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TörstRut (Eva Henning) regressa de Itália com o marido Bertil (Birger Malmsten), numa viagem emocionalmente turbulenta, na qual manifesta sintomas de depressão. Pelas discussões do casal sobre amor, traições e frustrações passadas, assistimos a flashbacks mostrando que Rut viveu uma relação com o casado Raoul (Bengt Eklund), de quem veio a engravidar e posteriormente a abortar, e ao falhanço da sua carreira de bailarina devido a um problema no joelho. Ao mesmo tempo vamos vendo as deambulações de Viola (Birgit Tengroth), ex-mulher de Bertil, assediada pelo seu psiquiatra Dr. Rosengren (Hasse Ekman), e pela bailarina Valborg (Mimi Nelson), ex-colega de Rut.

Análise:

De novo na Svensk Filmindustri (SF), depois da aventura mais experimental de “A Prisão” (Fängelse, 1949), Ingmar Bergman realizada pela primeira vez um filme do qual não escreveu o argumento. Este foi baseado em várias histórias de Birgit Tengroth, que Bergman convenceu a interpretar um dos papéis, no que é quase um filme dentro do filme. Os temas passam de novo pelas relações amorosas, nomeadamente nos desgastes dos casamentos, vistos de diversos ângulos (o homem casado que trai a esposa, a ex-mulher deixada à beira da depressão, o casal que já não suporta estar junto, tanto quanto não suporta a separação de uma relação com imensos pesos do passado).

Nos papéis principais estão Rut (Eva Henning, agora protagonista depois de secundária em “A Prisão”) e Bertil (Birger Malmsten, no seu quinto filme com Bergman), um casal em viagem, de Itália para Estocolmo, e com uma relação que parece auto-destrutiva sob o peso de frustrações e acusações de culpas passadas. Rut vive ainda as consequências de um aborto que a deixou estéril, fruto de uma relação com o casado Raoul (Bengt Eklund), que a abandonou de seguida. Junta a isso a decepção que foi deixar a carreira de bailarina devido a um problema no joelho. Embora amando Bertil, usa-o como saco de pancada das suas frustrações quase desejando ser maltratada por ele, para satisfazer as suas necessidades auto-destrutivas e baixo amor-próprio, enquanto o tabaco, álcool e insónias a consomem até à neurose.

Por seu lado, Bertil, um académico de modos ponderados, assume que já traiu Rut, e não deixa de recordar a sua ex-mulher, Viola (Birgit Tengroth), também neurótica, e com quem ele só ficou devido à pena de a deixar. Finalmente vemos Viola, quase que num universo à parte, em Estocolmo, deambulando em depressão, sendo decepcionada sempre que tenta ligar-se a alguém. Primeiro é o seu psiquiatra (Hasse Ekman), que em vez de a ajudar a assedia, e mais tarde uma ex-colega de escola (Mimi Nelson), por sinal ex-colega de ballet de Rut, que Viola procura por um pouco de calor humano, para a ver assediá-la também.

Se Rut, apoiada por Bertil (mesmo que este num sonho tenha imaginado que a matou), vai sobrevivendo aos seus altos e baixos emocionais (onde a visão de crianças, ou o encontro fortuito com Raoul em comboios que se cruzam, não ajuda), já Viola, sem qualquer apoio termina suicidando-se.

Filmando parcialmente na Alemanha, Bergman mostra a destruição do pós-guerra, e o desespero da pobreza de um povo, como paralelo com as ruínas e dores das relações e casamentos. Como no seu anterior “A Prisão”, os espaços são fechados e claustrofóbicos, seja numa cabine de comboio de uma interminável viagem, seja um quarto de hotel escuro. Há também uma inovação a nível da câmara, que são os longos planos-sequência, bem coreografados, com esta a seguir os personagens, mesmo que num espaço fechado e reduzido. Mas mais importante que tudo talvez seja a primazia dada à perspectiva feminina (aqui na pessoa de Rut – Eva Henning numa excelente interpretação), que seria marcante em toda a carreira do realizador. O facto de esta ser bailarina, como o foram as duas primeiras esposas de Ingmar Bergman, parece um sinal de que se está em terreno pessoal.

Voltando a misturar tempos com flashbacks de narrativas paralelas, nem sempre explicitamente relacionadas no tempo com a principal, Bergman joga com espaço, movimento, tempo, luz e sombra continuando a busca do seu universo particular, que surgiria em pleno na década seguinte. Não hesita em abordar temas difíceis como o suicídio e o aborto, como fizera em “Cidade Portuária” (Hamnstad 1948), e o amor homossexual.

Sem o prestígio do filme anterior, “A Sede” é o fecho da década de 1940, e a promessa da carreira que estava a nascer.

Produção:

Título original: Törst; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1949; Duração: 84 minutos; Estreia: 17 de Outubro de 1949 (Suécia).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Helge Hagerman; Argumento: Herbert Grevenius [a partir dos contos “Törst” de Birgit Tengroth]; Música: Erik Nordgren; Orquestração: Eskil Eckert-Lundin; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Oscar Rosander; Design de Produção: Nils Svenwall; Coreografia: Ellen Bergman.

Elenco:

Eva Henning (Rut), Birger Malmsten (Bertil), Birgit Tengroth (Viola), Hasse Ekman (Dr. Rosengren), Mimi Nelson (Valborg), Bengt Eklund (Raoul), Gaby Stenberg (Astrid, Esposa de Raoul), Naima Wifstrand (Miss Henriksson, Professora de Dança), Sven-Erik Gamble (Operário à Janela), Gunnar Nielsen (Assistente), Estrid Hesse (Paciente), Helge Hagerman (Pastor), Calle Flygare (Pastor).

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