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Two for the RoadDe volta a França para uma reunião de negócios, Mark Wallace (Albert Finney) e a esposa Joanna (Audrey Hepburn), não parecem encontrar prazer no casamento ou na companhia um do outro. Tal é motivo para recordarem as suas anteriores viagens por França, desde a vez em que se conheceram, à sua viagem de lua de mel, passando à viagem de estreia do primeiro carro e anúncio de gravidez de Joanna, até às primeiras infidelidades. Por entre reminiscências e conversas, o casal tenta perceber onde e porquê as coisas entre eles começaram a ir mal.

Análise:

Depois de rejeitado pela Universal, Stanley Donen conseguiu o apoio da Fox, para produzir e realizar o filme “Caminho para Dois”, a partir de um argumento original de Frederic Raphael. Tratava-se de uma história difícil, numa estrutura complexa, que inicialmente desagradou à estrela e escolha única de Donen, Audrey Hepburn. A razão era que a actriz estava ainda escaldada pelo fracasso do filme, também feito de uma colagem de cenas soltas, que foi “Quando Paris Delira” (Paris – When it Sizzles, 1964) de Richard Quine. Mas ao receber o argumento, Audrey Hepburn viu as potencialidades do que seria uma interessante e refrescante dissecação da vida de um casal através dos anos, com tudo o que ela possa ter de ternurento, romântico, imperfeito e amargo.

Para o principal papel masculino terão sido escolhidos Paul Newman e Michael Caine, mas perante a sua recusa a escolha final recaiu no britânico Albert Finney. Não foi uma produção fácil. Stanley Donen, filmando quase por completo em cenários naturais em França, teve que lidar com indisponibilidades de Audrey Hepburn, que passou por mais um aborto espontâneo, o que atrasou as filmagens e contribuiu para um momento pessoal menos bom da actriz.

A história é simples, mas contada de modo muito elaborado. Um casal, Mark Wallace (Finney) e Joanna Wallace (Hepburn) viajam para França onde Mark vai receber mais um contrato de trabalho, ele que é um arquitecto famoso. A viagem é motivo para o casal, em perfeita desarmonia, olhar para trás e tentar rever o que estava bem na relação e onde foi que começou a correr mal.

Tal é motivo para que, mais que um entrelaçar de flashbacks, os momentos nos surjam quase como que fazendo parte uns dos outros, ainda que sejam afastados de anos. Assim temos principalmente a viagem em que Mark e Joanna se conheceram, ele viajando por França sem destino, ela num grupo de coristas, a química foi imediata e ambos passaram a viajar sozinhos. Como segunda história temos uma viagem que os Wallace, recém-casados fizeram com uma família amiga, Cathy (Eleanor Bron), Howard Machester (William Daniels) e a sua irritante filha Ruth (Gabrielle Middleton), que serviu para perceberem tudo aquilo em que não se queriam tornar. Um terceiro momento é o da sua primeira viagem em carro próprio, um MG que arderia no caminho, na qual Joanna confessa estar grávida, e lhes proporcionaria conhecer Maurice Dalbret (Claude Dauphin), futuro patrono da carreira de Mark. Acrescentam-se algumas cenas posteriores em que vemos como Mark traía Joanna já com uma filha, e como em nova viagem por França, desta vez com a filha Caroline, Joanna foi tentada a trocar o marido pelo conquistador David (Georges Descrières).

Todos estes momentos têm em comum tratarem-se de viagens por França. Todos eles se entrelaçam em ecrã de forma engenhosa, com um carro onde sabemos estarem os personagens de uma das histórias, passar pelo local onde vemos os personagens da seguinte, como se fossem concomitantes no tempo. Em simultâneo, vemos os paralelos de situações idênticas tratadas de forma diferente (como na repetida fórmula «o que faz com que duas pessoas comam frente a frente sem uma palavra? O casamento!»), comportamentos diferentes nos mesmos locais, e até perguntas e respostas que parecem passar de um tempo para outro.

