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Sommaren med MonikaHarry Lund (Lars Ekborg) é um jovem de 19 anos, empregado numa fábrica de loiças de Estocolmo, que se enamora da romântica e aventureira Mónica (Harriet Andersson), empregada de balcão numa loja vizinha. As dificuldades de ambos com empregos e famílias leva-os a desejar a fuga, saindo da cidade no barco do pai de Harry, para viverem livres no arquipélago. Mas quando Mónica engravida, e o Verão finda, o par tem de voltar à cidade, deixando de lado a ilusão de um amor de fantasia.

Análise:

Baseado no livro homónimo de Per Anders Fogelström (que também escreveu o argumento), Ingmar Bergman realizou o seu sexto filme consecutivo para a Svensk Filmindustri (SF). Bergman então envolvido romanticamente com Harriet Andersson (que tinha apenas 20 anos), usou o filme como um veículo para a actriz, tornando-o célebre pelo modo frontal como aborda a sexualidade, não se coibindo de nos dar cenas de grande sensualidade, incluindo nus integrais da actriz, o que tornou o filme muito popular internacionalmente, sedimentando a ideia de que a Suécia era um país sexualmente muito liberal.

Mas, mais que ser um filme de inclinação erótica, “Mónica e o Desejo” volta a lidar com temas caros a Bergman, e já explorados em filmes anteriores. É o caso da ideia do par que quer ser livre, e para isso tem que se colocar contra todo o mundo, como mostrado em “Chove sobre o Nosso Amor” (Det regnar på vår kärlek, 1946). É ainda a ideia do Verão como período libertador, quase mágico, onde vale tudo, retirando-nos da rotina castradora da vida real, como foi contado em “Um Verão de Amor” (Sommarlek, 1951).

Desta vez, temos um novo par de protagonistas. A nominal Mónica é Harriet Andersson, que quer libertar-se da família barulhenta e com pai bêbedo (Åke Fridell), e do emprego, com patrão e clientes que a assediam sexualmente. Mónica sonha com o romance dos filmes, e quer vivê-lo (note-se a sua constante repetição da ideia «porque é que algumas pessoas têm tudo?»), nem que tenha que inventar essa felicidade. Para tal escolhe um rapaz diferente dos outros, calmo, tímido e que não a assedia. Ele é Harry (Lars Ekborg), desastrado empregado de uma fábrica de loiças, sempre à beira do despedimento, e com um pai doente (Georg Skarstedt) e uma tia controladora em casa (Dagmar Ebbesen).

Infortúnios levam a que os dois decidam sair de Estocolmo, indo viver no barco do pai de Harry que levam para o arquipélago, numa espécie de regresso ao paraíso primordial, sem regras, restrições ou alguém que sequer os veja. Mas Mónica engravida, e Harry decide regressar para procurar emprego, e casar com Mónica, uma vez que os dois não têm já que comer, e o Inverno se aproxima.

Harry é acolhido pela tia, e cresce com o nascimento da filha June, conseguindo emprego, voltando a estudar, e ambicionando um futuro para a família. Mas Mónica não o segue nessas intenções, continuando irresponsável, pensando apenas no seu prazer, negligenciando a filha, e dando-se a fugazes relações extra-conjugais, para passar o tempo.

É novamente o olhar de Bergman para a juventude, no que ela tem de sonhos, aventura, fantasia e rebeldia, e o quanto isso choca com uma sociedade que formata seres a seguir regras estabelecidas. De recordar a cena final de “Segredos de Mulheres” (Kvinnors väntan, 1952) onde o par romântico em fuga (que bem poderiam ser Harry e Mónica) é olhado com a condescendência pelos adultos, que sabem que voltará atrás quando a necessidade surgir.

Começando nos bairros industriais de Estocolmo, Bergman dá-nos uma paisagem ainda mais cinzenta que o preto e branco da fotografia, para a contrastar com a luminosidade do Verão nas ilhas do arquipélago, que serve de refúgio ao jovem casal. Ali tudo é liberdade, como num mundo encantado, ou no paraíso divino. Ali a nudez volta a ser permitida, sem vergonha ou maldade. Ali os gestos de ternura e sedução são tão naturais como respirar, dormir ou nadar no mar.

E depois tudo muda, com o Inverno, a escassez de alimentos, a falta de roupas e principalmente a gravidez de Mónica, o par é obrigado a regressar, isto é, é expulso do seu paraíso. Harry cresce, formata-se, aceita a sociedade e a responsabilidade. Trabalha, estuda, casa com Mónica, aceita a ajuda da tia, sonha crescer profissionalmente, e toma conta da filha com amor. Mónica recusa-se a crescer, continua a sonhar, vive irresponsavelmente, negligencia a filha, engana o marido, não por maldade, mas apenas por querer continuar a ser jovem e não perder a fantasia.

É mais uma vez uma crítica de Bergman ao limbo em que o ser humano se coloca quando troca sonhos por realidade, quando escolhe, e deixa para trás parte de si, quando deixa que a sociedade dite as suas leis sobre a individualidade. Para alguns, o filme pode ser visto como uma repreensão a Mónica e à irresponsabilidade que leva a seguir por “maus caminhos”. Mas é sobretudo um olhar terno (tão terno como o olhar perdido e quase inocente que Harriet Andersson nos deita, desafiando-nos, quando quebra a quarta parede), para a necessidade de aventura, nesse misto de sensualidade e inocência, sonho e esperança. Mónica é assim uma força da natureza, sempre ela a dar o primeiro passo (na sedução, na relação, no erotismo, na liberdade sexual), e o motor das ideias com que Bergman nos quer fazer pensar.

É ainda um dos trabalhos mais bem conseguidos de Bergman a nível de câmara até então. Quer nos lentos travellings urbanos, e enquadramentos exigentes dentro de quatro paredes, quer nas panorâmicas e luz dos exteriores no arquipélago, onde a liberdade de movimentos é enorme. Com grande parte do filme rodado em paisagens naturais, a paisagem e a luz tornam-se essenciais na marcação dos ritmos e atmosferas.

Mas para o mundo ficava, sobretudo, a fama das cenas de nudez, e o aproveitamento que disso se fez, principalmente nos Estados Unidos, onde o filme chegou a ser reeditado para dar mais ênfase à nudez de Harriet Andersson, com cartazes apelativos e o título “Monika, the Story of a Bad Girl”.

Harriet Andersson

Produção:

Título original: Sommaren med Monika [Summer with Monika]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1953; Duração: 92 minutos; Distribuição: Svensk Filmindustri (SF); Estreia: 9 de Fevereiro de 1953 (Suécia), 15 de Julho de 1964 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Allan Ekelund; Argumento: Per Anders Fogelström; Música: Erik Nordgren; Orquestração: Eskil Eckert-Lundin; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Tage Holmberg [não creditado], Gösta Lewin [não creditado]; Design de Produção: P. A. Lundgren; Caracterização: Carl M. Lundh.

Elenco:

Harriet Andersson (Mónica Eriksson), Lars Ekborg (Harry Lund), Dagmar Ebbesen (Fru Lindström, Tia de Harry), Åke Fridell (Ludwig Eriksson, Pai de Mónica), Naemi Briese (Mãe de Mónica), Åke Grönberg (Colega de Harry no Trabalho), Sigge Fürst (Johan, Empregado na Forsbergs), John Harryson (Lelle), Georg Skarstedt (Pai de Harry).

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