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SommarlekDurante uma pausa nos ensaios para o bailado «O Lago dos Cisnes», Marie (Maj-Britt Nilsson), uma bailarina de 28 anos, recebe um seu antigo diário pelo correio. Tal deixa-a transtornada, e Marie sai do teatro com o namorado, David (Alf Kjellin), mas acabam por se separar e, quase instintivamente, Marie apanha o barco para o arquipélago. O destino é a ilha onde na juventude costumava ir passar o Verão com os tios, e onde Marie vai recordar a história de amor que viveu num Verão longínquo com Henrik (Birger Malmsten).

Análise:

Novamente em colaboração com Herbert Grevenius, Ingmar Bergman partiu de uma antiga história sua, para construir o argumento de mais um filme da Svensk Filmindustri (SF), aquele em que, para muitos críticos, Bergman encontrou finalmente o seu caminho. Afinal, era o mais autobiográfico filme do realizador, que mais tarde afirmaria que a protagonista Marie era ele próprio.

“Um Verão de Amor”, cujo original “Sommarlek” significa simplesmente “tempo de Verão”, ou “pausa de Verão”, conta-nos a história de Marie (Maj-Britt Nilsson), uma bailarina em final de carreira, amargurada e fechada para o mundo, ainda que numa relação com o jornalista David Nyström (Alf Kjellin). Ao receber um antigo diário, Marie fica transtornada, e vagueia pela cidade, acabando por, instintivamente, apanhar o ferry que a vai deixar numa ilha, onde antigamente costumava passar os Verões. Aí recorda um Verão em particular, treze anos antes, no qual conheceu e se apaixonou pelo jovial Henrik (Birger Malmsten), lançando-nos num longo flashback que constitui a maioria do filme.

Como dois inocentes apaixonados, Marie e Henrik viveram esse Verão como uma descoberta fascinante, de brincadeira e sonhos, que os deixou num constante entusiasmo por um futuro que esperavam ter agarrado. Mas quis a tragédia que assim não fosse, e Marie viu-se de novo só, no final do Verão, aconselhada pelo tio Erland (Georg Funkquist), presença de contornos sinistros, a erguer um muro à sua volta, para assim poder continuar a viver, mecanicamente, mas sem se magoar.

De volta a Estocolmo, e ao momento presente, Marie, sob a pressão da estreia de novo bailado, não sabe como estar com David. Descobre então que está feliz, porque as memórias de Henrik deixaram de doer, e decidiu derrubar os seus muros e voltar a viver.

Filmando Estocolmo, o arquipélago e os interiores do teatro e das casas de campo na ilha, com uma fluidez e luz como nunca vistas no seu cinema, Bergman dá-nos em “Um Verão de Amor” um filme de uma beleza visual poética, que marcaria a sua obra futura. Cada plano na ilha é um testemunho de Verão, de alegria e inocência, que são, aliás, as marcas deste filme, que também tematicamente é um guia para o futuro do realizador.

Veja-se então o que temos, nalguns casos, com temas que já vinham de trás. O Verão, como momento de pausa, como entrada num outro mundo sentimental, com mais possibilidades. A inocência da juventude (que nos dá até uma sequência de animação), dos primeiros amores, dos sonhos. O teatro, literalmente como palco de ilusão, aqui de um modo tão estilizado, que as bailarinas dançam contra um fundo indistinto, numa abstracção que parece quase um sonho. A bailarina (Bergman foi casado com bailarinas), como paradigma da feminilidade. A perda da fé em Deus. A perda da identidade artística. A luta entre paixão e razão, com duelos de perda de vontade de viver. E em termos estilísticos não faltam detalhes que apontam para filmes posteriores, como o xadrez jogado pela tia de Henrik com o padre; os espelhos; as máscaras, a presença do palhaço, a apanha de morangos silvestres, etc.

Mas mais que pela soma das suas partes, “Um Verão de Amor” toca-nos por essa perda de inocência que vivemos com a jovialidade pura dos protagonistas. E se Birger Malmsten nunca foi tão alegremente simples, num Henrik meio estouvado, juvenil, mas bem-intencionado, é sobretudo Maj-Britt Nilsson a alma de todo o filme. Numa interpretação fabulosa, a actriz, que pela segunda vez trabalhava com Bergman, cativa-nos pela sua inocência, pela fragilidade, pelos sonhos e medos, e pela esperança que vive na descoberta de um amor. Ao mesmo tempo, espanta-nos por conseguir, na Marie mais velha, ser tão amarga, desiludida e derrotada. A sua dor torna-se a nossa dor, por termos com ela vivido a descoberta e a perda de algo que tinha tudo para ser maravilhoso.

Tudo isto, polvilhado com música de Chopin (em casa dos tios), Delibes (no flashback), e Tchaikovsky, onde “O Lago dos Cisnes” se torna alegoria para um renascer espiritual. A câmara de Bergman, move-se segura, quer nos grandes espaços, filmados com ternura e majestade, quer nos interiores, onde os pequenos gestos e a expressividade de um rosto (quase sempre o rosto incrível Maj-Britt Nilsson) são tão reveladores. Por tudo isto trata-se de um filme de olhar nostálgico sobre a inocência, um filme de tristeza e luto, mas também um filme que nos diz que nada se repete, porque nada se pode nem deve repetir, pois a vida não é um teatro, e cabe-nos continuar a viver cientes disso.

O filme foi notado internacionalmente, lançando definitivamente a carreira de Ingmar Bergman, e abrindo uma nova época alta do cinema sueco.

Maj-Britt Nilsson e Birger Malmsten

Produção:

Título original: Sommarlek [Título inglês: Summer Interlude]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1951; Duração: 96 minutos; Estreia: 1 de Outubro de 1951 (Suécia), 28 de Agosto de 1963 (Cinema Império, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Allan Ekelund; Argumento: Ingmar Bergman, Herbert Grevenius; Música: Erik Nordgren, Frédéric Chopin, Léo Delibes, Pyotr Ilyich Tchaikovsky; Orquestração: Eskil Eckert-Lundin; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Oscar Rosander; Design de Produção: Nils Svenwall; Caracterização: Carl M. Lundh; Animação: Rune Andréasson [não creditado]; Direcção de Produção: Gösta Ström.

Elenco:

Maj-Britt Nilsson (Marie), Birger Malmsten (Henrik), Alf Kjellin (David Nyström), Annalisa Ericson (Kaj, Bailarina), Georg Funkquist (Tio Erland), Stig Olin (Encenador de Ballet), Mimi Pollak (Mrs. Calwagen, Tia de Henrik), Renée Björling (Tia Elisabeth), Gunnar Olsson (Padre).

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