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They All LaughedJohn Russo (Ben Gazzara) é um detective privado cuja agência o tem a seguir a mulher casada Angela Niotes (Audrey Hepburn), a mando do marido desta. Ao mesmo tempo os seus colegas Charles Rutledge (John Ritter) e Arthur Brodsky (Blaine Novak) seguem a também casada Dolores Martin (Dorothy Stratten) e o talvez namorado desta, Jose (Sean H. Ferrer). Pelo meio surgem Christy Miller (Colleen Camp), cantora country e ex-namorada ciumenta de John, a taxista Sam (Patti Hansen), entre outros que vão interferindo nos casos. Como se não bastasse, tanto John como Charles se vão apaixonar pelas mulheres que seguem.

Análise:

“Romance em Nova Iorque” ficará sempre para a história como o último filme protagonizado por Audrey Hepburn, que depois disso participaria apenas num telefilme em 1987, e teria um cameo no filme de Steven Spielberg “Sempre” (Always, 1989). Realizado por Peter Bogdanovich, um dos nomes mais importantes da New Hollywood dos anos 1970, o crítico que se tornou realizador assinou alguns trabalhos importantes nessa década, mostrando-se como um recuperador do classicismo de Hollywood, filtrado pelo seu olhar corrosivo e um espírito independente. Tal não é o caso deste filme de 1981, quando a estrela de Bodganovich se parecia apagar.

Com argumento do próprio e do às vezes também actor, e às vezes realizador, Blaine Novak, “Romance em Nova Iorque” é uma espécie de comédia em torno de detectives mais interessados em perseguir caminhos românticos que em resolver os casos para que são destacados, ao mesmo tempo que nos dá um olhar para a sociedade nova-iorquina do início dos anos 80.

O filme ficaria tragicamente marcado pelo assassinato (pelo próprio marido) da lindíssima Dorothy Stratten (com apenas 20 anos), ainda antes da estreia. Tal fez as distribuidoras ter cautela com a estreia do filme, não considerando o momento ideal, e levando Bogdanovich a, depois de muito desesperar, decidir distribui-lo através da sua Moon Pictures, o que, dada a fraca recepção do mesmo, o viria a deixar falido.

“Romance em Nova Iorque” traz-nos as histórias de um trio de detectives privados, que seguem mulheres a pedido dos maridos destas, para lhes investigarem os passos. De um lado está John Russo (Ben Gazzara), que segue Angela Niotes (Audrey Hepburn), mulher de um milionário. Do outro está o par Charles Rutledge (John Ritter) e Arthur Brodsky (Blaine Novak), que segue a jovem esposa Dolores Martin (Dorothy Stratten), que parece ter um namorado fora do casamento, Jose (Sean H. Ferrer).

Pelo meio vão interferir vários personagens. Uma é a ex-namorada de John, a cantora country Christy Miller (Colleen Camp), primeiro com ciúmes de John, depois apaixonada por Jose. Outra é Deborah (Patti Hansen), ou Sam, como lhe chama John, que vai ficando por perto para se divertir com as peripécias do grupo. Outras ainda são as várias mulheres de quem Arthur se vai rodeando.

O resultado é que Charles, depois de tanto seguir Dolores, acaba por se apaixonar por ela, enquanto John se deixa apaixonar por Angela. Ambas as paixões são correspondidas, mas com fins diferentes. Enquanto Dolores decide divorciar-se para prosseguir uma relação com Charles, já Angela, depois de uns dias de felicidade com John, encara a realidade e parte com o marido.

Pretendendo ser uma comédia, “Romance em Nova Iorque” tem uma atmosfera ligeira, onde os personagens de John Ritter e Blaine Novak contribuem com algum burlesco, em perseguições trapalhonas, e métodos pouco convencionais (e convincentes) de seguir alguém. Junta-se-lhes a personagem de Colleen Camp, com uma Christy sempre à beira de um ataque de nervos, e a irritar toda a gente com a sua histeria e mania de controlo. Pelo meio evoluem histórias que tentam ser românticas, sem nunca o chegarem a ser, exceptuando-se talvez alguns olhares de Audrey Hepburn, que conseguem fazer-nos sentir a sua nostalgia por uma vida que nunca chegará a ser sua.

