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Samson and DelilahCerca de 1000 anos antes de Cristo, os judeus vivem oprimidos pelos filisteus. Entre eles, Sansão (Victor Mature), juiz da tribo de Dan, para desgosto dos seus pais, quer casar com a filistina Semadar (Angela Lansbury), prometida ao chefe militar Ahtur (Henry Wilcoxon). Para impressionar os filisteus Sansão é levado pela irmã de Semadar, Dalila (Hedy Lamarr) para matar um leão que eles vão caçar. Sansão mata o leão com as próprias mãos, e em troca o rei filisteu (George Sanders) dá-lhe a mão de Semadar. Mas a cerimónia do casamento corre mal, com rivalidades filistinas a tornarem o evento numa tragédia, e Sansão acaba por fugir. Quem não o perdoa pela troca é Dalila, que engendra um plano para o seduzir e descobrir o segredo da sua força sobre-humana.

Análise:

Com a anunciada crise na indústria cinematográfica, causada pelo advento da televisão, e a perda dos monopólios decretada em tribunal no caso “United States v. Paramount Pictures, Inc.” de 1948, o studio system definhava. Numa tentativa de mudar as tendências, alguns estúdios optaram pelo grande espectáculo, e a Paramount foi pioneira no ressuscitar do género bíblico, recuperando um tipo de filmes que eram conhecidos como “Sword and sandal” (espada e sandália), incidindo sobre a antiguidade clássica e pré-classica, descrita com grande solenidade, em grandes produções, muitas vezes com histórias assentes sobre a Bíblia.

Esse é caso de “Sansão e Dalila”, história retirada do Livro de Juízes, do Antigo Testamento, e que nos fala de Sansão, um juiz dos hebreus que, devido à sua fé, era detentor de força sobre-humana, que colocava ao serviço do seu povo (a tribo de Dan), oprimida pela chegada dos Povos do Mar, conhecidos na Bíblia como Filisteus.

Para o produzir e realizar, nem mais que o pioneiro de Hollywood, Cecil B. DeMille, o qual liderara a primeira fase de filmes bíblicos, nos anos 1920, nomeadamente com “Os Dez Mandamentos” (The Ten Commandments, 1923) e “O Rei dos Reis” (The King of Kings, 1927). Desta vez servido pela cor da Technicolor, DeMille voltaria a conquistar as plateias, naquele que seria o antepenúltimo filme de uma longa carreira.

Como base do argumento estava Sansão (Victor Mature), o hebreu com força divina, apaixonado da filistina Semadar (Angela Lansbury), prometida do general filisteu Ahtur (Henry Wilcoxon). Quando, numa caçada a um leão, Dalila (Hedy Lamarr), irmã mais nova de Semadar incita Sansão a participar, este mata o leão com as suas mãos, para grande admiração do rei filisteu, o saran de Gaza (George Sanders). Este concede um desejo a Sansão, o qual pede uma noiva. Mas quando Dalila pensa ser ela a eleita, Sansão escolhe Semadar, lançando Dalila numa fúria sem fim.

O resto do filme lembra a célebre frase de Shakespeare de que não há fúria no inferno como a de uma mulher desprezada. Dalila vai usar as suas intrigas para provocar o caos no casamento, levando à fuga de Sansão. Mais tarde vai convencer o saran, que só ela o pode aprisionar. E se num primeiro momento parece que Dalila esquece a sua origem filistina, para viver idilicamente no deserto com Sansão, que entretanto conquista, é a chegada da hebraica Miriam (Olive Deering), convocando-o para ajudar os seus, que vai fazer com que Dalila volte a sentir a sua fúria. Usa então da arma que Sansão lhe dera num momento de amor, o segredo da sua força, que reside no cabelo.

Tosquiado, Sansão é facilmente aprisionado e humilhado pelos filisteus, algo com que Dalila nunca conseguirá viver em paz. Por isso irá conceder ao seu amado a hipótese de vingança, na apoteótica destruição do templo filisteu, causando a morte de todos os seus captores.

Impregnado de anacronismos, o filme de DeMille inicia-se com frases de incitação à liberdade, que mais parecem dedicadas às realidades do século XX e da Guerra Fria. Daí às palavras de apoio ao povo judeu é um passo, quando se estava à beira da criação do estado de Israel como consequência do holocausto sofrido pelos judeus na Segunda Guerra Mundial. A isto não é alheia a ascendência judaica de DeMille, a mesma dos fundadores da Paramount, Adolph Zukor e Jesse L. Lasky.

