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Quo VadisAo regressar a Roma com o seu exército triunfante, o General Marco Vinícius (Robert Taylor), fica uns dias em casa do antigo general Pláutio (Felix Aylmer), apaixonando-se pela filha adoptiva deste, a ex-refém da Lígia, também chamada Lígia (Deborah Kerr). Procurando o favor do imperador Nero (Peter Ustinov), Vinícius consegue que Lígia lhe seja atribuída, mas no processo descobre que esta segue teimosamente uma fé diferente, chamada cristianismo, e ensinada por professores da Palestina, como Paulo de Tarso (Abraham Sofaer) e Pedro, o apóstolo (Finlay Currie). Enquanto isso, Nero decide queimar Roma, para se deleitar com o acontecimento e construir nova cidade. Vinícius percebe então que os bairros onde vivem os cristãos serão os mais afectados, tendo de decidir se deve arriscar a vida para correr em salvação de Lígia.

Análise:

Em 1952 era a vez de a grande MGM entrar no mundo dos épicos bíblicos, fazendo uso da cor Technicolor, e criando uma obra onde tudo iria ser enorme, desde os cenários ao guarda-roupa, passando à banda sonora (do célebre Miklós Rózsa) a qual tinha até direito a duas longas suites instrumentais (no inicío e fim, sem filme a decorrer), num hábito extensível a outros filmes da época. Finalmente, há que notar como essa pretensa grandiosidade se reflectia na duração, gerando um filme com quase três horas.

Conduzido pelo produtor Sam Zimbalist, “Quo Vadis” foi a quarta adaptação (sendo as outras de 1901, 1912 e 1924) do romance que Henryk Sienkiewicz publicara em 1896, e no qual unira habilmente dois temas que prenderiam as atenções nesta época do cinema de Hollywood, o contexto bíblico, e o Império Romano. Para o realizar foi chamado Mervyn LeRoy, um realizador que sempre se confessou inspirado pelos épicos dos anos 1920 de Cecil B. DeMille, e que ganharia fama como realizador de filmes de gangsters e de musicais, tendo chegado a chefe de produção da MGM onde foi o responsável pelo sucesso “O Feiticeiro de Oz” (The Wizard of Oz, 1939). Podendo finalmente responder ao seu mestre, DeMille, LeRoy criou um dos mais grandiosos filmes de Hollywood até então.

Inaugurando uma tendência que se repetiria por vários anos, a MGM mudou a produção para a Itália. Tal decisão terá tido como razão inicial o aproveitamento de alguns cenários naturais, para logo se tornar evidente que existia em Roma um estúdio modernamente equipado (Cinecittà), e muitos técnicos e actores secundários capazes, que podiam tornar toda a produção incrivelmente mais económica. Por essa razão todo o filme seria filmado em Roma, e nos figurantes podem ser encontradas futuras estrelas, como Sophia Loren e Bud Spencer, enquanto o futuro realizador Sergio Leone servia como assistente de LeRoy.

Quanto à história, “Quo Vadis” conta os primeiros confrontos entre o cristianismo, e o poder despótico dos imperadores de Roma, neste caso nas mãos do louco Nero. O filme acompanha o regresso a Roma do triunfante general Marco Vinícius (Robert Taylor). Em casa do general Pláutio (Felix Aylmer), Vinícius vai-se apaixonar pela filha adoptiva deste, Lígia (Deborah Kerr), que obterá de Nero (Peter Ustinov) como prémio, pois Lígia é uma refém de guerra. Só que no confronto com Lígia, Vinicius encontra um espírito rebelde e tenaz, inspirado por uma estranha fé, o Cristianismo, propagado pelos judeus Paulo de Tarso (Abraham Sofaer) e Pedro, o apóstolo (Finlay Currie).

Por seu lado, Nero, procura aumentar os seus prazeres, e satisfazer o seu ego, criando diversões, dando azo ao seu sadismo e busca permanente de gratificação e aceitação. Se por um lado é tolerado cinicamente por Petrónio (Leo Genn) e Séneca (Nicholas Hannen), por outro é estimulado pelos sádicos Tigelino (Ralph Truman) e Pompeia (Patricia Laffan), sua esposa. É destes a ideia de culpar os cristãos pelo incêndio de Roma, ordenado pelo próprio Nero como inspiração para a sua poesia. Tal leva Vinícius a escolher lados, abandonando a sua posição de romano, e juntando-se aos cristãos com os quais é condenado a morrer na arena.

