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A Londoni ferfiMaloin (Miroslav Krobot), um vigilante numa zona portuária, observa uma luta entre homens que culmina na queda de um dos homens ao mar, enquanto o outro, Brown (János Derzsi), foge. Quando Maloin acorre ao local, tudo o que encontra é uma mala, contendo dinheiro. No dia seguinte, na taberna, Maloin ouve o inspector Morrison (István Lénárt) confrontar Brown, dizendo-lhe que sabe que ele que roubou dinheiro e o quer de volta. Tal perturba Maloin que tem de decidir o que fazer com o dinheiro encontrado, enquanto vai espalhando o seu nervosismo para cima da esposa Camélia (Tilda Swinton) e da filha Henriette (Erika Bók).

Análise:

Em 2007, Béla Tarr, continuando a sua internacionalização, filmou parcialmente em França um filme adaptado de um livro do célebre escritor policial belga Georges Simenon. Tratou-se, mais uma vez, de uma co-produção envolvendo vários países, e com argumento escrito a meias com o seu habitual colaborador László Krasznahorkai, e usando principalmente actores húngaros, a que se juntavam o checo Miroslav Krobot e a inglesa Tilda Swindon.

Foi a aproximação de Tarr ao imaginário do Film Noir, numa produção marcada por dificuldades, entre as quais o suicídio do produtor Humbert Balsan. Os cortes financeiros levaram à perda de alguns dos sets em plena rodagem, e dificuldades técnicas como ruídos constantes obrigaram à dobragem de todas as vozes (em inglês e francês), a qual correu mal.

A história foca-se em Maloin (Miroslav Krobot), um trabalhador numa zona portuária, interface com linhas de ferro, onde serve de vigia. Numa noite, Maloin testemunha altercações violentas entre alguns homens, que resultam na queda de um ao mar. Quando se aproxima, Maloin descobre uma mala, que recolhe, e se revela estar cheia de dinheiro.

A suspeita de que está a ser vigiado por um dos homens, de nome Brown (János Derzsi) enerva Maloin, sentindo culpa e medo, o que o torna irascível em casa, para com a esposa Camélia (Tilda Swinton) e a filha Henriette (Erika Bók). Na taberna que frequenta, Maloin ouve uma conversa entre o inspector inglês Morrison (István Lénárt) e Brown, com o inspector a acusar Brown de ter roubado o dinheiro. Mais tarde Morrison visita Maloin no seu posto de trabalho, para inquirir sobre o que este poderá ter visto na noite do roubo.

No dia seguinte Maloin encontra, na mesma taberna, Morrison a interrogar a esposa de Brown (Ági Szirtes), que ele ameaça pelo não cumprimento do marido. Em casa, Henriette diz ao pai que encontrou um homem na cabana junto ao mar, e fechou-o lá dentro. Maloin vai à cabana, entra e sai visivelmente perturbado. Procura então Morrison, devolve o dinheiro, e confessa ter morto Brown. Morrison confirma que Brown morreu em luta com Maloin na cabana deste, e regressa, com dois envelopes, um para Maloin, que para ele agiu em legítima defesa, e merece parte da recompensa pelo dinheiro encontrado, e outro para a agora viúva de Brown, a quem ele pede desculpa.

Mantendo as características do seu cinema, feito de longos planos-sequência, onde a montagem parece ausente, Tarr deixa os personagens comportarem-se num realismo que os torna quase irrelevantes para a câmara, que nem sempre os acompanha. Os ritmos continuam lentos, e as interpretações minimalistas, com grandes planos a deixarem ao espectador o preenchimento dos espaços, que são o interior dos personagens. Há, no entanto, em “O Homem de Londres”, uma maior formatação num modo convencional de filmar, estruturado numa narrativa mais coesa que nos filmes precedentes de Tarr, que se preocupa mais com uma psicologia pessoal, que com um difuso realismo social de características metafóricas. Talvez por isso, o filme foi um pouco mais mal recebido pela crítica que os dois anteriores.

Como dito atrás, é o universo Noir que marca “O Homem de Londres”. Se ele está implícito na obra de Simenon, através dos olhos de Maloin (com a perspectiva do espectador a confundir-se muitas vezes com a do personagem), é claro estarmos na presença de alguém, alheado da sua sociedade, em conflitos internos (como se vê na sua interacção com a família), e que decide por conta própria os assuntos que o ultrapassam. Maloin entra na história do dinheiro roubado por acaso, decide ficar com ele, alheando-se de moralidade ou consequências, e é quase por acaso que sai também da história, quando confrontado com Brown, sem o esperar.

Dir-se-ia que há duas histórias em Maloin. Por um lado a sua, com uma casa para manter, e o futuro de uma filha a decidir, entre discussões e incompreensões. Por outro a história da mala de dinheiro, que é para ele (como para nós) apenas um acaso, algo a que ele não pertence, e que não o leva a planear, agir, entusiasmar-se. Tarr mantém, como habitual, uma fotografia nublada, de cinzentos húmidos e escuros, onde a imagem é ela própria perpetradora de distância, frieza e cinismo.

A mesma história de Simenon resultara já nos filmes “L’homme de Londres” (1943) de Henri Decoin in 1943, e “O Porto da Tentação” (Temptation Harbour, 1947) de Lance Comfort.

Produção:

Título original: A londoni férfi [Título Inglês: The Man from London]; Produção: TT Filmmûhely / 13 Productions / Cinema Soleil / Von Vietinghoff Filmproduktion (VVF) / Black Forest Films; Produtores Executivos: Wouter Barendrecht, János Hevesi T., Juliusz Kossakowski, Lajos Szakácsi, Michael J. Werner; País: Hungria / Alemanha/ França; Ano: 2007; Duração: 133 minutos; Estreia: 23 de Maio de 2007 (Cannes Film Festival, França), 1 de Novembro de 2007 (Grécia), 31 de Janeiro de 2008 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Béla Tarr, Ágnes Hranitzky; Produção: Humbert Balsan, Christoph Hahnheiser, Paul Saadoun, Gábor Téni, Joachim von Vietinghoff; Co-Produção: Miriam Zachar; Produtor Associado: Béla Tarr; Argumento: Béla Tarr, László Krasznahorkai [baseado no livro “L’Homme de Londres” de Georges Simenon]; Música: Mihály Vig; Fotografia: Fred Kelemen [preto e branco]; Montagem: Ágnes Hranitzky; Design de Produção: Jean-Pascal Chalard, Ágnes Hranitzky, László Rajk; Direcção Artística: Péter Brill; Cenários: Sándor Katona, Béla Zsolt Tóth; Figurinos: János Breckl; Efeitos Especiais: Jason Troughton; Direcção de Produção: Béatrice Chauvin, Pierre Dieulafait.

Elenco:

Miroslav Krobot (Maloin), Tilda Swinton (Camélia), Erika Bók (Henriette), János Derzsi (Brown), Ági Szirtes (Sra. Brown), István Lénárt (Morrison), Gyula Pauer (Tapster), Mihály Kormos, Kati Lázár (Mulher do Talhante).

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