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Sånt händer inte härAtkä Natas (Ulf Palme) é um agente secreto do regime ditatorial de Liquidatzia, de regresso à Suécia, país onde habita. Ao mesmo tempo, a sua mulher Vera (Signe Hasso) está envolvida num grupo de refugiados, que tentam trazer do país de origem outros compatriotas procurados pelas autoridades. Quando uma compatriota de Vera é assassinada, após receber uma nota de chantagem, Almkvist (Alf Kjellin), polícia local, e amante de Vera, corre a avisá-la. Assustada com as maquinações do marido que prometera trazer consigo os seus pais, Vera tenta matá-lo para assim se vingar dele.

Análise:

Encomendado pela produtora e distribuidora Svensk Filmindustri (SF), “This Can’t Happen Here” foi um filme que Ingmar Bergman não queria ter de fazer, cujo resultado manifestamente lhe desagradou, e que pediu mais tarde para não voltar a ser exibido. Por essa razão é hoje um filme difícil de encontrar, uma vez que nunca foi editado para venda ao público, e raramente é exibido.

Sem nenhum dos temas caros a Bergman, o filme, escrito por Herbert Grevenius, lida com uma história de refugiados de uma ditadura europeia não nomeada, sem ser pelo nome fictício de Liquidatzia, numa Europa do pós-guerra ainda a braços com o tema das atrocidades nazis, e da nova ordem trazida pelo avanço comunista. Logo na introdução, narrada em off, somos avisados de que se trata de um país que quase deseja não existir, omitindo-se assim todos os nomes, embora se admita que qualquer semelhança com a realidade possa não ser casual.

Ao país de acolhimento (que sabemos ser a Suécia, não só pela paisagem de Estocolmo, mostrada ostensivamente como nunca antes Bergman fizera, como pela nomeação explícita) chega Atkä Natas (Ulf Palme), cujo passaporte diz ser um engenheiro, mas como os guardas de alfândega bem adivinham, vindo de onde vem, o mais certo é isso não significar nada. Natas é de facto um agente secreto, que no seu país denuncia opositores, e agora no estrangeiro, carrega uma lista de agentes secretos que pretende vender aos EUA.

A sua chegada coincide com a consternação no grupo de refugiados, quando alguém morre depois de uma carta de chantagem. Tal leva o polícia Almkvist (Alf Kjellin) a procurar Vera (Signe Hasso), também provinda de Liquidatzia, e de quem ele é amante. Vera é casada com Natas, e o regresso do marido enerva-a, principalmente depois de perceber que este, ao contrário do prometido, não só não ajudou os pais dela a fugir, como ainda os denunciou. Por vingança Vera injecta mortalmente Natas e foge com os documentos roubados. Só que Natas não morreu, e é raptado pelos seus, que querem os documentos de volta. Natas vai encontrar Vera em casa de Almkvist, e consegue levar consigo a pasta (que não sabe estar vazia), e Vera, provocando uma perseguição trágica por Estocolmo.

Pela primeira vez, Ingmar Bergman filmava um drama criminal de implicações políticas. Com uma história algo confusa, onde só aos poucos se vai percebendo quem está de que lado. São inúmeras as referências ao mundo resultante do pós-guerra ainda com feridas deixadas pelos crimes do nazismo. Não se chega a perceber o papel de Liquidatzia, apenas que parece uma alegoria sobre os crimes das ditaduras, antigo aliado Nazi, e agora aparentemente sob o jugo comunista, numa altura em a Suécia (neutral na Segunda Guerra Mundial), era destino de acolhimento de refugiados.

Ao mesmo tempo, há como que uma crítica interna à neutralidade, com vários personagens a zombar da passividade sueca, e o seu fechar de olhos a tudo (as sessões de tortura são levadas a cabo num prédio habitacional, com os vizinhos apenas a queixarem-se do ruído). Como diz alguém, mesmo que a verdadeira razão do ruído (a tortura) fosse exibida publicamente, ninguém acreditaria, pois todos diriam “isso nunca aconteceria aqui” (afinal, o título do filme).

Todo o filme transmite uma atmosfera de medo, incerteza e desconfiança (bem patente na pequena caça às bruxas feita numa reunião dos refugiados, conduzida por um padre, e com Vera no lugar de ré), que faz com que os personagens se movam, como se ainda estivessem sob ameaça da guerra, ou de um regime ditatorial (nazismo, comunismo). Por isso o cinismo confunde-se com luta com sobrevivência, onde matar se torna um acto apenas tão condenável, quanto o é a passividade.

A chamar a atenção para os acontecimentos reais que se viviam na Europa, note-se ainda que o navio onde a história termina, “Mrofnimok Gadyn”, se escreve ao contrário de “Kominform Nydag”, sendo que “Nydag” (Ny Dag significa Novo Dia em sueco) era o nome de um jornal comunista que se publicava então na Suécia. Do mesmo modo Atkä Natas é um anagrama de Äkta Satan (Verdadeiro Satanás).

Embora se cite habitualmente as influências do Noir americano (então na moda) neste filme, Bergman filma como ele próprio, procurando o rosto como forma de mostrar tensão, deixando a câmara deslizar em espaços fechados, que aqui coexistem com os grandes espaços abertos da cidade, e onde não deixa de entrar algum humor (por exemplo no comportamento dos transeuntes, perante as perseguições em automóvel.

Ulf Palme e Signe Hasso

Produção:

Título original: Sånt händer inte här; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1950; Duração: 81 minutos; Estreia: 23 de Outubro de 1950 (Suécia).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Helge Hagerman; Argumento: Herbert Grevenius [a partir do livro “I løpet av tolv timer” de Peter Valentin]; Música: Erik Nordgren; Direcção Musical: Eskil Eckert-Lundin; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Lennart Wallén; Design de Produção: Nils Svenwall.

Elenco:

Signe Hasso (Vera), Alf Kjellin (Almkvist), Ulf Palme (Atkä Natas), Gösta Cederlund (O Médico), Yngve Nordwall (Lindell), Stig Olin (O Jovem), Ragnar Klange (Filip Rundblom), Hannu Kompus (O Padre), Sylvia Täl (Vanja), Els Vårman (Refugiado), Edmar Kuus (Leino), Rudolf Lipp (Skuggan).

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