Bem à medida do seu tempo, “Quo Vadis” junta a grandiosidade romana, para usar essa opulência e sobranceria como exemplos do pecado que a nova fé cristã virá condenar. Nesse sentido o filme adopta uma perspectiva quase profética, onde várias vezes se alude ao Cristianismo como a força que o mundo espera para se reordenar, e acabar com tudo o que é mau (o despotismo romano). Nessa transição, Marco Vinícius é o homem que personifica a transformação, começando como um romano tradicional, para perceber depois que algo tem de mudar, deixando-se cativar pela fé cristã que inicialmente lhe parecera tola, para finalmente, em plena arena dar por si a rezar ao Deus cristão.

Ao lado de um Robert Taylor, como sempre heróico, mas muito hirto, está Deborah Kerr no papel da irredutível cristã, que não cederá um milímetro na defesa da sua fé, ainda que isso signifique a sua morte. Para amenizar o forte contexto histórico-político-religioso, a história de Vinícius e Lígia é uma cândida história de amor, que surge de modo forçado, pois Lígia apaixona-se no momento em que repudia Vinícius por dispor dela como escrava. Este tipo de amor como fantasia masculina de submissão está também presente na história de Petrónio, por quem a escrava Eunice (Marina Petri) se apaixona incondicionalmente, vendo cada vergastada recebida como um gesto de amor.

Se a descrição da vida dos primeiros cristãos em Roma é um factor de interesse, não devem ser esquecidas as inúmeras incorrecções históricas de “Quo Vadis”. Estas vão desde os simples anacronismos (o jogo do xadrez, uso de quadrigas no exército, Nero a falar francês) a erros factuais (a confusão no nome da mulher de Nero; as datas e circunstâncias das mortes de São Pedro, Nero, Petrónio, Tigelino, que na verdade morreram todos em anos diferentes em acontecimentos sem qualquer relação). No sentido inverso está a banda sonora de Rózsa, famosa por incorporar muitos excertos de melodias gregas e romanas.

Mas “Quo Vadis” destaca-se positivamente por muitos factores, desde a força da sua história, às imagens de Roma. Toda a feérica sequência do incêndio fica na memória, bem como a sequência do martírio dos cristãos na arena (mesmo que não vejamos nenhuma cena explícita de morte, ficamos quase com a impressão de que vimos tudo).

Finalmente, e porque ocupa uma parte central no filme, a composição do personagem de Nero por Peter Ustinov é marcante. Ustinov consegue divertir-nos ao mesmo tempo que nos horroriza com um Nero efeminado, decadente, fraco, infantil, prepotente, e a muitos níveis louco, quase como um personagem maior que a história. Provavelmente ninguém que veja “Quo Vadis” conseguirá depois conceber um Nero histórico diferente do de Peter Ustinov.

“Quo Vadis” seria nomeado para oito Oscars da Academia, não tendo vencido nenhum, Já nos Globos de Ouro receberia os prémios para melhor Fotografia, e Melhor Actor Secundário (Peter Ustinov). O filme foi um estrondoso sucesso de bilheteira, tendo sido o mais rentável filme de 1951. Seria, a partir de então o modelo a ultrapassar.

Peter Ustinov

Produção:

Título original: Quo Vadis; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1951; Duração: 167 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 8 de Novembro de 1951 (EUA), 9 de Outubro de 1952 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Mervyn LeRoy, Anthony Mann [não creditado]; Produção: Sam Zimbalist; Argumento: John Lee Mahin, S.N. Behrman, Sonya Levien [baseado no romance homónimo de Henryk Sienkiewicz]; Música: Miklós Rózsa; Fotografia: Robert Surtees, William V. Skall [cor por Technicolor]; Montagem: Ralph E. Winters; Direcção Artística: William A. Horning, Cedric Gibbons, Edward C. Carfagno; Cenários: Hugh Hunt, Elso Valentini [não creditado]; Figurinos: Herschel McCoy; Caracterização: Charles E. Parker; Efeitos Especiais: Tom Howard, A. Arnold Gillespie, Donald Jahraus; Coreografia: Marta Obolensky, Auriel Millos; Director de Produção: Henry Henigson [não creditado].

Elenco:

Robert Taylor (Marco Vinícius), Deborah Kerr (Lígia), Leo Genn (Petrónio), Peter Ustinov (Nero), Patricia Laffan (Pompeia), Finlay Currie (Pedro), Abraham Sofaer (Paulo), Marina Berti (Eunice), Buddy Baer (Ursus), Felix Aylmer (Pláutio), Nora Swinburne (Pompónia), Ralph Truman (Tigelino), Norman Wooland (Nerva), Peter Miles (Nazarius), Geoffrey Dunn (Terpnos), Nicholas Hannen (Seneca), D.A. Clarke-Smith (Phaon), Rosalie Crutchley (Acte), John Ruddock (Chilo), Arthur Walge (Croton), Elspeth March (Miriam).

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