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FängelseMotivado pela conversa do seu amigo realizador Martin Grandé (Hasse Ekman), a quem o antigo professor Paul (Anders Henrikson) sugeriu um filme sobre o Diabo ser quem cria e gere a humanidade, comparando a Terra ao Inferno, Thomas (Birger Malmsten), um jornalista, conta o artigo que faz sobre a prostituta Birgitta Carolina Söderberg (Doris Svedlund). A história de Thomas mistura-se com a que ele conta, quando Birgitta abandona o namorado que lhe roubou e matou o filho bebé, e procura uma relação com o próprio Thomas, o qual acaba de se separar de modo violento.

Análise:

De volta à Terrafilm, para um filme em que a Svensk Filmindustri (SF) não estava interessada, Ingmar Bergman voltou a contar com o apoio do produtor Lorens Marmstedt, naquele que parece o filme que serviu de lançamento definitivo àquilo que seria a sua linguagem cinematográfica, quer em termos de expedientes narrativos, quer de temática. A isto não será alheio ser este o primeiro filme realizado por Bergman a partir de um argumento escrito por si mesmo.

Há em “A Prisão” um primeiro vislumbre metafísico, com os temas do mal, da morte, do Diabo, da eternidade a serem trazidos para primeiro plano, enquanto Bergman não se coíbe de narrar histórias dentro de histórias, fazer uso de narradores omniscientes, entrar no terreno dos sonhos, e brincar com a ideia da indistinção entre filme e realidade.

“A Prisão” começa num estúdio de cinema onde Paul (Anders Henrikson), um antigo professor do realizador Martin Grandé (Hasse Ekman) surge (quase como figura não terrena) para trazer a ideia de uma história. Nesta, o Diabo reina na Terra, e todo o sofrimento e mal estar humanos são o verdadeiro Inferno, que tacitamente aceitamos, porque o mundo é e sempre foi criado e gerido por ele. Daí passamos a uma história, que o narrador (voz de Ingmar Bergman) em off nos apresenta como ficção, citando mesmo a ficha técnica do próprio filme de Bergman, e cujos personagens vão interagir com os do prólogo passado no estúdio, deixando-nos sempre a confusão sobre que filme se está realmente a filmar.

Essa história é a de Birgitta Carolina Söderberg (Doris Svedlund), uma jovem mulher que atrai a atenção do jornalista Thomas (Birger Malmsten), amigo do citado realizador do prólogo, a quem Thomas diz ser a protagonista ideal para a história sugerida por Paul. Thomas quer escrever um artigo sobre Birgitta, a qual se prostitui com o consentimento do namorado Peter (Stig Olin) que aprecia o dinheiro ganho. Quando Birgitta engravida, Peter e a irmã, Linnea (Irma Christenson), convencem-na de que não pode ficar com o bebé, e acabam por o atirar ao lago. Mais tarde Birgitta vai abandonar Peter, sendo recolhida por Thomas, que acaba por se enamorar dela, depois de deixar a sua namorada Sofi (Eva Henning). O reaparecimento do corpo do bebé coloca a polícia no encalço de Birgitta, e Paul teme que se descubra o seu papel no crime. Isso leva-o a procurar Sofi, para que juntos separem Thomas de Birgitta. Esta, voltada a casa, acaba morta por um ex-cliente.

No estúdio, Paul regressa para perguntar a Martin se realizou o filme, mas este diz ser impossível, pois haveria uma pergunta final a fazer, mas não há ninguém a quem a perguntar.

Entrando no terreno da imaginação, com toques de metafísica, e muito de filosófico, Bergman lida com o destino, a maldade, a morte e o demónio, a culpa e a inocência, mas também entra no mundo dos sonhos, aborda o papel do narrador e do cineasta como contador de histórias, e essa ténue barreira entre significado e significante de que também é feito o seu cinema. O resultado é um filme muito negro, sob o mote das palavras de Thomas de que quem parar para pensar sobre a vida cometerá suicídio. Mais uma vez, há o peso do mundo contra os protagonistas, aqui não tanto por razões sociais ou políticas, mas sim metafísicas.

É ainda de um modo pouco polido que Bergman abraça todo este universo que fará seu nos filmes mais maduros que se seguiriam, mas é já com arrojo (tanto conceptual, como prático) que filma e narra, deixando que luz e sombra definam espaços e ambientes, movimentando-se com argúcia entre cenários, e diversificando de caves obscuras a ruas molhadas, de apartamentos luminosos a um estúdio ténebre, e lançando-se numa complicada teia de flashbacks, sonhos e filmes dentro do filme.

E sem nunca percebermos se a história de Birgitta é real, apenas a leitura do artigo de Thomas, um prelúdio da história do Diabo sugerida pelo professor Paul, ou mesmo a tentativa de um filme de Martin Grandé, vamos tropeçando em pedaços da vida de Birgitta, que desembocam em pedaços da vida de Thomas (novamente Birger Malmsten, como alter-ego de Bergman, aqui no seu quarto filme conjunto). É por acaso que se encontram uma e outra vez, atraídos, quem sabe pelos crimes a que pensam estar ligados (ele pensa ter morto a namorada Sofi, que na verdade o deixou depois de o deixar atordoado, ela lamenta a morte do filho bebé, que na verdade foi morto pelo amante e irmã). Mas se a culpa os liga e o sonho (literalmente no primeiro e enigmático sonho filmado por Bergman) e ilusão (no filme mudo que os diverte sozinhos) os mantêm juntos, a realidade acabará por separá-los, essa tal realidade que se sobrepõe no final, na lembrança de Paul de que o mundo é gerido pelo Diabo.

Apesar de interpretações e passagens entre temas ainda um pouco grosseiras, “A Prisão” é um definitivo passo em frente na carreira de Ingmar Bergman, que marcaria a sua carreira futura.

Por curiosidade acrescente-se que o pequeno filme mudo que Thomas e Birgitta vêem é o filme que Bergman, ainda criança, obteve para o seu primeiro cinematógrafo caseiro: The Devil’s Wantom”.

Produção:

Título original: Fängelse; Produção: Terrafilm; País: Suécia; Ano: 1949; Duração: 75 minutos; Estreia: 14 de Março de 1949 (Suécia).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lorens Marmstedt; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Erland von Koch; Fotografia: Göran Strindberg [preto e branco]; Montagem: Lennart Wallén; Design de Produção: P. A. Lundgren; Caracterização: Inga Lindeström; Direcção de Produção: Allan Ekelund.

Elenco:

Doris Svedlund (Birgitta Carolina Söderberg), Birger Malmsten (Thomas), Eva Henning (Sofi), Hasse Ekman (Martin Grandé), Stig Olin (Peter), Irma Christenson (Linnea), Anders Henrikson (Paul), Marianne Löfgren (Mrs. Bohlin), Bibi Lindqvist (Anna), Curt Masreliez (Alf), Britta Holmberg (Voz da mãe de Birgitta), Ingmar Bergman (Voz do Narrador).

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