Etiquetas

, , , , , , , , , , , ,

David and BathshebaDavid (Gregory Peck), o ungido de Deus, lidera os hebreus, com o apoio do profeta Nataniel (Raymond Massey). Sob o seu reinado, o reino cresce, os inimigos vão sendo derrotados, e a arca da aliança é trazida em triunfo para a sua capital. Mas tudo isto parece perder o interesse no dia em que David vê Betsabé (Susan Hayward). Embora ela seja casada com Urias (Kieron Moore), um dos soldados de David, o rei não resiste a tão bela mulher, e ambos iniciam um relacionamento ilícito. Só que quando Betsabé engravida torna-se demasiado difícil esconder o adultério. David orquestra então a morte de Urias, e uma série de catástrofes abatem-se sobre o reino. Poderá David deixar-se governar pelas suas vontades humanas, e desobedecer à lei divina, da qual nem ele está acima?

Análise:

Da iniciativa de Darryl F. Zanuck, a força criativa por detrás da Tweentieth Century Fox, surgia em 1951 “David e Betsabé”, um filme baseado no Segundo Livro de Samuel, do Antigo Testamento, sobre os amores ilícitos do segundo rei de Israel.

Para o dirigir foi convidado Henry King, um realizador consagrado em diversos géneros, e capaz e liderar um projecto ambicioso, onde a Fox, fazendo uso da Technicolor, de cenários grandiosos e centenas de figurantes, pretendia entrar no mercado dos épicos bíblicos que marcaria os anos 1950 em Hollywood. Com música (também ela épica) de Alfred Newman, e argumento de Philip Dunne, “David e Betsabé” destaca-se pela relação entre Gregory Peck e Susan Hayward, então duas das maiores estrelas de Hollywood.

O filme conta a história dessa relação que é a de David (Peck), o ungido por Deus, segundo rei de um Israel unificado, vencedor de todos os inimigos, trazendo paz e prosperidade ao povo de Deus, e de Betsabé (Hayward), a esposa de Urias o hitita (Kieron Moore), soldado de David.

Como Betsabé é casada, David, o representante de Deus na Terra, vai desobedecer à lei divina, para viver uma relação adúltera com a mulher que lhe dá a única coisa que ele ainda não ter: amor. Todo o filme se torna um duelo entre David o rei, e David o homem. De um lado está a tradição, as leis de Moisés (bem claras na cena em que os protagonistas vêem o apedrejamento de uma mulher adúltera), e a submissão a Deus, bem expressa nas intervenções do profeta Nataniel (Raymond Massey), verdadeira consciência religiosa de Israel. Do outro está o homem David, finalmente feliz nos braços de Betsabé, que quer apenas ser humano, viver de modo simples, como o pastor que um dia foi.

Com a gravidez de Betsabé, David tem de agir, e orquestra a morte de Urias. É uma morte quase desejada por um homem que coloca a sua devoção ao reino acima das paixões humanas, e por isso, aos olhos de David, não merecendo a mulher que tem por esposa, mesmo que a consciência colectiva pudesse ver no seu gesto aquilo que era esperado de um devoto hebreu. É Urias quem pede para ser colocado na frente de batalha, e é por sua impulsividade que é morto em combate. Mas na consciência de David é ele próprio o culpado.

Por isso, quando a seca e a morte se abatem sobre o reino, é David o culpado aos olhos de todos, numa relação onde o rei é a terra, e os infortúnios são causados pelo merecimento do rei. Dá-se aqui o momento mais religioso do filme, com a submissão de David a Deus e um perdão (o acto de tocar a arca, que já antes matara alguém puro de coração). Fica a ideia que não é só um rei que faz compromissos, mas também Deus, que precisa da união do seu povo, e por isso perdoa David, o qual sofre com a separação, e a morte do seu filho.

Valendo sobretudo pela psicologia associada a David, “David e Betsabé” padece da sua lentidão, como se todo o filme fosse uma preparação para as preces submissas do seu final. Destacam-se no entanto as interpretações. Gregory Peck, seguro (embora a braços com problemas de saúde decorrentes da sua então dependência do álcool) e escolhido por Zanuck por ter, segundo o produtor, um rosto bíblico. Ao seu lado brilha ainda Susan Hayward, que ao contrário de outras heroínas bíblicas do seu tempo, usa a contenção como uma arma. Em vez de compor uma Betsabé sedutora ou manipuladora, Hayward limita-se a ser o que é, uma mulher bela, que sabe das suas armas, e não precisa de as usar. Esse lado discreto fortalece um par de protagonistas, que assim parece conduzir os seus personagens para uma inevitabilidade ainda mais humana e digna da nossa compaixão.

Destaque final para a fotografia de Leon Shamroy, que perfeitamente imbuído do espírito de épico desejado por Zanuck, compõe cada plano como se fosse uma pintura, e pinta o ecrã com cores vivas de uma enorme beleza, fazendo cada quadro valer por si próprio, trate-se de opulentos interiores, ou áridas paisagens de exteriores. Perdoa-se por isso o facto de que o rigor histórico fique desde logo à porta, e seja possível encontrar cenas impossíveis, como danças do véu para entretenimento de uma corte ociosa. “David e Betsabé” foi exactamente aquilo que a Fox desejava, tornando-se o maior sucesso de bilheteira de 1951.

Gregory Peck e Rita Hayward

Produção:

Título original: David and Bathsheba; Produção: Twentieth Century Fox Film Corporation; País: EUA; Ano: 1951; Duração: 115 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox Film Corporation; Estreia: 10 de Agosto de 1951 (EUA), 12 de Abril de 1952 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Henry King; Produção: Darryl F. Zanuck; Argumento: Philip Dunne; Música: Alfred Newman; Orquestração: Edward B. Powell; Fotografia: Leon Shamroy [cor por Technicolor]; Montagem: Barbara McLean; Direcção Artística: Lyle R. Wheeler, George W. Davis; Cenários: Thomas Little, Paul S. Fox; Figurinos: Edward Stevenson; Caracterização: Ben Nye; Efeitos Visuais: Fred Sersen; Direcção de Produção: Joseph C. Behm [não creditado].

Elenco:

Gregory Peck (Rei David), Susan Hayward (Betsabé), Raymond Massey (Nataniel), Kieron Moore (Urias), James Robertson Justice (Abisai), Jayne Meadows (Mical, Esposa de David), John Sutton (Ira), Dennis Hoey (Joab), Gilbert Barnett (Absalão, Segundo Filho de David) [não creditado], Francis X. Bushman (Rei Saul) [não creditado], Lumsden Hare (Velho Pastor) [não creditado], Paula Morgan (Adúltera) [não creditado], Paul Newlan (Samuel) [não creditado], Leo B. Pessin (David como criança) [não creditado], Allan Stone (Amnon) [não creditado], Walter Talun (Golias) [não creditado], Gwen Verdon (Dançarina) [não creditado], Holmes Herbert (Jesse) [não creditado], George Zucco (Embaixador Egípcio) [não creditado].

Anúncios