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Robin and MarianDepois de uma última conquista fútil em França para o rei Ricardo (Richard Harris), Robin Hood (Sean Connery) e o seu fiel João Pequeno (Nicol Williamson) vêem o rei morrer, e regressam a Sherwood para reatar as vidas que deixaram, vinte anos antes. Só que agora, Marian (Audrey Hepburn) é abadessa de um pequeno mosteiro, cobiçado por Sir Ranulf (Kenneth Haigh), acólito do Príncipe João (Ian Holm). Resta a Robin reunir o que resta dos seus antigos homens, e voltar a Sherwood, protegendo Marian, que tenta de novo conquistar, enquanto é acossado pelos soldados do Xerife de Nottingham (Robert Sahw).

Análise:

Nove anos depois de deixar o cinema, com “Os Olhos da Noite” (Wait Until Dark, 1967) de Terence Young, Audrey Hepburn regressava ao grande ecrã, para uma revisão do famoso tema de Robin dos Bosques, numa realização de Richard Lester, um realizador que se notabilizara a filmar os Beatles nos anos 60, e tinha uma carreira à base de comédias ligeiras e filmes de aventura para toda a família.

Com um argumento James Goldman, o filme centra-se na ideia de um regresso mais tardio de Robin Hood (Sean Connery) à Inglaterra, depois de vinte anos nas cruzadas, ao lado do rei Ricardo (Richard Harris). Todo o filme tem por isso um aspecto nostálgico, onde os heróis surgem com idade bem mais avançada que nos é dado a conhecer nas lendas, a qual é, simultaneamente, razão para um olhar mais cândido, tanto sobre os mesmos personagens, suas vidas e realizações, como sobre a época e meia-idade em geral. E há, em espelho, o próprio regresso de Audrey Hepburn, anterior diva fulgurante, agora com 47 anos, e também, como os personagens do filme, a procurar saber qual o seu papel no renovado mundo do cinema.

A história começa com Robin e o seu fiel João Pequeno (Nicol Williamson) a somarem mais uma desilusão ao serviço de um rei, cuja sede de conquistas tornou cada vez mais distante da realidade. Após a morte do rei, o duo regressa finalmente a casa, para encontrar Tuck (Ronnie Barker) e Will Scarlett (Denholm Elliott) ainda a caçar furtivamente em Sherwood, como antigamente. Resta a Robin encontrar Marian, que é agora abadessa num convento, para onde foi levada após a dor da saudade quase terem resultado num suicídio.

Só que, reina agora o desprezível príncipe João (Ian Holm), que deixa os seus acólitos tiranizar a terra, não escapando sequer o mosteiro de Marian, cobiçado por Sir Ranulf (Kenneth Haigh). Robin chega a tempo de salvar Marian, logo a reconquistando para reatarem a vida que nunca tiveram. Só que esta está fadada a ser curta, pois Sir Ranulf e o xerife de Nottingham (Robert Shaw) têm contas a ajustar com Robin, que vão acabar num mano a mano à entrada da floresta. Robin mara o xerife, mas fica mortalmente ferido, morrendo mais tarde sob os cuidados de Marian.

Todo o filme, filmado na árida paisagem espanhola da região de Pamplona na Navarra, pouco consentânea com o verde da Inglaterra, é um exercício de nostalgia. É a nostalgia pela idade que os heróis já não têm, pelas lendas, que Robin ainda conta, mas que se calhar já ninguém acredita, e principalmente pelo romance com Marian, constantemente adiado, e agora demasiado tarde para continuar. É a nostalgia da meia-idade quando se faz o balanço e se pergunta se os sacrifícios feitos e as escolhas de que nos privámos terão valido a pena, e se há ainda espaço para correcções de percurso e para se viver aquilo que agora percebemos ser o mais importante.

Nessas interrogações, Marian representa o lado prático, quase de uma forma natural e mitológica. Ela é a terra (onde sempre ficou), é a mãe (madre abadessa), é o amor (que sempre teve por Robin), é a realidade (que vê acima de tudo). Contrariamente, Robin é o sonho, a aventura, a necessidade de justificar feitos passados com empreendimentos futuros, ainda que não veja que nessa corrida para a frente vá perdendo sempre aquilo que tem de mais palpálvel.

Com duas interpretações, também elas cândidas, de Audrey Hepburn e Sean Connery, não deixamos de sentir simpatia e ternura por este par, que nunca viveu a vida que os contos de fadas lhes prometiam, e são por isso, aos nossos olhos, bem mais reais que o material das lendas.

“A Flecha e a Rosa” centra-se nesse olhar ternurento sobre um par de heróis que nunca esperaríamos ver assim, numa história, de outro modo, modesta, e sem grande motivo de interesse ou aventura, que não seja a interacção doce entre os dois protagonistas. Era um regresso modesto de Audrey Hepburn ao cinema, longe do estrelato de outros tempos, ao lado de um Sean Connery, que depois da grande aventura da série 007 queria agora simplesmente ser levado a sério como actor.

Destaque para um cameo da então muito jovem Victoria Abril (17 anos), futura diva de Pedro Almodóvar.

Produção:

Título original: Robin and Marian; Produção: Columbia Pictures / Rastar Pictures; Produtores Executivos: Ray Stark, Richard Shepherd; País: EUA; Ano: 1976; Duração: 102 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 12 de Março de 1976 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Richard Lester; Produção: Denis O’Dell; Argumento: James Goldman; Música: John Barry; Fotografia: David Watkin [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: John Victor-Smith; Design de Produção: Michael Stringer; Direcção Artística: Gil Parrondo; Figurinos: Yvonne Blake; Caracterização: José Antonio Sánchez; Efeitos Especiais: Eddie Fowlie; Direcção de Produção: Apolinar Rabinal.

Elenco:

Audrey Hepburn (Maid Marian), Sean Connery (Robin Hood), Robert Shaw (Xerife de Nottingham), Richard Harris (Ricardo, Coração de Leão), Nicol Williamson (João Pequeno), Denholm Elliott (Will Scarlett), Kenneth Haigh (Sir Ranulf), Ronnie Barker (Frei Tuck), Ian Holm (Príncipe João), Bill Maynard (Mercadier), Esmond Knight (Velho Defensor), Veronica Quilligan (Irmã Mary), Peter Butterworth (Cirurgião), John Barrett (Jack), Kenneth Cranham (Aprendiz de Jack), Victoria Abril [como Victoria Merida Roja] (Rainha Isabella).

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