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A torinói lóEm 1889, quando vivia em Turim, o filósofo Friedrich Nietzsche testemunhou os maus tratos a um cavalo que puxava uma carroça, agarrou-se a ele a chorar, e voltou para casa abatido, vivendo dez anos sem dizer mais uma palavra. O filme responde à pergunta “e que aconteceu ao cavalo?”, que vemos pertencer a um velho camponês (János Derzsi), que vive numa remota casa de pedra no campo, com a sua filha (Erika Bók), numa rotina repetidamente opressora, onde só existe desolação e pobreza.

Análise:

Como previamente anunciado pelo próprio, Em 2011 ofereceu-nos o seu último trabalho para cinema, “O Cavalo de Turim”, escrito, como habitualmente, em parceria com László Krasznahorkai. Definido pelo próprio Tarr como um filme sobre o peso da vida, o filme começa por contar de um encontro de Nietzsche com um cavalo que estava a ser maltratado, e que o filósofo abraçou a chorar. Depois disso foi levado a casa, onde murmurou “Mãe! Como sou estúpido!”, para nunca mais dizer ou escrever uma palavra. A pergunta que Tarr se propõe responder é, o que aconteceu com o cavalo?

Para tal somos transportados a uma casa do final do século XIX, numa zona erma do campo, onde vivem, isoladamente de tudo, pai (János Derzsi) e filha (Erika Bók). As suas condições de vida são duríssimas, e a sua rotina incrivelmente monótona e exigente. Através da câmara de Tarr (em apenas 30 takes, feitas de longos planos-sequência que chegam a ultrapassar os dez minutos), acompanhamos, ao detalhe, cada movimento do duo. Vemos o pai a chegar com a carroça puxada pelo cavalo, o desaparelhar do cavalo, e seu resguardo no estábulo, o arrumar da carroça, o alimentar do cavalo, e regresso a casa, uma humilde casa de pedra com apenas uma divisão. Lá dentro vemos como a filha auxilia o pai a despir-se e vestir-se, uma vez que este tem o braço direito paralisado, como prepara as refeições que consistem apenas de uma batata cozida, e se deita para esperar novo dia.

Vemos seis dias dessa existência. Por entre a ida ao poço para trazer água, reaparelhar o cavalo para transportar mercadorias, e o regresso a casa, a rotina é apenas quebrada duas vezes. Na primeira, quando o vizinho Bernhard (Mihály Kormos, com voz de Lajos Kovács) vem comprar bebida, e fala um pouco da sua visão do mundo, naquilo que Tarr chamou uma sombra nietzscheana, na qual descreve que o mundo está a ser estragado tanto pelos homens como por uma força superior. Na segunda um grupo de ciganos vem atormentar os protagonistas, falando da sua emigração para os Estados Unidos. Vemos entretanto que o poço ficou sem água, a saúde do cavalo piorou, e nada parece restar a pai e filha, a qual nos tempos livres lê (dificilmente) um livro deixado por Bernhard, que Tarr definiu como uma anti-Bíblia. Mas ante estas ideias filosóficas, Tarr responde com a mesma existência visceral, desligada de quaisquer palavras (tanto quanto a existência do cavalo possa ser mais inconsequente, mas tão real como a de Nietzsche).

A técnica habitual de Béla Tarr, feita de longos planos-sequência (destas vez com travellings que nos levam pela casa e espaços onde se movem os personagens), como o olhar de um observador distante, é aqui ampliadora da aridez e monotonia da vida de pai e filha. Os diálogos são mínimos, e o primeiro surge já com mais de 20 minutos de filme. Quase como num filme mudo, onde os elementos comandam mais que o diálogo, e que lhe tem valido comparações a clássicos como “O Vento” (The Wind, 1928) de Victor Sjöström.

No seu habitual realismo de tempos e gestos, tudo nos parece mais duro, lento, repetitivo e sem sentido. É a força da imagem, a despir de sentimentos a realidade. Vemos uma rotina que se deteriora, sem esperança de algo melhor, num quotidiano duríssimo. Sobre as imagens acrescenta-se uma banda sonora que tanto é feita da música (também ela repetitiva) de Mihály Vig, como um leitmotiv hipnónitco que se insinua de modo marcante, como a do som do vento constante e agressivo, que traz ainda mais a sensação de desolação e desconforto que atravessam todo o filme.

Nunca se chega a perceber de que vivem os protagonistas, nem para que são as viagens da carroça. A rotina que vemos nunca é completa, tal como imperceptíveis são as razões da partida e regresso de carroça, com todos os seus parcos haveres. Do mesmo modo, o final parece enigmático, com uma luz que simplesmente desaparece, quando o duo já nem consegue acender velas em casa, como se a luz neste caso não fosse algo literal, mas sim metáfora para a esperança dos protagonistas.

“O Cavalo de Turim” venceu o Grande Prémio do Júri do Festival de Berlim, e foi pré-nomeado aos Oscars como Melhor Filme Estrangeiro.

János Derzsi e Erika Bók

Produção:

Título original: A torinói ló; Produção: TT Filmmûhely / Vega Film / Zero Fiction Film / Movie Partners In Motion Film; Produtores Executivos: Elizabeth Redleaf, Mike S. Ryan, Christine K. Walker; País: Hungria / França / Alemanha / Suíça / EUA; Ano: 2011; Duração: 145 minutos; Estreia: 15 de Fevereiro de 2011 (Belin Film Festival, Alemanha), 31 de Março de 2011 (Hungria), 14 de Junho de 2012 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Béla Tarr, Ágnes Hranitzky; Produção: Martin Hagemann, Juliette Lepoutre, Marie-Pierre Macia, Gábor Téni, Ruth Waldburger; Argumento: László Krasznahorkai, Béla Tarr; Música: Mihály Vig; Fotografia: Fred Kelemen [preto e branco]; Montagem: Ágnes Hranitzky; Design de Produção: László Rajk; Efeitos Especiais: Zoltán Pataki.

Elenco:

János Derzsi (Ohlsdorfer), Erika Bók (Filha de Ohlsdorfer), Mihály Kormos (Bernhard (voz de Lajos Kovács)), Mihály Ráday (Narrador (voz)).

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