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Ben-HurJudah Ben-Hur (Charlton Heston) é um príncipe judeu em Jerusalém, no ano 26 d. C., quando recebe de volta o seu amigo de infância Messala (Stephen Boyd), agora um tribuno militar romano. Só que Messala mudou e quer fazer nome rapidamente, entregando a Roma os líderes das revoltas judaicas. Para isso, congemina a prisão do próprio Ben-Hur, bem como a da sua mãe (Martha Scott) e irmã (Cathy O’Donnell). Condenado às galés, Ben-Hur vai ser salvo quando, num naufrágio, salva o seu comandante, Quintus Arrius, que o adopta como um filho em Roma. De volta a Jerusalém, como cidadão romano, Ben-Hur quer encontrar a mãe e irmã, tendo para isso que desafiar Messala publicamente.

Análise:

Depois do enorme sucesso de “Os Dez Mandamentos” (The Ten Commandments, 1956), realizado por Cecil B. CeMille para a Paramount Pictures, era a vez da poderosa MGM voltar a apostar fortemente nos dramas épicos de fundo religioso, algo que já não fazia desde “Quo Vadis?” (1951) de Mervyn LeRoy. E tal como nesse filme, a MGM voltou a apostar num livro famoso, que mistura o imaginário da era romana com o Cristianismo, ainda que este seja apenas tocado tangencialmente, com a figura de Cristo a ser mencionada e vista (sempre de costas) nalguns momentos presenciados pelos personagens.

Trata-se de um remake, uma vez que o filme já tinha uma versão anterior, “Ben-Hur” (Ben-Hur: A Tale of the Christ 1925), realizada por Fred Niblo, e que foi uma tentativa deliberada da MGM para fazer face às dificuldades que atravessava, inspirada pelo sucesso do referido filme de DeMille. Para tal, a produção foi entregue a Sam Zimbalist, o qual morreria antes de ver o filme completado. Zimbalist foi o responsável por montar a equipa, e gerir o enorme orçamento depositado no projecto, que contou com argumento de Karl Tunberg e de uma série de contratados e não creditados, como foi o caso Gore Vidal e Maxwell Anderson.

“Ben-Hur” é a história épica do personagem com o mesmo nome. Judah Ben-Hur (Charlton Heston) é um príncipe judeu em Jerusalém, amante da paz e dos seus, que celebra o regresso do amigo de infância Messala (Stephen Boyd), depois dos anos em que este viveu em Roma, onde se tornou um tribuno militar. Mas o reencontro em breve se torna amargo, quando Messala exige que Judah lhe dê os nomes dos judeus que incitam à revolta, e vê na recusa do amigo um acto de traição. Cedo Messala encontra uma desculpa (uma telha que cai do telhado durante o cortejo do governador), para prender Ben-Hur, a sua mãe (Martha Scott) e irmã (Cathy O’Donnell). Judah Ben-Hur é condenado às galés, onde serve três anos, até que o cônsul Quintus Arrius repara nele, e o salva de afogamento ao desacorrentá-lo antes de um naufrágio. Ben-Hur retribui salvando o cônsul da destruição da batalha, e Arrius leva-o para Roma, onde faz dele seu filho adoptivo. Já triunfante nas corridas de quadrigas, Ben-Hur regressa a Jerusalém para resgatar mãe e irmã. Aí é acompanhado por Baltasar (Finlay Currie), um velho peregrino que fala de um salvador que ele viu nascer 33 anos antes, e por Sheik Ilderim (Hugh Griffith) um rico árabe que vem a Jerusalém para desafiar Messala com a sua quadriga de cavalos.

Em Jerusalém, Ben-Hur é recebido por Ester (Haya Harareet) a escrava que ficou para trás, apaixonada por ele, esperando o seu regresso. Mas Ben-Hur tem apenas um objectivo. Resgatar mãe e irmã e vingar-se de Messala. Confrontado por Ben-Hur, Messala manda procurar as duas mulheres para descobrir que morrem de lepra. Estas são libertadas, e procuram Ester, mas pedem-lhe que não conte nada a Ben-Hur. Pensando que mãe e irmã morreram, Ben-Hur vê na corrida de quadrigas uma forma de desafiar Messala, aceitando conduzir os cavalos de Sheik Ilderim, levando-os à vitória numa corrida trágica que acaba na morte de Messala.

Vingado do seu inimigo, Ben-Hur descobre que a mãe e a irmã vivem ainda. É por ideia de Ester que vão procurar o afamado salvador de que ela é seguidora, e que Ben-Hur vem a reconhecer como o homem que lhe deu água anos antes, quando era levado para as galés. Só que este homem, Jesus Cristo, é agora levado para ser crucificado, e os papéis invertem-se, com Ben-Hur a apiedar-se dele, e a dar-lhe água na sua caminhada final. Tocado pela morte na cruz, Ben-Hur volta triste, para descobrir que por milagre a mãe e a irmã foram curadas.