Mas acima de tudo, o que nos fica é a complicação de tramas narrativas, nenhuma delas particularmente interessante, onde raras vezes conseguimos perceber a motivação dos personagens. Se Arthur Brodsky é apenas um Don Juan de terceira, que se diverte na arte de conquistar sem qualquer compromisso (o tal espírito dos anos 80 antes do susto da SIDA), já os restantes personagens são confusos e pouco convincentes. Basta um olhar para Dolores se apaixonar por Charles, e entre as primeiras palavras deste está um pedido de casamento prontamente aceite. Basta um olhar de John Russo, para Angela se deixar levar por ele para a cama. Depois há Christy, primeiro violentamente perseguindo John, depois quase violando Charles, para logo se apaixonar perdidamente por Jose. E para além desta forma inconsistente com que estas relações vão surgindo, juntam-se as motivações do grupo de mulheres que vai rodear os detectives, parecendo que, no final, congeminam um grande plano, que é afinal a conclusão esperada e inevitável.

Se Bogdanovich e Novak queriam dar um retrato de uma sociedade urbana norte-americana do virar da década, o que descrevem é futilidade emocional, onde tudo acontece ao ritmo da música que passa na rádio (no filme há muito country, algum Frank Sinatra, jazz clássico, e até Roberto Carlos), com vida nocturna acelerada, relações inconsequentes, pouco ou nenhum compromisso seja com o que for, o elogio do adultério, e tudo com um sorriso nos lábios.

As interpretações são bastante bidimensionais, com apenas Audrey Hepburn a deixar um véu de subtileza nas emoções da sua Angela, contra um Ben Gazzara (por quem ela se apaixonara na vida real, entre dois filmes consecutivos em conjunto), que apresenta o mesmo sorriso durante todo o filme.

O que resta é uma história entre o burlesco (que não chega a ser cómico) e a ternura (que não chega a ser comovente), polvilhada de personagens inconsequentes, e motivações imperceptíveis. Não espanta que o filme tenha sido um fracasso. Foi uma infeliz despedida para a grande Audrey Hepburn, que apesar de ser cabeça de cartaz, tem um papel bastante curto, cuja elegância e profundidade não chegam para subir o nível do filme.

Produção:

Título original: They All Laughed; Produção: Moon Pictures / Time Life Films; País: EUA; Ano: 1981; Duração: 115 minutos; Distribuição: Moon Pictures; Estreia: 14 de Agosto de 1981 (EUA), 17 de Dezembro de 1982.

Equipa técnica:

Realização: Peter Bogdanovich; Produção: George Morfogen, Blaine Novak; Produtor Associado: Russell Schwartz; Argumento: Peter Bogdanovich, Blaine Novak; Música: Douglas Dilge; Fotografia: Robby Müller [cor por DeLuxe]; Montagem: William C. Carruth, Scott Vickrey; Direcção Artística: Kert Lundell; Cenários: Joe Bird; Figurinos: Peggy Farrell; Caracterização: Mickey Scott, Nilo Jacoponi (Audrey Hepburn); Direcção de Produção: Martin Danzig.

Elenco:

Audrey Hepburn (Angela Niotes), Ben Gazzara (John Russo), Patti Hansen (Sam, Deborah Wilson), John Ritter (Charles Rutledge), Dorothy Stratten (Dolores Martin), Blaine Novak (Arthur Brodsky), Linda MacEwen (Amy Lester), George Morfogen (Leon Leondopolous), Colleen Camp (Christy Miller), Sean H. Ferrer (Jose), Glenn Scarpelli (Michael Niotes), Vassili Lambrinos (Stavros Niotes), Antonia Bogdanovich (Stefania Russo), Sashy Bogdanovich [como Alexandra Bogdanovich] (Georgina Russo).

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