacus é o nome do escravo romano século I a. C. que um dia não só se rebelou, como conseguiu reunir um exército de escravos (grande parte gladiadores como ele próprio), que durante algum tempo conseguiu derrotar as tropas romanas levando o medo à própria Roma.

O filme acompanha a ascensão e queda de Spartacus (Kirk Douglas), desde que é comprado por Lentulus Batiatus (Peter Ustinov), que o retira das minas para o treinar na sua escola de gladiadores. Aí, Spartacus apaixona-se pela escrava Varinia (Jean Simmons), e o seu treino decorre normalmente. A paz é temporária, até à chegada de Marco Licínio Crasso (Laurence Olivier) e seu séquito, que exigem ver os gladiadores lutar até à morte. O mau ambiente gerado na escola leva à revolta liderada por Spartacus, que depois da escola de Batiatus, continua a libertar escravos e a fazer o seu exército crescer. Após várias derrotas, Roma nomeia Crasso cônsul, apesar dos esforços do seu rival Graco (Charles Laughton), e este leva as suas legiões para defrontar Spartacus, o qual é traído pelos piratas que lhe prometem navios (representados pelo personagem de Herbert Lom). O resultado é uma batalha total, onde Crasso vence Spartacus e o crucifica.

Com uma super-produção de paisagens avassaladoras (com filmagens em Espanha), milhares de figurantes, figurinos elaborados e um elenco rico em estrelas, Kubrick conta uma história de luta pela liberdade, mesmo quando a própria vida está em risco. É uma história de dignidade humana contra a prepotência dos Estados, que é de certo modo um produto da sua época (os anos 60), onde é a visão do século XX que molda as ideias. Por exemplo o filme inicia-se com uma narração em off que destaca Roma como centro de um mal que tem por única missão dar lugar ao Cristianismo, e Spartacus é declarado o percursor da liberdade dos povos, numa época em que os conflitos raciais nos Estados Unidos eram um tópico de primeira página. Também por essa visão ao gosto dos anos 60, a relação de Spartacus e Varinia parte do respeito mútuo, e de um amor nascido da castidade, valores prezados pela Hollywood do meio do século. Finalmente a cena em que todos os escravos defendem o líder, gritando “I’m Spartacus”, quando Crassus o tenta encontrar, tornou-se icónica, um símbolo da resistência anti-macCarthysta, e um momento muitas vezes imitado e parodiado noutros filmes.

Não se negando a capacidade técnica de Kubrick de fazer um épico emocionante, principalmente notando a qualidade estética de alguns planos, como as batalhas finais, onde poderíamos estar em presença de pinturas clássicas, nota-se no entanto um aprisionamento a convenções, para contar uma história que acaba por ser pouco original.

Para além da relação amorosa (cândida e inocente) entre Spartacus e Varinia, o filme apresenta-nos as rivalidades políticas entre Crasso e Graco (que curiosamente morreu 50 anos antes destes eventos) dando espaço a Laurence Olivier (que interpreta um ambíguo patrício romano, capaz até de tentar seduzir um escravo, interpretado por Tony Curtis) e a Charles Laughton, personificação do maquiavelismo político. Mais que Douglas e Simmons (muito menos um Tony Curtis que é um perfeito erro de casting), são Olivier e Laughton quem trazem vida à história, bem acompanhados por Peter Ustinov, desempenhando um brilhante Batiatus, numa prestação que lhe valeria um Oscar.

Perfeitamente previsível, a história tropeça por entre a aventura dos escravos e as discussões no senado, com um último acto que se prolonga em demasia após a derrota de Spartacus, com diversos enredos paralelos e inconsequentes (a maioria ligados aos desejos e frustrações de Crasso, mas também o papel de Júlio César, e a morte de Graco).

Com Donald Trumbo na Lista Negra das actividades anti-americanas, “Spartacus” foi publicamente boicotado, com manifestações à porta dos cinemas. Tal não impediu Douglas de manter o nome de Trumbo nos créditos, e o recém-eleito John F. Kennedy de ver o filme, precipitando o fim de tais listas. O filme foi um sucesso comercial, considerado um dos melhores épicos históricos do seu tempo. Não obstante, algumas cenas foram censuradas nos anos 60, e apenas restauradas em 1991, incluindo a célebre cena de sedução de Laurence Olivier a Tony Curtis, cujo som se perdera entretanto, tendo Curtis dobrado a sua voz, e Anthony Hopkins dobrado a do já falecido Olivier.

Para além do Oscar de Ustinov, “Spartacus” venceu ainda nas categorias Guarda-roupa, Direcção Artística e Fotografia, num total de seis nomeações. O filme recebeu também o Globo de Ouro de Melhor Filme.

Kirk Douglas

Produção:

Título original: Spartacus; Produção: Bryna Productions; Produtores Executivos: Kirk Douglas Edward Muhl [não creditado]; País: EUA; Ano: 1960; Duração: 188 minutos; Distribuição: Universal Pictures (EUA), Rank Film Distributors (Reino Unido); Estreia: 9 de Outubro de 1960 (EUA), 12 de Setembro de 1961 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Stanley Kubrick; Produção: Edward Lewis; Argumento: Dalton Trumbo, Peter Ustinov [não creditado], Calder Willingham [não creditado] [baseado no livro de Howard Fast]; Música: Alex North; Fotografia: Russell Metty, Clifford Stine [Cenas Adicionais] [filmado em Super Technirama 70, cor por Technicolor]; Montagem: Robert Lawrence, Irving Lerner [não creditado]; Design de Produção: Alexander Golitzen, Roger Forse [não creditado]; Direcção Artística: Eric Orbom; Cenários: Russell A. Gausman, Julia Heron; Figurinos: Valles, Bill Thomas, William Ware Theiss [não creditado]; Caracterização: Bud Westmore; Efeitos Especiais: Wah Chang [não creditado]; Direcção de Produção: Norman Deming, Eduardo García Maroto (Espanha).

Elenco:

Kirk Douglas (Spartacus), Laurence Olivier (Marco Liciníus Crasso), Jean Simmons (Varinia), Charles Laughton (Gaio Semprónio Graco), Peter Ustinov (Lentulus Batiatus), John Gavin (Júlios César), Tony Curtis (Antonino), Nina Foch (Helena Glabrus), John Ireland (Crixus), Herbert Lom (Tigranes Levantus), John Dall (Marco Públio Glabrus), Charles McGraw (Marcelo), Joanna Barnes (Claudia Marius), Harold J. Stone (David), Woody Strode (Draba), Peter Brocco (Ramon), Paul Lambert (Gannicus), Robert J. Wilke (Capitão da Guarda), Nick Dennis (Dionysius), John Hoyt (Caius), Frederick Worlock (Laelius).

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