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Solomon and ShebaQuando David (Finlay Currie), o segundo rei de Israel, se encontra às portas da morte, Adonias (George Sanders), o seu filho mais velho e comandante militar do reino, reclama o trono para si, mas o seu modo intempestivo e soberbo leva o velho rei, o profeta Natã (William Devlin) e as doze tribos a preferir o segundo filho, o moderado e sábio Salomão (Yul Brynner). Adonias espera a sua oportunidade, e esta surge quando a rainha de Saba (Gina Lollobrigida), aliada dos egípcios, visita Jerusalém e seduz Salomão para que este a deixe adorar os seus deuses dentro da cidade. O caos que se segue é então aproveitado por Adonias, comandando os exércitos do faraó egípcio (David Farrar).

Análise:

Edward Small, à frente da Theme Pictures, foi o impulsionador de mais um filme épico de cariz bíblico, na senda do recente êxito de “Os Dez Mandamentos” (The Ten Commandments, 1956) de Cecil B. DeMille. Com argumento a vários pares de mãos e muitas vezes modificado, a partir de uma história de Crane Wilbur, a fonte era de novo o Antigo Testamento (mais precisamente o segundo livro dos Reis, e o segundo livro das Crónicas), e o reinado de Salomão, nas histórias que o relacionam com a rainha de Saba. Seguindo o exemplo dos recentes filmes do género, Small passou a produção para a Europa, neste caso a Espanha, onde os cenários naturais são filmados, e usou o relativamente novo método Technirama, uma forma de compressão de imagem para ecrã panorâmico, criado pela própria Technicolor. Como realizador tinha King Vidor, um dos monstros sagrados de Hollywood, agora já em final de carreira, depois de ter contribuído com tantas inovações artísticas na fase formativa do cinema.

A produção de “Salomão e a Rainha de Saba” ficaria marcada pela tragédia. A meio das filmagens, o actor principal, Tyrone Power, morreria com um problema cardíaco, em plena acção. Este foi substituído por Yul Brynner, e muito do filme teve que ser filmado de novo, com algumas cenas ainda a incluir Power, quando filmado à distância. Segundo Vidor, o filme nunca se recomporia desse facto, já que, para ele, Brynner nunca percebeu o personagem.

“Salomão e a Rainha de Saba” começa por nos mostrar a sucessão de David (Finlay Currie), o ungido de Deus, e segundo rei de Israel. Quando David se encontra às portas da morte, Adonias (George Sanders), o seu filho mais velho e comandante militar do reino, recentemente vitorioso de mais uma batalha contra o Egipto, reclama o trono para si. Mas o seu carácter bélico e arrogante não é bem visto, pelo que tanto David, como o profeta Natã (William Devlin) e as doze tribos vão escolher o segundo filho, o poeta e sábio Salomão (Yul Brynner).

Salomão reina em paz e sabedoria, trazendo prosperidade ao reino. Mas quem continua a cobiçar o reino é o faraó egípcio (David Farrar), que em vez de tropas, envia a sua aliada, a rainha de Saba (Gina Lollobrigida) para seduzir Salomão. Esta, como uma mulher fatal da antiguidade, usa os seus encantos para aos poucos ter Salomão aos seus pés. É nessa altura que o convence a deixar que os seus deuses sejam celebrados em Jerusalém, o que causa desastres naturais que todos vêem como castigo divino sobre o rei e o reino.

É nessa altura que o Egipto ataca, com Adonias (banido depois de tentar matar o irmão) a liderar o exército. A vitória de Adonias leva-o a entrar triunfante em Jerusalém, onde a rainha de Saba reza por Salomão no templo. Mas entretanto os soldados sobreviventes de Salomão reorganizam-se, e sob seu comando enganam os egípcios, levando-os, com os reflexos dos seus escudos, a cavalgar sem ver para um abismo. Salomão entra agora em Jerusalém, onde Adonias ordenava o apedrejamento da rainha de Saba. Depois de matar o irmão em duelo, Salomão vê a amante ser miraculosamente restaurada, provando que Deus está agora com eles.