Não é difícil imaginar o espanto que “Ben-Hur” terá causado no seu tempo, pois era uma proeza raramente ou nunca tentada. A partir de livro já reputado, William Wyler e a MGM conseguiam uma obra maior que a vida, na queda e ascensão de um homem bom, traído pelo seu amigo, abandonado por um império cruel, para com sacrifício e abnegação, voltar triunfante, e subjugar o seu inimigo de forma tão simbólica como literal, numa épica corrida de quadrigas que, dos preparativos à coroação do vencedor ocupa cerca de 21 minutos.

Não deixando de mostrar paralelismos com “Os Dez Mandamentos” (temos agora um homem e não um povo, que é vítima de um império cruel, e que tem de fazer a sua própria travessia no deserto antes do regresso triunfante), é de novo Charlton Heston o protagonista, numa luta contra algo muito superior, neste caso o Império Romano, que aqui surge como prepotente, injusto e cruel. Poder-se-á dizer que se no filme de Cecil B. DeMille, o império era representado por Ramsés II (Yul Brynner), agora a tarefa de reunir o nosso ódio está a cargo de Messala, um homem que, para subir, encarna a crueldade imperial, dispondo-se a pisar aqueles que o trataram como família. É mais uma vez um exemplo do sacrifício do povo hebreu, demasiado pequeno contra o mundo, mas capaz de forças inexcedíveis e (porque não?) até inexplicáveis.

Desta vez essas forças surgem do toque cristão (Cristo surge várias vezes em cena, sempre tangencialmente, sempre filmado por trás, apenas como pano de fundo para algum evento que envolve os protagonistas). Este toque torna-se mais evidente na parte final, quando “Ben-Hur”, reconhecendo nele um homem que fora bondoso quando ele estava no seu momento mais baixo, se deixa iluminar pela sua aura e o segue até à crucificação. Há assim como que uma necessidade de tocar religiosamente uma história que é movida por uma das mais comuns paixões humanas: a vingança.

Por mais que queiramos iluminar “Ben-Hur” do espírito cristão com que o filme encerra (e note-se a curiosidade de Wyler ser judeu), trata-se na verdade de um filme sobre paixões humanas, de amizades traídas, lutas pela sobrevivência, inveja e vingança. Tudo isto tratado de um modo épico, herdeiro de DeMille, com filmagens a decorrer em vários cenários naturais em Itália, Espanha, e no hipódramo de Tiro, no Líbano, com interiores nos estúdio da Cinecittà e nos Estados Unidos, envolvendo milhares de figurantes, guarda-roupas deslumbrantes, e toda uma encenação de luxo, cujo zénite é a épica corrida de quadrigas no circo. Com 15 000 figurantes, esta é ainda hoje um modelo, quer pela espectacularidade inerente, quer pela tensão permanente, virtude de uma multitude de câmaras, e um enorme perfeccionismo na decoupage e raccord.

O resultado é grandioso, o que se torna mais notável pelo facto de William Wyler não ter experiência de filmes de tal escala. Perdoando os exageros propagandísticos que hoje são evidentes, “Ben-Hur” continua a ser um filme notável e apaixonante, não espantando que tenha tido o record de 11 Oscars (incluindo Melhor Filme, Realizador e Actor), feito só igualado por “Titanic” (1997) e “O Senhor dos Anéis – O Regresso do Rei” (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003).

Ben-Hur

Produção:

Título original: Ben-Hur; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Produtores Executivos: Sol C. Siegel [não creditado], Joseph Vogel [não creditado]; País: EUA; Ano: 1959; Duração: 212 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 18 de Novembro de 1959 (EUA), 25 de Outubro de 1960 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: William Wyler; Produção: Sam Zimbalist, William Wyler [não creditado]; Argumento: Karl Tunberg [baseado no livro homónimo de Lew Wallace]; Música: Miklós Rózsa; Fotografia: Robert Surtees [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Fotografia Adicional: Harold E. Wellman, Pietro Portalupi; Montagem: Ralph E. Winters, John D. Dunning, Margaret Booth [não creditada]; Design de Produção: Vittorio Valentini [não creditado]; Direcção Artística: William A. Horning, Edward C. Carfagno; Cenários: Hugh Hunt; Figurinos: Elizabeth Haffenden; Caracterização: Charles E. Parker; Efeitos Especiais: Umberto Dessena [não creditado], Doug Hubbard [não creditado]; Efeitos Visuais: A Arnold Gillespie, Lee LeBlanc, Robert R. Hoag; Direcção de Produção: Edward Woehler.

Elenco:

Charlton Heston (Judah Ben-Hur), Jack Hawkins (Quintus Arrius), Haya Harareet (Ester), Stephen Boyd (Messala), Hugh Griffith (Sheik Ilderim), Martha Scott (Miriam), Cathy O’Donnell (Tirzah), Sam Jaffe (Simonides), Finlay Currie (Balthasar / Narrador), Frank Thring (Pôncio Pilatos), Terence Longdon (Druso), George Relph (Imperador Tibério), André Morell (Sexto).