Etiquetas

, , , , , , , , , , , , ,

The EgyptianSinuhe é um bebé abandonado no Nilo, durante a XVIII dinastia egípcia, e recolhido por um médico, que lhe ensina o ofício. A início dedicado aos pobres, Sinuhe (Edmund Purdom) e o seu amigo, o militar Horemheb (Victor Mature) vão cair nas boas graças do novo faraó (Michael Wilding). Mas entretanto, Sinuhe vai deixar-se encantar pela cortesã Nefer (Bella Darvi), e apesar dos avisos da mulher que o ama, Merit (Jean Simmons), do seu servo Kaptah (Peter Ustinov) e do amigo Horemheb, Sinuhe vai perder tudo o que é seu, deixando o Egipto em desgraça. Na iminência de uma invasão hitita, Sinuhe regressa, para descobrir um Egipto dilacerado entre guerras religiosas, e onde o agora general Horemheb tenta depor o faraó que segue uma estranha religião de um deus único.

Análise:

Depois de “David e Betsabé” (David and Bathsheba, 1951) de Henry King, e de “A Túnica” (The Robe, 1953) de Henry Koster, a Fox, sempre pela mão de Darryl F. Zanuck continuava a liderar o mercado dos dramas épicos de espada e sandália com “O Egípcio”, no mesmo ano em que daria ao género a sua primeira sequela, “Demétrio, o Gladiador” (Demetrius and the Gladiators, 1954), que continuava a história de “A Túnica”.

Com uma história do finlandês Mika Waltari, publicada em 1945, coube a Michael Curtiz, um realizador habituado a tornar cada filme num grande espectáculo e sucesso de bilheteira, dirigir o projecto que era assim como que o repetir das fórmulas anteriores, mas num cenário diferente, e ainda dado a maior exuberância.

“O Egípcio” é a história, narrada na primeira pessoa, de um médico da XVIII dinastia egípcia, educado por uma família adoptiva que o encontrou abandonado no Nilo. Ele é Sinuhe (Edmund Purdom), um homem humilde, de bom coração, cujo sonho é curar os pobres. Mas quer o destino que, numa caçada com o seu amigo Horemheb (Victor Mature), Sinuhe salve o novo faraó, Akhenaton (Michael Wilding) de um leão, sendo agraciado com a posição de médico do palácio. Por essa altura, Sinuhe deixa-se fascinar pela cortesã Nefer (Bella Darvi), que o vai convencendo a despojar-se de tudo o que tem, do dinheiro à casa e instrumentos de trabalho, terminando com a propriedade onde os pais deveriam ser enterrados na preparação para a vida eterna. Apesar do interesse Merit (Jean Simmons), a empregada que o ama, e dos avisos de Kaptah (Peter Ustinov), o escravo que o segue, Sinuhe cai em desgraça e decide abandonar o Egipto.

Nas suas deambulações, Sinuhe descobre que os hititas se preparam para atacar o Egipto, e têm uma nova arma, o ferro. É com essa informação que Sinuhe regressa, para descobrir que muito mudou. O Egipto é agora palco de perseguições religiosas, com os fanáticos dos deus Aton, a deixarem-se martirizar, quando o faraó parece ter enlouquecido e não age. Perante essa inacção Horemheb, agora general, prepara um golpe, com o consentimento dos sacerdotes e da irmã do faraó, a qual ainda tenta que seja Sinuhe a tomar o lugar do faraó, revelando-lhe que é seu meio-irmão. Mas no momento da morte do faraó, Sinuhe deixa-se tocar pelas palavras de compaixão do monarca, adorador de um deus único, e deixa Horemheb viver, abandonando de novo o Egipto.

Assim, num cenário bem diferente, há em “O Egípcio” muito que remete para os dramas de fundo bíblico dos anos anteriores. Se é verdade que Akhenaton (ou Amenófis IV) provocou uma revolução religiosa, colocando Aton no centro do panteão egípcio, hoje não se sabe completamente qual a sua motivação. Rumar em direcção ao monoteísmo, ou simplesmente retirar do centro do poder os sacerdotes centrados em Tebas, para criar uma nova corte em Amarna? Seja como for, o filme de Michael Curtiz aproveita bem esse momento inigualável na história egípcia para sugerir o lançamento da primeira semente do monoteísmo. Akhenaton torna-se assim, em “O Egípcio” uma espécie de profeta e percursor das grandes religiões do livro.

Apesar de o grosso da história se centrar no drama pessoal de Sinuhe, aos poucos este pano de fundo vai-se insinuando de forma mais intensa. Primeiro nalgumas frases do faraó, mais tarde na identificação com uma cruz (a Ankh, cruz que simbolizava a vida, e estava a associada a todos os deuses), retirada do seu contexto para surgir como percursora da cruz cristã. Depois chega a mensagem de paz amor do faraó, e não se resiste a mostrar perseguições de inocentes que se sacrificam por uma nova fé. Obviamente o argumento foi escrito a pensar no Cristianismo e quase nos perguntamos se a adaptação aos tempos egípcios não surge demasiado forçada. A ligação à Bília continua nalguns dos episódios da vida de Sinuhe, por exemplo a sua deposição no Nilo enquanto bebé lembra a história de Moisés, e a sua subida nas graças do faraó depois de o salvar de um leão, lembra a história de Sansão.