“Salomão e a Rainha de Saba” é mais uma história do confronto entre a devoção religiosa de um rei (e de um povo) e as tentações humanas que o podem desviar de um caminho prescrito por Deus. É como se a tentação e queda dos hebreus quando Moisés se demorou na montanha, voltassem uma e outra vez, na forma de tentações mais subtis, que desviem um homem do caminho justo. Aqui a tentação é Gina Lollobrigida, e o homem justo é Salomão, que tem de manter o reino unido e feliz, defendido quer dos inimigos externos, quer dos internos, na pessoa do seu irmão Adonias. Ao seu lado, como uma consciência que o puxa para a humildade e devoção, a figura de Abisag (Marisa Pavan), a mulher simples, leal, amiga, e por isso ignorada até ao momento do seu sacrifício.

Na busca de repetir o sucesso de outros filmes recentes do mesmo género, a United Artists viu-se com um filme que, decididamente, não valia pela soma das suas partes. Ainda que os valores de produção sejam irrepreensíveis (com a Technirama resultando numa fotografia lindíssima, e cenários, quer naturais, quer de estúdio, de belo efeito), um guarda-roupa admirável, um argumento decente, e tenha algumas presenças inesquecíveis, o resultado falha. Falha principalmente pela falta de ritmo, com Vidor a mostrar não ser dotado para projectos nos quais não tem o coração. O filme arrasta-se em momentos estéreis, e tenta viver da presença das suas estrelas.

É evidente que Gina Lollobrigida, cuja participação foi negociada como indispensável, é um deleite para os olhos. Exalando feminilidade e sedução, a actriz italiana domina grande parte do filme. Mas fá-lo em exagero, por vezes impedindo-o de se soltar e avançar. Em contraste, Yul Brynner é demasiado sério, demasiado preocupado em ser perfeito, roubando o seu personagem de qualquer humanidade que pudesse (e devesse) criar empatia com o público, como o motor de uma história que se quer humana, e que lembra muito o superior “Sansão e Dalila” (Samson and Delilah, 1948) de Cecil B. DeMille, onde Gregory Peck e Susan Hayward tomavam de assalto o ecrã com um romance maior que qualquer religião.

Mas ao invés, “Salomão e a Rainha de Saba” é sempre um filme preso a convenções e regras de um estilo, com alguns momentos memoráveis, como a dança de Lollobrigida, ou a batalha final resolvida com reflexos do sol em escudos espelhados.

O filme foi mal recebido pela crítica, e não fora o enorme sucesso de “Ben-Hur” no mesmo ano, poder-se-ia pensar que as super-produções de épicos históricos em Technicolor e ecrã panorâmico poderiam ter os dias contados, pois a fórmula começava a estar gasta, e o público pedia emoções diferentes para a nova década que se avizinhava.

Gina Lollobrigida e Yul Brynner

Produção:

Título original: Solomon and Sheba; Produção: Edward Small Productions (Theme Pictures); País: EUA; Ano: 1959; Duração: 141 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 27 de Outubro de 1959 (Reino Unido), 25 de Dezembro de 1959 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: King Vidor; Produção: Ted Richmond, Tyrone Power [não creditado]; Argumento: Anthony Veiller, Paul Dudley, George Bruce; História: Crane Wilbur; Música: Mario Nascimbene, Malcolm Arnold [não creditado]; Direcção Musical: Franco Ferrara; Fotografia: Freddie Young [filmado em Technirama, cor por Technicolor]; Montagem: Otto Ludwig; Direcção Artística: Richard Day, Alfred Sweeney, Luis Pérez Espinosa; Cenários: Dario Simoni; Figurinos: Ralph Jester; Caracterização: John O’Gorman, Thomas Tuttle, Tom Smith; Efeitos Especiais: Alex Weldon; Coreografia: Jeroslav Berger, Jean Pierre Genet; Director de Produção: Richard McWhorter, Eduardo García Maroto.

Elenco:

Yul Brynner (Salomão), Gina Lollobrigida (Saba), George Sanders (Adonias), Marisa Pavan (Abisag), David Farrar (Faraó), Harry Andrews (Baltor), Jean Anderson (Takyan), John Crawford (Joabe), William Devlin (Natã, O Profeta), Laurence Naismith (Hezrai), Jack Gwillim (Josias), Finlay Currie (David), José Nieto (Acabe), Maruchi Fresno (Bate-seba), Julio Peña (Zadok).

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