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SalomeNo reinado do imperador Tibério (Cedric Hardwicke), Salomé (Rita Hayworth) é uma princesa judia, enamorada de um aristocrata romano. A proibição de tal união envia-a de volta à Palestina, na comitiva do novo governador, Pôncio Pilatos (Basil Sydney), e do seu comandante militar, Cláudio (Stewart Granger). À chegada, a sua beleza é desde logo admirada pelo rei Herodes (Charles Laughton), seu padrasto por casamento com a pérfida Herodias (Judith Anderson). Esta vive atormentada com as pregações de um profeta, João o Baptista (Alan Badel) que a acusa de adultério, e usará a filha como isco para para fazer o marido matar o profeta. A início repugnada contra o Baptista, Salomé ao conhecer e começar a amar Cláudio, vai ver, pelos olhos deste, como a nova religião lhe pode mudar os corações.

Análise:

Em 1953 era a vez de a Columbia se lançar na produção de um épico bíblico, o qual surgia através da companhia de Rita Hayworth (The Beckworth Corporation), como um veículo para a própria estrela brilhar. Consta que a ideia terá surgido de um projecto não iniciado de Cecil B. DeMille, o qual contactara a Columbia para usar Rita Hayworth num filme seu do mesmo nome. A Columbia, não só não cedeu a actriz, como encarregou imediatamente Jesse Lasky Jr. (o filho de Jesse L. Lasky, um dos fundadores da Paramount) de escrever um argumento intitulado “Salomé”, para usar a fama de uma das mais antigas mulheres fatais da história, como forma de capitalizar a imagem de Rita Hayworth.

Jesse Lasky Jr. e Harry Kleiner desenvolveram a história e o argumento, na intenção de tornar Salomé uma mulher que recebesse a simpatia do público. Não se preocuparam por isso em rasgar tudo o que a Bíblia diz, criando uma história diferente, na qual Salomé não só não tem qualquer culpa na morte de João Baptista (afinal aquilo que a tornou infame), como ainda se converte ao Cristianismo. Vale-nos o manter da famosa dança do ventre, no que Rita Hayworth considerou a mais exigente sequência da sua carreira, levando inúmeras repetições.

A Salomé de Hayworth é uma princesa que viveu a vida inteira em Roma, a ponto de nem o seu padrasto Herodes (Charles Laughton) a conhecer. Na capital do Império, Salomé vive como romana e é noiva de Marcelo (Rex Reason), um sobrinho do imperador Tibério (Cedric Hardwicke). Quando este proíbe a união, Salomé volta ao seu país na comitiva de Pôncio Pilatos (Basil Sydney), o novo governador para a província, e do seu comandante militar, Cláudio (Stewart Granger). Pilatos leva como missão pôr ordem na região, onde se fala de tumultos provocados por um novo profeta, João Baptista (Alan Badel, um famoso actor de teatro que se estreava no cinema com pose demasiado teatral). Quanto a Cláudio, mais sensível e amigo de João, tenta actuar como moderador. Pelo meio tenta conquistar Salomé, que o odeia, como agora odeia todos os romanos.

Ao chegar à Galileia, Salomé é recebida com saudade pela mãe, a rainha Herodias (Judith Anderson), e com luxúria pelo padrasto, o rei Herodes (Charles Laughton). Vendo o interesse do marido na sua filha, Herodias vai usá-la para lhe baixar as defesas e conseguir dele a prisão de João. É que o profeta dirige-se principalmente à rainha, como adúltera, e Herodes não mexe um dedo, por medo de uma maldição que já tolhera o seu pai, Herodes o Grande, o causador do infanticídio aquando do nascimento de Jesus.

Entretanto, Salomé, intrigada pelo estranho profeta vai ouvi-lo, vai questionar as verdades que conhecia, e a partir do tempo passado com Cláudio, vai passar a amá-lo e a aceitar a nova religião do Cristianismo, mesmo que não consigam impedir a morte do Baptista, e a sua famosa decapitação.