Com o chamariz que era a Technicolor, mas ainda num ecrã de proporções convencionais, DeMille apostou na espectacularidade. Destacam-se os luxuosos interiores e guarda-roupa filisteus, a luta de Sansão com o leão e a sequência final da destruição do templo. Não espanta por isso que “Sansão e Dalila” tenha sido essencialmente elogiado pelos seus cenários e efeitos especiais, tendo ganho Oscars para Direcção Artística e Guarda-Roupa.

Mas, numa história que se torna previsível, com um tema difícil de se tornar original, são algumas das interpretações que tornam o filme notável. E se Victor Mature (num papel para o qual foram considerados Burt Lancaster e Steve Reeves) é igual a si próprio no papel do bruto irredutível, e George Sanders não destoa como o vilão de charme, é Hedy Lamarr quem chama a si o maior brilho.

Compondo uma Dalila astuta e maquiavélica, Lamarr (que foi escolhida depois de DeMille considerar meia Hollywood, incluindo Jean Simmons, Lana Turner e Rita Hayworth) é constantemente sedutora e perigosa. A sua Dalila é movida por impulsos humanos, o amor a um homem que a rejeita. É implacável quando planeia e executa, mas sofredora quando deseja e anseia. É tão fria quando persegue um objectivo quanto é sensível quando se vê perante as suas consequências. Por isso a Dalila de Lamarr tenta, maquina, trai, vinga-se, mas também ama e sofre. Fá-lo sempre com sensualidade, por vezes de um modo pérfido, como quando se entrega a Sansão no seu cativeiro, quase pela luxúria de se sentir estrangulada pelas suas mãos.

Com forte aposta da Paramount, e um marketing muito bem cuidado, “Sansão e Dalila” foi um tremendo sucesso de bilheteira, ultrapassando todas as expectativas, ainda que a crítica não lhe tenha sido completamente favorável. Estava lançado um género que duraria quase duas décadas e arrastaria consigo público, muitos dos recursos de Hollywood, e por fim, quase a falência de algumas das suas maiores produtoras.

Como curiosidade acrescente-se que, em “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950) os personagens visitam o set de “Sansão e Dalila”, onde Cecil B. DeMille se interpreta a si próprio, e se vêem outros actores deste filme nas suas roupas de cena.

Victor Mature e Hedy Lamarr

Produção:

Título original: Samson and Delilah; Produção: Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1949; Duração: 132 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 21 de Dezembro de 1949 (EUA), 16 de Fevereiro de 1951 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Cecil B. DeMille; Produção: Cecil B. DeMille; Argumento: Jesse Lasky Jr., Fredric M. Frank [a partir da adaptação de Harold Lamb e Vladimir Jabotinsky do livro “Judge and Fool, aka Samson the Nazarite, Samson & Prelude to Delilah” de Vladimir Jabotinsky e do “Livro dos Juízes, 13-16” da Bíblia Sagrada]; Música: Victor Young; Fotografia: George Barnes [cor por Technicolor]; Montagem: Anne Bauchens; Direcção Artística: Hans Dreier, Walter H. Tyler, John Meehan [não creditado]; Cenários: Sam Comer, Ray Moyer, Maurice Goodman [não creditado]; Figurinos: Edith Head, Gile Steele, Dorothy Jeakins, Gwen Wakeling, Elois Jenssen; Caracterização: Wally Westmore; Efeitos Visuais: Gordon Jennings, Paul K. Lerpae, Devereaux Jennings; Direcção de Produção: Russ Brown [não creditado], Frank Caffey [não creditado], Richard Johnston [não creditado].

Elenco:

Hedy Lamarr (Dalila), Victor Mature (Sansão), George Sanders (O Saran de Gaza), Angela Lansbury (Semadar), Henry Wilcoxon (Ahtur), Olive Deering (Miriam), Fay Holden (Hazelelponit), Julia Faye (Hisham), Russ Tamblyn (Saul), William Farnum (Tubal), Lane Chandler (Teresh), Moroni Olsen (Targil), Francis McDonald (Contador de Histórias), William ‘Wee Willie’ Davis (Garmiskar), John Miljan (Lesh Lakish), Arthur Q. Bryan (Mercador Filisteu Gordo sem Túnica), Kasey Rogers [como Laura Elliot] (Espectadora), Victor Varconi (Senhor de Ashdod), John Parrish (Senhor de Gath), Frank Wilcox (Senhor de Ekron), Russell Hicks (Senhor de Ashkelon), Boyd Davis (Primeiro Sacerdote de Dagon), Fritz Leiber (Lord Sharif), Mike Mazurki (Chefe dos Soldados Filisteus), Davison Clark (Príncipe Mercador), George Reeves (Mensageiro Ferido), Pedro de Cordoba (Bar Simon), Frank Reicher (Barbeiro da Aldeia), Colin Tapley (Príncipe).

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