A estrutura é, por isso, sempre solta e inesperada, sempre com o duo de protagonistas em cheque, quer rindo inocentemente daquilo em que não se quer tornar, quer observando amargamente aquilo em que se tornaram (veja-se por exemplo o exemplo da praia isolada, em que o casal sonha com o dia em que batam as palmas e sejam servidos, em contraste com anos mais tarde, já ricos, numa praia em que os criados vêm ter com eles a toda a hora, e eles desejam poder bater as palmas para estarem numa praia isolada, os dois sós, como antigamente).

Com um modo divertido, réplicas acutilantes e uma interacção vívida entre os dois protagonistas, a história vai-se adensando, fruto da comparação dos vários momentos, que deixam sempre a pergunta amarga «onde é que o caminho se perdeu?» (num filme que, apropriadamente, é uma colagem de caminhos de estrada). Entre os momentos mais negros estão os das traições de ambos os elementos do casal, com o avistar da ruptura, e todo a catarse emocional que essa realidade provoca.

De um modo tanto alegre como negro (o que era quase uma novidade no cinema comercial da época), Donen mostra algumas cenas de vida conjugal, que através de uma miríade de vinhetas, passadas sempre em viagem, nos desnudam as forças e fraquezas de um par que pode ser, afinal, qualquer par que está junto há alguns anos. Tudo isto é conseguido exemplarmente por Audrey Hepburn e Albert Finney, que podem ser inocentes, divertidos, e loucamente românticos, mas também cínicos, arrogantes e antipáticos. Essa dinâmica foi também fruto da liberdade dada aos actores por Donen, que entregues a si mesmos em muitas sequências, acabaram por se dirigirem a si próprios resultando em enorme espontaneidade (nomeadamente nas cenas ao volante).

O resultado foi um filme bastante revolucionário (na forma e conteúdo, não se coibindo de mostar Audrey Hepburn semi-nua, e capaz de trair o marido), elogiado, tanto pela sua montagem rápida e estrutura engenhosa, como pelas interpretações e abordagem dos temas, num conceito (o da viagem como catalisadora do verdadeiro estado de um casal) que recorda a de Rossellini em “Viagem a Itália (Viaggio in Italia, 1954), e talvez tenha inspirado parte da obra de Richard Linklater. Acresce ainda a bonita banda sonora de Henry Mancini, que o compositor consideraria a sua melhor, das tantas que compôs.

“Caminho para Dois” foi mais um sucesso na carreira de Audrey Hepburn, que só não conseguiu nomeação para o Oscar, porque esta estaria reservada para o seu filme seguinte, no mesmo ano, “Os Olhos da Noite” (Wait Until Dark) de Terence Young.

Produção:

Título original: Two for the Road; Produção: Stanley Donen Films / Twentieth Century-Fox; País: Reino Unido; Ano: 1967; Duração: 111 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox; Estreia: 27 de Abril de 1967 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Stanley Donen; Produção: Stanley Donen; Produtor Associado: James H. Ware; Argumento: Frederic Raphael; Música: Henry Mancini; Fotografia: Christopher Challis [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: Madeleine Gug, Richard Marden; Direcção Artística: Willy Holt; Figurinos de Audrey Hepburn: Ken Scott, Michèle Rosier, Paco Rabanne, Mary Quant, Foale and Tuffin; Guarda-roupa: Sophie Issartel-Rochas; Caracterização: Alberto De Rossi, Georges Bouban.

Elenco:

Audrey Hepburn (Joanna Wallace), Albert Finney (Mark Wallace), Eleanor Bron (Cathy Manchester), William Daniels (Howard Manchester), Claude Dauphin (Maurice Dalbret), Nadia Gray (Francoise Dalbret), Georges Descrières (David), Gabrielle Middleton (Ruth Manchester), Jacqueline Bisset (Jackie), Judy Cornwell (Pat), Irène Hilda (Yvonne de Florac), Dominique Joos (Sylvia).

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