“Salomé” é assim uma história que segue muito do que então se fazia em Hollywood, principalmente a fórmula triunfante de “Quo Vadis” (1951) de Mervyn LeRoy. Temos a pompa e o fausto do Império Romano, reis tiranos e afectados (há um pouco do Nero de Peter Ustinov no Herodes de Laughton), e a mensagem religiosa que nos leva à conversão de pagãos e ao martírio dos puros. Isto sem que haja o “atrevimento” de mostrar Cristo frontalmente. Em “Quo Vadis” já tinha morido, no contemporâneo “A Túnica” (The Robe, 1953) só o vemos parcialmente, e em “Salomé” apenas lhe ouvimos a voz (também Alan Badel). Como se esse lado elusivo reforçasse a reverência e a grandeza de uma figura que abordar directamente poderia, para muita gente, ser uma forma de o diminuir.

Com o argumento de Harry Kleiner e Jesse Lasky Jr., Salomé é uma princesa sem qualquer conhecimento da sua terra, que é desterrada de Roma para acordar para a realidade, já adulta. E esta realidade é a de ter um padrasto tirano, e uma mãe sanguinária (Judith Anderson, a inesquecível governanta de Hitchcock em “Rebecca”, aqui mais explicitamente cruel), capaz de tudo pisar para a sua própria grandeza. Essa descoberta vale-lhe a aproximação de Cláudio (um galante, mas contido e pouco imaginativo Stewart Granger), e claro, a conversão a uma religião nova, simbolizando como o Cristianismo em breve conquistará o mundo, purificando na sua passagem.

A má da fita, e responsável pela famosa decapitação do profeta, é, portanto, Herodias, a rainha que joga um sinuoso jogo de poder com o marido, sob o olhar de um desconfiado (e bastante apático) Pilatos. Uns e outros, em poses afectadas e diálogos pomposos, vão fazendo a história seguir pelos caminhos que parecem já vir de trás. Para lá do percurso da belíssima Salomé, pouco no filme é digno de entusiasmar, percebendo-se que a Columbia pretendia apenas fascinar quem se queria deleitar com imagens grandiosas e com o corpo da divina Rita Hayworth, que nos dava uma bonita dança dos sete véus. Vale por fim o cuidado de William Dieterle (num filme que é nitidamente de produtor e não de realizador) com a composição dos planos, cada qual parecendo a animação de uma pintura renascentista.

Stewart Granger e Rita Hayworth

Produção:

Título original: Salome; Produção: Columbia Pictures / The Beckworth Corporation; País: EUA; Ano: 1953; Duração: 98 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 13 de Fevereiro de 1953 (EUA), 4 de Dezembro de 1953 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: William Dieterle; Produção: Buddy Adler, Rita Hayworth [não creditada]; Argumento: Harry Kleiner [baseado numa história de Jesse Lasky Jr. e Harry Kleiner]; Música: George Duning, Daniele Amfitheatrof [Música da Sequência de Dança]; Fotografia: Charles Lang [cor por Technicolor]; Montagem: Viola Lawrence; Direcção Artística: John Meehan; Cenários: William Kiernan; Figurinos: Jean Louis, Emile Santiago; Caracterização: Clay Campbell, Robert J. Schiffer; Coreografia: Valerie Bettis; Orquestração: Arthur Morton; Direcção de Orquestra: Morris Stoloff: Direcção de Coro: Roger Wagner.

Elenco:

Rita Hayworth (Princesa Salomé), Stewart Granger (Comandante Cláudio), Charles Laughton (Rei Herodes), Judith Anderson (Rainha Herodias), Alan Badel (João Baptista / Voz de Jesus Cristo), Cedric Hardwicke (Imperador Tibério), Basil Sydney (Pôncio Pilatos), Maurice Schwartz (Ezra, Conselheiro do rei), Arnold Moss (Micha, Conselheira da rainha), Asoka Rubener (Bailarina Asiática), Sujata Rubener (Bailarina Asiática), Rex Reason (Marcelo) [não creditado].

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