O grande Egipto dá, por outro lado, terreno fértil para a pompa, os cenários faustosos, os inúmeros figurantes, as roupas e pessoas exóticas, principalmente a sedutora (babilónica, para nova ligação à Bíblia) Nefer, causadora impiedosa da queda do aparentemente bom Sinuhe (num papel para o qual concorreu Marilyn Monroe, mas que seria dado à então amante de Zanuck, a francesa Bella Darvi).

Sinuhe (numa interpretação monocórdica de Edmund Purdom, que embora protagonista principal, viu o seu nome bem abaixo nos créditos, num papel que Marlon Brando recusou) é o catalisador da história. Bebé abandonado no rio, Sinuhe começa por ser um incansável investigador da verdade, com «Porquês» que vão além do habitual na sua época. Mas de humilde médico, bom filho, e fiel amigo, Sinuhe perde-se completamente doente por uma mulher. Regressa mais tarde, para ter um golpe de fé, ao ver o faraó morrer, isto depois de descobrir que aquela que sempre o amou (Merit, interpretada pela cabeça de cartaz Jean Simmons) lhe recuperou casa e instrumentos, para o seu filho, que ela diz ser adoptivo, mas que Sinuhe aceita como se fosse seu. É curioso que até então nunca se viu nenhum acto de afecto de Sinuhe para com Merit, e a origem do pequeno Thoth (Tommy Rettig) é deixada no vazio, com apenas Sinuhe a chamar-lhe filho (as maravilhas do Código de Hays não permitiam que se insinuasse que Sinuhe houvesse engravidado Merit sem que os dois tivessem casado).

Com interpretações demasiado estilizadas (alguns actores tiveram mesmo vozes dobradas por outros, para conseguir o tom austero das declamações), destaca-se o sempre espontâneo Peter Ustinov, aqui como um divertido servo, contrastando com as interpretações demasiado rígidas de Purdom e Wilding e com a execrável Darvi. Do elenco consta ainda o eficaz Victor Mature, que se tornava já figura indispensável neste tipo de filmes, e uma quase irreconhecível Gene Tierney. Nota ainda para o pequeno papel de John Carradine.

Se por um lado Michael Curtiz consegue um filme que nos oferece grandiosidade, uma ideia estimulante, e um final de empolgantes golpes palacianos, por outro, “O Egípcio” parece demasiado desequilibrado, com a história do incoerente Sinuhe a tomar demasiado tempo. Destaque ainda, pela negativa, para as facilidades de argumento que cedem a anacronismos gratuitos (a pá com que Sinuhe enterra os pais é já de ferro, antes de ele o descobrir; há espelhos perfeitíssimos por todo o lado; a linguagem é desajustada, onde até “Majestade” se usa; foi Tutancamon, e não Horemheb a suceder a Akhenaton; etc.).

“O Egípcio” teve uma nomeação aos Oscars, e apesar de bem aceite pelo público, a sua enorme despesa levou a que Zanuck tentasse minorar o prejuízo vendendo grande parte do cenário e props à Paramount, que os usaria em “Os Dez Mandamentos” (The Ten Commandments, 1956) de Cecil B. DeMille.

Edmund Purdom e Victor Mature

Produção:

Título original: The Egyptian; Produção: Twentieth Century-Fox Film Corporation; País: EUA; Ano: 1954; Duração: 133 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: 24 de Agosto de 1954 (EUA), 18 de Abril de 1955 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michael Curtiz; Produção: Darryl F. Zanuck; Argumento: Philip Dunne, Casey Robinson [baseado no livro “Sinuhe egyptiläinen” de Mika Waltari]; Música: Alfred Newman, Bernard Herrmann; Orquestração: Edward B. Powell; Fotografia: Leon Shamroy [filmado em CinemaScope, cor por Deluxe]; Montagem: Barbara McLean; Direcção Artística: Lyle R. Wheeler, George W. Davis; Cenários: Walter M. Scott, Paul S. Fox; Guarda-roupa: Charles Le Maire; Caracterização: Ben Nye; Efeitos Especiais: Ray Kellogg; Coreografia: Stephen Papich.

Elenco:

Jean Simmons (Merit), Victor Mature (Horemheb), Gene Tierney (Baketamon), Michael Wilding (Akhnaton), Bella Darvi (Nefer), Peter Ustinov (Kaptah), Edmund Purdom (Sinuhe), Judith Evelyn (Taia), Henry Daniell (Mekere), John Carradine (Ladrão de Túmulos), Carl Benton Reid (Senmut), Tommy Rettig (Thoth), Anitra Stevens (Rainha Nefertiti).

Anúncios